21 de março de 2016

O Diretor e o Roteirista

– Alô?

– Sou eu. Pode falar cinco minutos?

– Posso. Estou escrevendo o próximo episódio aqui, mas posso.

– É sobre isso que eu quero falar com você.

– Sobre o próximo episódio?

– Não. Quer dizer, também. Quero falar sobre o que vem acontecendo de forma geral.

– Como assim?

– Você tem lido as críticas sobre os últimos episódios?

– Não, eu não leio críticas.

– Bem, você deveria ler. Todo mundo está metendo o pau no seriado.

– Mesmo? O que eles dizem?

– Você deixa o seriado se arrastando por uma temporada inteira e nada acontece... Aí, chega no final da tem...

– Espere, eu não deixei nada se arrastando. Eu fui construindo o clima.

– Construindo o clima?

– Isso. Eu colocava um protesto aqui, outro ali. Uma decisão de ministério ali. Ia criando o cenário para o clímax do final da temporada.

– Bom, não é o que pareceu. Todo mundo diz que a série enrolou uma temporada inteira e agora está tudo confuso.

– Não tem nada confuso.

– Como não? Como não? Eu recebo seus roteiros aqui e não entendo nada! Você está fazendo dez coisas acontecerem por episódio!

– Não seja exagerado.

– Exagerado? Olha só: episódio 13. Mandam prender o ex-presidente. Aí ele vira ministro. Na cena seguinte... Veja bem, não é nem no bloco seguinte, é NA CENA SEGUINTE, você resgata aquele juiz que não aparecia desde a terceira temporada e joga ele soltando uma liminar impedindo o ex-presidente de ser ministro. Você não esperou nem trocar de bloco, você fez na cena seguinte!

– É pra mostrar a loucura do momento!

– Se isso mostra uma loucura, não é do momento, é a sua! Ninguém está entendendo nada! E as escutas?

– Gostou das escutas? Como ferramenta narrativa, elas funcionam bem demais, não acha?

– Olha, pode até ser. Mas você não acha que está exagerando?

– Como assim?

– Olha só, eu tenho anotado aqui. Episódio treze. Teve duas escutas. Beleza, elas eram importantes para a história. Episódio catorze. Dezessete escutas. Já começou o exagero.

– Mas elas também são imp...

– Espere, eu não terminei. Episódio quinze. Você lembra quantas foram?

– Não. Acho que umas vinte. Talvez vinte e cinco.

– SETENTA E TRÊS!

– Ah. Achei que fosse um pouco menos. Mas elas são essenciais. E eu sei que o povo está gostando isso. Eu li na internet que isso incendiou a série.

– Sim, eu concordo. Mas... Aliás, você chegou a ver se essas escutas são legais antes de escrever?

– É... Bom...

– Lembra quando você me falou sobre essa ideia das escutas? Eu disse claramente para você: pesquise isso antes de escrever, para não ter nenhum advogado dizendo que o roteiro não é realista. Lembra?

– Sim, sim.

– E você não viu?

– Não, vi sim. Pode ficar tranquilo.

– Mesmo? Você não parece muito seguro.

– Vi sim.

– E elas são legais?

– Ah... Acho que sim. Quer dizer, sim.

– Eu conheço você. Você está mentindo.

– Não, eu pesquisei sim. Eu tenho anotado aqui em algum lugar.

– Ok. Manda essa pesquisa depois que eu quero ver.

– Certo.

– Mas enfim, independente disso, você está exagerando. Tem coisas nessas escutas que nem mesmo os atores sabem do que se trata! Parece que cada episódio você inventa uma empreiteira nova!

– Não, está tudo conectado.

– Sim, mas não adianta você me dizer isso. Você precisa mostrar. E não para mim, mas para os espectadores. Ontem mesmo os executivos do canal me ligaram.

– Ah, é?

– Sim. Eles estão inconformados com a série.

– Claro. Eles são executivos, não entendem de arte. Para eles, tudo é ruim.

– Então, esse é o ponto. Eles não falaram que está ruim. Eles falaram que a coisa está tão confusa que eles não conseguem nem mesmo entender se a série está ruim ou não.

– Bobagem. É só acompanhar com atenção.

– Você realmente acha isso? Acha que o roteiro está completamente sem furos?

– Claro.

– Então vamos lá. Episódio doze.

– Aquele que o líder do governo faz a delação premiada?

– Isso. O episódio começa com ele fazendo a delação premiada. Aí você tem o jornalista tendo acesso ao material. Beleza. Até aí, tudo bem. Só que na cena seguinte mostra um ministro falando que o sujeito não é confiável e a delação não pode ser levada a sério.

– Não ficou genial?

– GENIAL? O cara era o líder do governo!

– Isso.

– Aí ele faz uma delação premiada e o governo simplesmente diz que ele não é confiável?

– Isso.

– Mas qual governo no mundo colocaria um cara que não é confiável como líder no Senado? Quer dizer que o cara era confiável duas horas antes e agora não é mais?

– Então, mas você tem que entender a sutileza. Quando eles dizem que o cara não é confiável, é porque estão mentindo.

– Certo, eu concordo. Mas é uma mentira tão imbecil que ninguém vai acreditar nisso.

– Mas essa é a graça.

– Então faz a coisa de forma satírica! Faz engraçada, sei lá. Agora, você fez sério! Não funciona!

– Mas nesse país onde a série se passa o povo acredita nisso.

– Mas eu não estou preocupado com o povo que mora nesse país, eu estou preocupado com o povo que assiste ao seriado! E esse povo não é imbecil! A emissora fez pesquisas, e todo mundo detestou esse episódio!

– Bom, sei lá. Que tal se eu fizer o líder do governo no senado ser amante da mulher do ministro? E o ministro sempre soube disso, então por isso ele sabia que o cara não era confiável.

– Não. Não. Não. Esquece isso. Vamos em frente. A bobagem já está feita, se tentar arrumar isso vai só piorar.

– Você quem sabe.

– Mas, sério, eu preciso que você dê um direcionamento na série. Dois atores vieram reclamar comigo.

– Quais?

– O que faz o ex-presidente e o que faz o Senador da oposição. Eles não entendem mais os personagens.

– Como assim?

– O cara que fez o ex-presidente veio reclamar comigo que ele não sabe mais se é honesto ou não, então não consegue mais interpretar direito. Ele não sabe mais se está lutando por justiça ou para escapar da cadeia.

– Entendi.

– E então...?

– E então o quê?

– Ele é ladrão ou não é? Ou nem você sabe?

– Não, eu sei sim. Tenho marcado aqui nas minhas anotações.

– Então, me fala.

– Eu preciso ver com calma aqui. Minha mesa está uma bagunça. E o cara que faz o senador de oposição reclamou de quê? Porque esse personagem é corrupto e se o ator não sabe disso é ele é idiota. Isso está claro desde o começo.

– Então, mas é justamente sobre isso que ele veio reclamar. Ele acha que o personagem dele está abandonado, porque todo mundo sabe que ele é corrupto e nunca acontece nada com ele.

– Isso não é verdade.

– Ele é acusado e a acusação some. Sempre! Desde a primeira temporada!

– Não, não é sempre assim.

– É sempre assim, sim! A acusação some. O cara é acusado e de repente ninguém mais fala nada. E você nem se dá ao trabalho de explicar! Parece que você tem preguiça de resolver esse personagem.

– Não, não.

– Aliás, tem um monte de coisa que você está deixando em aberto por causa disso.

– Imagina. Não tem nada em aberto.

– Beleza. Então vamos lá: como você abriu a temporada atual?

– Hum... Acho que foi com o desastre ambiental.

– Isso. E cadê a solução disso?

– É... Bem...

– E a epidemia?

– Que epidemia?

– A do mosquito!

– Ah, sim. Nossa, nem lembrava mais. Bom...

– Olha, me parece que você trabalha assim. Você tem a ideia de fazer um desastre ambiental e escreve isso. Aí você tem a ideia de fazer o negócio do mosquito, se empolga e larga o desastre ambiental de lado. Você simplesmente abandona o negócio e foda-se.

– Eu posso fazer o mosquito ser consequência do desastre ambiental. Tipo, a lama criou outro tipo de mosquito que quando pica as pes...

– Não! Não! E não estamos discutindo esse caso, mas sim que você sempre faz isso! Quando você teve a ideia das delações premiadas, você abandonou o negócio do mosquito! E você nunca explica nada! Sabe do que eu tenho medo?

– De quê?

– Você está todo empolgado com esse negócio de delação premiada, escutas telefônicas... Só que eu sei que você vai começar a nova temporada com as Olimpíadas.

– Como você sabe isso?

– Você me disse.

– Ah, é? Não lembrava.

– E aí você vai simplesmente pegar esse negócio da crise no governo e não vai resolver! Vai largar de lado e começar a mostrar as Olimpíadas!

– Não, não. Eu vou resolver essa crise política sim.

– Não, não vai. Você não planeja nada antes de escrever. Aliás, você nem revisa seus textos!

– Claro que reviso!

– Ah, é? Todos eles?

– Claro.

– Todos? Inclusive os pronunciamentos da presidente?

– Bem, eu preciso ver aqui, mas acho que...

– Os textos dela não fazem sentido! Ela começa falando sobre o ministério e de repente está falando de cachorro, de farinha...

– Farinha? Eu nunca escrevi isso.

– Farinha, mandioca, eu não lembro agora. Mas era algo que não tinha nada a ver. Os pronunciamentos dela têm pensamentos incompletos, palavras soltas... Teve um dia que tivemos que mexer aqui... Tinha uma frase sem verbo! Uma frase de dez ou doze palavras sem um verbo!

– Olha, eu realmente preciso ver...

– A atriz chorou nesse dia! Ela quase abandonou a série porque não consegue decorar suas falas. Parece que você abre o dicionário e vai escolhendo palavras aleatórias e jogando ali!

– Isso não é verdade.

– Não me importa. Revisa isso, por favor. Não é um personagem qualquer, é uma chefe de estado. Ela precisa ao menor ter frases com sujeito e predicado.

– Tudo bem.

– Mas enfim... Eu acho que você devia vir aqui para gente poder planejar os próximos episódios com calma. Quero fazer isso junto com você. E quero saber o que você vai fazer com aquele presidente da Câmara.

– Como assim?

– Esse personagem já deu o que tinha que dar, né? Eu sei disso, e aposto que você sabe também. Mas você simplesmente se recusa a tirar ele da série.

– Isso não é verdade.

– Esse personagem não dá mais. Ele é processado todo dia e você simplesmente ignora isso, no episódio seguinte ele está lá e faz de conta que não aconteceu.  Olha, vamos abrir o jogo. Eu sei que o ator é seu amigo e precisa do trabalho. Mas a gente precisa conversar sobre isso. A gente precisa de uma reunião.

– Bom... Tudo bem.

– Que dia você pode vir aqui essa semana?

– Não pode ser na próxima?

– Por que não nessa?

– Porque eu tive uma ideia que estou desenvolvendo aqui essa semana. Acho que pode virar algo bacana.

– Que ideia?

– Eu vou te falar, mas ainda é segredo. Ok?

– Certo.

– Só entre nós dois.

– Fala logo. Qual ideia?

– Sabe o personagem de extrema direita?

– Aquele homofóbico? Aquele que defende golpe militar?

– Isso. Você viu que ele tem ganhado cada vez mais importância?

– Sim. E não entendo o motivo, porque... Olha, esse personagem é caricato demais.

– Eu estou imaginando uma série só dele. Um spin-off. Não tenho nome ainda, mas estou pensando em batizar essa série de Mito.

– VOCÊ ENLOUQUECEU?

– Eu acho que pode render coisa boa. Mas nem é para agora, é mais para frente. Esto pensando em 2018.

– VOCÊ VAI VIR PARA CÁ AGORA! VOCÊ ENLOUQUECEU COMPLETAMENTE!

– Então, hoje eu não pos...

– AGORA! PEGA TODOS SEUS PAPEIS E VEM PRA CÁ! EU QUERO VOCÊ AQUI EM MEIA HORA! ESSA LOUCURA PRECISA ACABAR! 


(Obrigado a leitora Nadia Nagel pela ideia.)

9 leitores:

Fernando Santos disse...

Esse texto poderia se chamar "Snapshot".
Parabéns, como sempre, Rob! Valeu!

Hally disse...

*slowlyclap*

Enquanto esse roteirista acha que está escrevendo House of Cards, tá mais pra um esquete zoadaço do Zorra Total.

Anônimo disse...

Que merda, como sempre

Rob Gordon disse...

Anônimo:

Sem nome assinando a crítica?
Que covarde. Como sempre.

Rob

Baiano Canguino disse...

Muito bom, muito bom mesmo.

Kosmidis disse...

Obrigado Tio Rob !!! 3 pessoas me olharam no ônibus por causa das risadas !!

Luiz Novaes disse...

Kkkk. Muito bom.
Eu gosto da sutileza de como a série investe em virais fakes. A audiência enlouquece compartilhando as coisas.

Robson N. Santos disse...

Olá Rob, ótima crítica, digo, ótima crônica. Sou ouvinte do Gente que escreve. Você e o Barreto têm me inspirado. Obrigado. Um abraço!

Lari Bohnenberger disse...

Huhauahuhauhauhauhauhauhauahauhu, saudade de ler tuas crônicas... Adorei!

 

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