24 de dezembro de 2016

O Homem que Pulou o Natal

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Eram nove e pouco da manhã quando ele se sentou na cama e esfregou os olhos para espantar o sono. Minutos depois, tomava café na cozinha tipicamente silenciosa de uma casa onde não há ninguém com quem conversar. Enquanto bebia seu café, pensou no dia que teria pela frente.

Era vinte e quatro de dezembro e ele, como sempre, havia deixado o presente dos seus pais para a última hora. Ao pensar nas lojas abarrotadas de gente, teve vontade de desistir. Poderia aparecer sem presentes, inventando alguma desculpa para isso. Mas logo afastou essa ideia da sua cabeça. Precisava dar presentes. Era o que se esperava dele. Era o que se esperava de todo mundo num dia como aquele.

Enquanto trocava de roupa, seu humor piorou. Tentou se convencer de que se sentia dessa forma por precisar enfrentar as lojas, mas sabia que não era esse o motivo. Na verdade, ele apenas não gostava do Natal.

Ou melhor, não via muito sentido no Natal.

Quando era criança, adorava o Natal. Assim que a folhinha da cozinha da casa da sua mãe mostrava que estavam no mês de dezembro, ele começava a sentir uma ansiedade que parecia ter se acumulado secretamente durante o ano inteiro.

E, no dia do Natal, essa ansiedade se transformava em amor e explodia quando ele descobria a mesa arrumada, os enfeites pendurados na casa, os embrulhos coloridos. Aos poucos, seus tios e primos e avós começariam a chegar. E ele adorava as risadas e as brincadeiras que todos faziam entre si, falando com a boca cheia, derrubando bebida...

E, à meia noite todos se abraçavam. Ele não entendia direito porque todo mundo começava a fazer isso ao mesmo tempo, e também não compreendia porque sua avó ficava com os olhos molhados nessa hora. Mas ela parecia feliz e ele adorava aquilo.

Porém, isso tudo parecia ter se acabado junto com sua infância. Conforme os anos foram mudando no calendário, ele também foi mudando. Aos poucos, começou a perceber que toda essa magia existia apenas nos seus olhos de criança. Agora, enxergando o mundo com olhos adultos, começou a ver aquilo de outra forma.

Todos iriam trocar presentes que não precisavam. Todos iriam jantar lembrando as mesmas histórias do passado. Todos iriam se abraçar à meia noite, desejando feliz Natal por que... Bem, porque é isso que se faz à meia-noite. Tinha a sensação que as pessoas desejavam feliz Natal para os outros porque eram obrigadas a isso. Eram obrigadas a participar da ceia com suas famílias. Eram obrigadas a trocar presentes.

Afinal, era isso que se esperava delas.

E ele mesmo não se sentia diferente da forma que enxergava as outras pessoas. Fazia tudo isso porque era o que esperavam que ele fizesse. Para ele (e, como ele acreditava, para qualquer adulto normal), o Natal havia se tornado apenas um dia como outro qualquer, cuja única diferença era ser repleto de tarefas e protocolos. Era uma obrigação anual, uma espécie de burocracia que precisava ser enfrentada.

O tempo perdido escolhendo a roupa que usar na festa, a ceia temperada com as mesmas conversas de sempre, os sorrisos de quem recebia presentes que não precisava, o fingimento de quem dava presentes escolhidos apenas para ir embora do shopping, os abraços de pessoas que mal se falavam durante o ano inteiro...

No que dependesse dele, todos poderiam ficar em suas casas. Poderiam apenas trocar um telefonema desejando Feliz Natal. Seria mais fácil, mais prático. E mais sincero.

Mas tentou não pensar nisso quando saiu de casa planejando seu dia. Passaria na padaria e compraria um maço de cigarros. Depois, rodaria as lojas procurando os presentes para seus pais – de preferência coisas que não custassem muito, mas que não aparentassem ser muito baratos. Por fim, voltaria para a padaria e comeria qualquer coisa ali mesmo; ao final da tarde, criaria coragem e rumaria para a casa dos pais.

Entrou na padaria e comprou os cigarros. Ao lembrar que pretendia almoçar ali, perguntou para o menino que estava no caixa que horas eles iriam fechar as portas. Era um garoto de vinte e poucos anos. Provavelmente filho de um dos donos.

“Hoje trabalhamos no horário normal”, respondeu o garoto, estranhando a pergunta.

“Mas todo ano vocês fecham mais cedo”. Ele achou que o menino não tinha entendido sua pergunta.

“Nós fechamos mais cedo nos dias vinte e quatro e trinta e um, e não abrimos no dia vinte e cinco e no dia primeiro”, explicou o garoto. “Hoje, nós fechamos no horário normal”.

Pensou em dizer ao menino que isso não fazia sentido, já que estavam no dia vinte e quatro, mas viu a fila crescendo atrás de si e mudou de ideia. Enquanto guardava o cigarro no bolso, perguntou, tentando – e não conseguindo – soar o mais casual possível.

“Desculpe... Que dia é hoje mesmo?”

“Vinte e seis”, respondeu o menino, chamando o próximo da fila.

Ele saiu da padaria achando que tinha entendido errado e puxou o celular do bolso. Conferiu a data. Vinte e seis de dezembro. Algo devia estar errado.

Parou na banca ao lado da padaria e olhou os jornais expostos. Todos eles traziam a data de vinte e seis de dezembro. Uma das manchetes falava sobre como o trânsito das estradas devia aumentar agora que o Natal passara.

Não fazia sentido. Ele lembrava claramente do dia anterior, e tinha certeza que o dia anterior tinha sido 23 de dezembro. Havia até mesmo comprado alguns presentes durante a tarde. Não lembrava exatamente dos presentes, porque ele nunca lembrava exatamente dos presentes que comprava, mas tinha certeza de ter comprado.

Voltou apressado para casa e foi até o quarto. Respirou, aliviado, ao ver as sacolas ali. O garoto da padaria devia ter se confundido. O seu celular... Bem, talvez algum defeito pudesse ter mudado a data. Sim, só podia ser isso. Mas e os jornais?

Ligou o computador e conferiu a data. Vinte e seis de dezembro. Abriu um portal de notícias e viu a mesma data e encontrou uma reportagem com fotos mostrando a celebração do Natal nas principais cidades do mundo.

E ele não havia visto nada disso. Aparentemente, os dias vinte e quatro e vinte e cinco de dezembro existiram normalmente, menos para ele. O mundo inteiro teve um Natal normal, e ele... Bem, ele não teve nada. Foi dormir no dia vinte e três e acordou no dia vinte e seis. E sabia que não havia dormido dois dias inteiros, porque, antes mesmo de pensar sobre essa ideia, ela já lhe pareceu ridícula.

A única coisa que sabia é que perdera dois dias da sua vida. Não os tinha “desperdiçado”, e sim “perdido”. Era como se eles não existissem. Ou melhor, era como se ele não existisse nesses dias. Não tinha recordações de nada das últimas quarenta e oito horas. Sabia apenas que não tinha passado o Natal com sua família. Afinal, se tivesse ido até a casa dos seus pais – mesmo sem se lembrar disso – as sacolas de presentes não estariam mais ali.

O problema não era com sua memória. O problema é que dois dias inteiros haviam desaparecido. E não eram dias comuns, mas sim o Natal e sua véspera.

E isso tornava tudo ainda pior. Afinal, se isso acontecesse em outra semana ou outro mês, talvez ninguém nem fosse reparar na sua ausência. Mas o Natal? Como iria explicar seu sumiço para seus pais?

Até onde ele conseguia entender, todos deveriam estar achando que ele simplesmente não havia aparecido na festa de Natal da sua família. E, pior, ele não saberia nem mesmo explicar o motivo. Metade dos seus parentes devia estar morrendo de preocupação, e a outra metade ofendida. Mas por que não tinha nenhuma mensagem no seu celular? Nenhuma ligação? Ninguém teria ficado preocupado com ele? O que tinha acontecido nos dois últimos dias?

Só existia um jeito de saber. Respirou fundo e ligou para a casa dos pais. Quando ouviu a voz da mãe, se preparou para pedir desculpas e pensou que encontrar alguma forma de enrolá-la até achar um meio de justificar sua ausência. Mas ela foi mais rápida.

“Como você foi de viagem?”

“Oi? Viagem?”

“Sua viagem. Foi tudo bem?”

Ele não se lembrava de viagem alguma, e isso poderia ser acrescentado à lista de coisas que ele não conseguia explicar. Assim, sem muita escolha, resolveu dançar conforme a música e disse que tudo correra como planejado. Afinal, algo lhe dizia que a única alternativa faria com que fosse chamado louco.

“Que horas você chega aqui? Lá pelo meio-dia?”

Ele disse que sim, tentando usar um tom de voz que não mostrasse que algo estava errado com ele. Ao mesmo tempo, decidiu que não iria falar nada até entender o mistério. Com sorte, na casa dos seus pais, algo lhe daria alguma pista do que havia acontecido nos últimos dias. Assim pegou um táxi e, na hora marcada, entrou na casa dos pais.

Foi imediatamente beijado pela mãe, abraçado pelo pai e levado a uma mesa com sobras e mais sobras de uma enorme ceia. Logo, tinha com um prato enorme na frente. Ele comia junto com seus pais, que perguntaram mais uma vez sobre sua viagem. Ele respondeu qualquer coisa e ficou aliviado quando eles mudaram de assunto. Na verdade, ele queria falar mais sobre a viagem para descobrir alguma coisa, mas seus pais pareciam querer falar mesmo sobre o Natal.

E contaram para ele como havia sido a festa. Falaram o que tinham comido e bebido, riram ao se lembrar das piadas e brincadeiras e das gargalhadas. Pelo que ele podia ouvir, tinha sido um Natal exatamente igual ao dos anos anteriores. Mas sua mãe não conseguiu disfarçar que, em nesse mar de felicidade, existia uma pequena ilha de tristeza.

“Não foi a mesma coisa sem você aqui”, ela disse, segurando sua mão.

“Mãe, eu...”

“Todos nós nos lembramos de você o tempo inteiro”, seu pai interrompeu. “O Natal não é o Natal sem você aqui.”

Ele olhou para o pai, de volta para a mãe e de volta para o pai.

“Eu sei, mas é que... Olhem... Eu não sei direito como falar isso, mas...”

“Meu filho, você não precisa explicar”, seu pai interrompeu. “Nós sabemos que essa viagem não foi escolha sua, foi coisa do seu trabalho, e que você preferia estar aqui junto com a gente”.

Ele nunca viajava a trabalho. E nunca ouviu falar de alguém que viajasse a trabalho no Natal. Pensou em perguntar ao pai com o que ele trabalhava, mesmo que fosse para ver que isso continuava inalterado, mas achou melhor ficar quieto, e esperou eles continuarem. Mas nenhum dos dois falou algo. Ao invés disso, sua mãe se levantou e caminhou em sua direção. E, sorrindo, o abraçou como se não o visse há anos.
  
“O Natal está começando de verdade agora que você está aqui”.

Sem saber o que dizer, ele abraçou a mãe de volta ao mesmo tempo em que ouviu a campainha tocar. Fez menção de escapar do abraço, mas sua mãe resistiu. E ele desistiu ao ouvir seu pai sair da mesa dizendo que “deixem que eu atendo”.

Ainda estava preso nos braços e no sorriso da mãe quando ouviu os gritos. Reconheceu a voz de um dos seus tios. Depois, a risada do primo. Antes que entendesse o que estava acontecendo, sua cozinha foi invadida por todos os parentes, que gritavam seu nome e vinham abraçá-lo, fazendo festa para ele.

Sua mãe beijou seu rosto e abriu espaço para ele. Levantou-se e abraçou todos, sem entender direito o que faziam ali. Logo ficou claro que o Natal na casa dos seus pais não havia sido o mesmo Natal de sempre. Pois ele não estava ali.

“Nós fizemos a ceia para a data não passar em branco”, explicou sua mãe.

“E para a comida não estragar”, gritou seu tio, fazendo todos rirem. Sua mãe continuou: “Mas não trocamos presentes nem desejamos feliz Natal uns aos outros na meia-noite.”

Ele olhou para todos genuinamente intrigado. E não encontrou nenhuma reposta. Apenas sorrisos.

 “Como assim?”, finalmente perguntou.

“Não seria a mesma coisa sem você”, respondeu seu pai. “Então nós decidimos transferir o Natal da nossa família para hoje. E fizemos essa surpresa para você”.

Ele se levantou, ainda tentando entender aquilo.

“Mas o Natal é dia vinte e quatro. Não sei se alguém pode simplesmente mudar...”

“Bobagem”, sua mãe respondeu. “O Natal não é dia vinte e quatro, nem dia vinte e cinco”. Então, o olhou diretamente nos olhos. “O Natal é quando estamos todos juntos. O Natal é quando estamos felizes por termos uns aos outros”.

Ele sentiu seu peito apertar, ao perceber que sua mãe ainda enxergava o Natal da mesma forma que ele fazia quando era criança e não sabia definir porque gostava tanto daquele dia. Na verdade, percebeu que todos seus parentes ainda enxergavam o Natal assim. Sim, trocar presentes, reunir a família, desejar Feliz Natal... Tudo isso era o que se esperava deles.

Mas eles não faziam isso porque era o que se esperava. Eles faziam isso porque queriam. Porque era a forma deles demonstrarem “que mais um ano se passou, e estaremos juntos mais um ano. E somos felizes com isso”.

Para ele, aquele foi o melhor Natal em anos. Não o deixaram explicar que estava sem presentes e logo a casa foi tomada por risadas e gritos e abraços e copos de bebida derrubados.

Ele logo parou de se preocupar com o que havia acontecido com os últimos dias ou com a suposta viagem tinha feito. Mas não porque esquecera o assunto ou se convencido de que nunca encontraria uma explicação, e sim porque ficou tão envolvido em ficar junto com sua família que não encontrava espaço para mais nada. E na terceira vez que ele riu gostoso ao ouvir seu tio relembrando uma história de sua avó que ele conhecia de cor, desistiu de tentar entender.

A família inteira se abraçou, com todos desejando Feliz Natal para todos, no meio da tarde. E, pela primeira vez em anos, ele entregou cada abraço o mais forte que conseguiu, realmente desejando que cada uma daquelas pessoas tivesse um Natal feliz. Mas, ao se livrar do último abraço, teve a sensação de ver algo diferente ao lado da árvore. Olhou rapidamente nessa direção.

E lá estava ele mesmo. Ainda era menino e não tinha mais que cinco anos. Seus olhos brilhavam enquanto observava sua família inteira se abraçando. O garoto parecia encantado, e sorria como se percebesse, pela primeira vez, que aquelas pessoas emanavam amor.

Assustado, piscou os olhos e o menininho não estava mais ali. Passou a mão pelo rosto e descobriu seus olhos molhados, exatamente como ficavam os olhos da sua avó quando todos se abraçavam na noite de Natal.

Quando a noite caiu, ele, já em casa, não lembrava mais dos dias que haviam sumido. Pensava apenas na tarde que tinha vivido. E assim, caiu num sono profundo e, apesar de não se lembrar disso quando acordou, sonhou com a avó e com o menininho ao lado da árvore.

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No dia seguinte, acordou e decidiu dar uma volta. A cidade devia estar começando a ficar vazia para o Ano Novo, talvez ele arriscasse um cinema. Mas, antes, precisava de cigarros. Assim, foi até a padaria e pediu um maço. Tirou o dinheiro do bolso e entregou ao menino da padaria, que o agradeceu e disse.

“Caso você precise de algo mais, lembre-se que hoje fechamos às dezoito horas.”

“OI?”, ele disse, sem disfarçar seu espanto.

“Hoje, dia vinte e quatro, nós fechamos no fim da tarde. Amanhã, dia vinte e cinco, nós não abriremos”, o garoto respondeu casualmente.

Ele virou-se para a porta da rua, como se fosse sair da padaria, mas parou no meio do caminho. Estava de novo no dia vinte e quatro. Ainda não entendia o que havia acontecido, e provavelmente nunca iria entender. Sabia que não tinha sonhado aquilo, pois usava a camiseta que sua tia lhe dera de presente no dia anterior... Mas, de alguma forma, os dois dias perdidos estavam de volta. Ou talvez nunca tivesse perdido dia nenhum. Não sabia. Não sabia e desistiu de entender.

Apenas respirou fundo e, com um sorriso nos lábios, concluiu para si mesmo.

“Hoje é Natal”, falou baixinho. Não percebeu que usou o mesmo tom de voz de quando tinha cinco anos de idade.

“O Natal não é um dia”, ouviu o menino do caixa da padaria falando para ele. “O Natal é um espírito. Se você carrega verdadeiramente esse espírito dentro de você, todo dia é Natal”.

Assustado, ele olhou de volta para o caixa, apenas para encontrar o menino ocupado, conversando com outro cliente. O garoto claramente nem percebia mais sua presença ali.

Ele sorriu de novo ao perceber que certas coisas não se compreendem. Elas apenas se vivem. E o Natal é uma delas. E saiu pela rua, para comprar os presentes dos seus pais, disposto a comprar alguma coisa que mostrasse a eles o quanto ele os amava. E mesmo se não encontrasse nada, não tinha problema. Ele queria apenas ir para a casa dos seus pais e ver sua família. Ele queria apenas que o Natal chegasse logo.

E, feito criança, queria que o Natal não acabasse nunca.



(Que você e sua família tenham um excelente Natal...

Um Natal daqueles que não acabam nunca.)

9 de novembro de 2016

Gritos

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Era um saguão de aeroporto. E como todo lugar onde pessoas partem, era recheado de despedidas impossíveis de ser adiadas e abraçados de reencontro desejados. Eles eram os únicos que se reencontraram por acaso.

A mala dele bateu nas pernas dela – ou as pernas dela dançaram com sua mala – e um pediu desculpa para o outro. E se viram pela primeira vez em anos.

Haviam crescido no mesmo prédio, em meio a uma enorme turma que, como toda turma de amigos, deveria ser para sempre. Mas não foi. As brincadeiras de infância que se tornaram paixões adolescentes acabaram sumindo na poeira de caminhos que não se escolhem. Dos amigos eternos, sobraram apenas lembranças doces de um tempo em que os dias eram maiores.

Ele, solitário, havia desembarcado tentando ignorar que não tinha para quem ligar e dizer que havia chegado bem. Tinha a impressão que esse vazio o acompanharia em todas as viagens, num canto da mala. Ela, anestesiada, tinha se despedido do marido que viajou a trabalho tentando driblar da sensação de que se sentia mais feliz quando estava sozinha. Não era a primeira vez que sentia isso, mas não queria pensar a respeito.

Mas não pensaram nisso quando se abraçaram de forma desajeitada. Muito do abraço era saudade, mas havia pitadas de impulso e um pouco de vontade de voltar para as noites de verão do prédio, quando sentiam que ainda tinham muitos caminhos pela frente.

Os cabelos dela estavam mais curtos do que ele lembrava. O rosto dele tinha linhas que ela não conhecia.  Mas com a proximidade o sorriso logo voltou a ser o mesmo de anos antes. Depois do como você está e o que está fazendo aqui, a sugestão: vamos tomar um café. Ainda não jantei. Novo sorriso. Podemos ir comer algo.

Depois de dezessete anos e vinte e um minutos, estavam no bar do hotel ao lado do aeroporto. O primeiro gole teve sabor de me conta como anda sua vida, o segundo desceu confortável com você tem visto as pessoas do prédio e o terceiro, mais ardido, deixou a sensação de como o tempo passa. A cada gole, os sorrisos se abriam em busca de um passado. E de esquecer o presente.

“Eu era apaixonado por você”.

A frase saiu exatamente entre a brincadeira e o desabafo, sem saber para qual lado seguir. Ele tentou se convencer que ela havia escapado sem querer, mas não era verdade. Desde o segundo gole estava pensando nisso. Torceu para ela levar na brincadeira, mas ela apenas o olhou. E, fitando os olhos dele em busca do garoto do sexto andar, ela pensou que se ainda fosse menina, seus olhos teriam imediatamente fugido dos dele.

“Eu nunca soube disso.”

“Sempre fui. Apenas não tive coragem de falar”.

O bar estava quase vazio. Numa mesa perto da janela, um casal tentava se conhecer. No balcão, um homem tentava esquecer que se conhecia. Eles eram sortudos. Conheciam um ao outro e, ao mesmo tempo, tudo parecia novo.

Exatamente como nas noites de verão do prédio.

“Acho que nunca deixei de ser.”

Ela odiava a palavra “nunca”, mas não comentou isso. Na verdade, não disse nada. Apenas deixou seus olhos explodirem em sorriso – e ele sorriu de volta ao perceber que ela ainda os apertava quando estava feliz, exatamente como ele se lembrava.

Sorrindo, refugiaram-se no passado.

Sorrindo, se esconderam do apartamento vazio e do casamento que foi um erro.

Sorrindo, estavam no quarto do hotel. Ele sentado na cama aninhado no cheiro dela. Ela sentada sobre ele, dançando ao redor de sonhos e memórias. Os beijos funcionavam como pontes entre as memórias dele – aquela tarde na sorveteria, o dia em que a viu beijar outro sujeito numa festa, a ocasião em que conversaram até de madrugada – e para os devaneios dela – e se ainda fosse solteira, e se nunca tivesse se casado, e se tivesse se casado com ele.

Ele gemia de saudade e ela de libertação. A mulher abraçava um garoto que sonhava com ela há anos, e ele abraçava a mulher que o tornaria o garoto que ele havia sido em homem. Os beijos rodopiavam ao redor da paixão de adolescência dele e o prazer de ser a mulher mais desejada do mundo naquele momento.

Em um determinado momento, a ponta do seio dela deslizou pelo seu rosto e ele imediatamente soube que jamais esqueceria aquele pequeno momento. E estava certo. Ela, porém, quando abriu os olhos rapidamente e encontrou uma gota de suor descendo pelo ombro dele, achou poético, mas perdeu essa memória dois gemidos depois.

Na estrada, os carros passavam sem imaginar o que acontecia na janela do terceiro andar do hotel que estava acesa. Mal olhavam para ela, na verdade. E, se olhassem, jamais imaginariam que um menino estava concretizando sua paixão e se transformando em homem, e que uma mulher havia sido promovida, pelo acaso, ao posto de rainha de um homem.

Mas, se tivessem prestado atenção, algum motorista teria ouvido o grito. Afinal, foi um grito de décadas esperando para berrar o nome dela, e o grito de prazer de uma mulher que tinha a certeza que seu nome nunca mais seria gritado e descobriu estar errada.

Foram gritos de dezessete anos. Foram gritos de uma vida.

E aconteceu ali ao lado do aeroporto, num hotel daqueles que a gente não guarda o nome. Mas foi numa noite de verão. Isso, nenhum dos dois esqueceria.

(E sim, eles ainda estão lá. Caso você passe pela estrada, procure a janela acesa no terceiro andar.)

18 de agosto de 2016

Aguaceiro

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Sentado ao lado da janela, ele contou as lágrimas que caíam do céu inundando a rua de tristeza. Sentiu o cheiro da água que inundou o espaço entre prédios com poucas luzes acesas e viu o semblante de memórias iluminado rapidamente por um relâmpago. E fechou os olhos ao som do trovão.

Ela havia voltado.

Seu corpo dançava sobre o dele feito tempestade, mudando de direção com o vento de sua respiração. Seus olhos precipitaram-se sobre os dele deixando garoar um sorriso que parecia encharcá-lo sem que ele percebesse. Molhado, ouviu o sussurro de seu nome num som distante que parecia cair nos telhados atrapalhando o sono dos vizinhos.

O cheiro de suor invadiu o espaço entre passado e presente, misturando recordações com desejos. Um relâmpago mostrou a silhueta dela sobre seu corpo, outro entregou que a sala estava vazia de amor. Com medo, fechou os olhos e segurou a lembrança pela cintura, pedindo para que aquilo nunca acabasse – exatamente como havia feito pouco antes de acabar.

Não entendia mais se os raios estavam no mundo ou dentro dele. A cada facho de luz, era como se pudesse olhar para dentro de si mesmo e descobrir que a chuva o havia deixado alagado dela. Dela e sua voz que gemia garoas. Dela e seu corpo que dançava tempestade. Dela e de suas promessas que o arrastaram feito dilúvio.

E de repente um trovão gritou com dor e saudade o nome dela, exatamente como havia gritado num passado distante, ao lado da mesma janela. Gritou seu nome e o pedido de que a chuva fosse para sempre e não durasse apenas quarenta minutos ou quarenta noites. E, tremendo de frio, encolheu-se nela apertando-a com força.

E quando seu lábio ofegante roçou a pele delicada dela, o Sol brilhou.

Abriu os olhos e viu que ela não estava ali. Encolheu-se na poltrona ao lado da janela, decidido a dormir o resto da madrugada ali mesmo, em busca de um cheiro há muito desaparecido.

E a chuva continuava a cair. 

23 de junho de 2016

O Rei Embriagado

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O chão saindo de foco a cada passo não significava nada. Era o maior homem do mundo e seu terno amassado mostrava isso. Achava que estava andando rápido demais, mas quando tentava diminuir o ritmo perdia a paciência e voltava a acelerar, tropeçando em sonhos esquecidos na calçada, exigindo que as árvores abrissem caminho para ele. Sacou a garrafa de vodca barata já e deu um gole no cheiro forte que havia sobrado dela. Vazia. Não precisava mais dela. Queria, mas não precisava. Nem da vodca, nem dela. Tinha um terno que, mesmo amassado, era um terno. E tinha a calçada toda para seu poder de fazer o chão sair de foco. Suspirou e cantarolou baixinho uma canção de sua terra. Não sabia o nome. Sabia apenas aquele trecho e não fazia ideia porque ela havia surgido em sua mente. Talvez estivesse bêbado? Já havia reparado nisso: sempre que cantava sozinho era porque havia bebido uma a mais. Mas nunca seria a mais, porque era o maior homem do mundo. Com graça etílica, desviava de amores frustrados e paixões não consumidas. Com a leveza que somente o álcool traz, equilibrava-se numa corda bamba imaginária, tomando cuidado para não escorregar na saudade e mergulhar no fosso de tristeza fria que chamava seu nome, metros abaixo. Fora de foco. Igual ao chão. Mas chegaria ao outro lado da corda. Sentia-se vivo demais para morrer. Sentia-se vivo demais para não ser. Mas, ao mesmo tempo, queria apenas sentar um pouco. Sentar e descansar os pés de um dia que terminou tarde demais, de um dia que não devia ter começado prometendo que seria apenas igual ao outro. Novo gole no ar quente da garrafa. Vazia. Vazia como sua mente, incapaz de segurar cada pensamento por mais de um instante. Mas não queria pensar. Não precisa. Queria apenas se arrepender de ter bebido a última dose. Não. O problema não era a última dose e sim o fato dela não ser a penúltima. Queria apenas mais uma. Dois dedos. Dois dedos e um chorinho porque seria a última. E chorou o fato da bebida ter acabado, não porque dependia dela, mas sim do torpor feliz que ela escondia. A garganta ardia mas as memórias suavizavam. Era o maior homem do mundo e queria ser homem. Queria se apaixonar feito príncipe e amar feito rei, fazendo castelos tremerem com os gritos. Queria ter a força de um animal ferido e fazer sexo furiosamente até ficar tão saciado que a felicidade seria um detalhe. Era o maior homem do mundo e estava indo para sua casa velha, com armários vazios e fogão quebrado. Era o maior homem do mundo e tinha um terno surrado que detestava por usar em entrevistas de emprego. Novo gole no ar quente da garrafa vazia. Não precisava mais dela. Não hoje. Amanhã sim, mas não hoje. Hoje, ele era o maior homem do mundo. E logo o chão entenderia isso e pararia de sair do foco. Pois a bebida o transformava numa espécie de deus. O mundo era dele e o chão precisaria entender isso. Queria também que seus pés parassem de doer. Queria entrar em casa e tirar um pouco os sapatos. Deitar. Só um pouco. Um último gole, apenas para matar a sede e estender sua divindade. Queria cochilar um pouco e sonhar só um pouquinho com um mundo onde ele pudesse sonhar. Um mundo onde ele seria rei e a garrafa estaria sempre cheia. Não de cheiro quente, mas de calor. Do calor dos gritos dela. Para sempre.


(Uma pequena homenagem ao sujeito que passou em frente a minha casa às três horas da manhã, cambaleando e com um garrafa de vodca barata nas mãos).

18 de junho de 2016

Velhoeaputaquepariu.com

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Eram quatro e estavam em algum lugar entre a quinta e a sétima cerveja – exatamente no lugar onde nascem as conversas que poderiam transformar o mundo caso alguém se lembrasse delas no dia seguinte. Mas a conversa não nasceu querendo mudar o mundo e sim como um desabafo, quando um deles aproveitou um momento de silêncio para suspirar.

“Eu não tenho mais saco para redes sociais”

Todos concordaram com a cabeça – menos um que, ao pressentir que o assunto iria ganhar força para virar conversa, decidiu pedir mais cervejas. O autor da frase deu os últimos goles no copo e continuou.

“Hoje em dia, tudo o que se fala é política. Política e ativismo.”

“Essa geração acha que adianta falar alguma coisa”, um deles resmungou enchendo a boca de amendoins.

“Eles são jovens. Nós já fomos assim também”, um deles lembrou. “Como falava aquela música mesmo? Fomos tão jovens? Somos todos jovens? Como é mesmo?”

“Era algo assim. É Capital Inicial, não é?”

“Acho que é Barão Vermelho. Não lembro.”

“Mas o negócio do ativismo é verdade. Eles transformam tudo no grande problema do mundo. E às vezes eles até estão certos. Mas aí aparece uma coisa nova e eles inventam outro maior problema do mundo.”

“E esquecem o primeiro problema.”

“Isso. E não resolvem nenhum deles.”

O garçom chegou com as cervejas, interrompendo os devaneios musicais. Um deles aproveitou o silêncio para colocar o assunto no rumo certo.

“Outro dia eu estava olhando o Facebook e vi duas pessoas debatendo. Uma delas colocava a culpa da crise do país no governo que entrou. A outra dizia que a culpa era do governo que saiu.”

Todos riram na mesa.

(Na mesa ao lado, uma garota de vinte e poucos anos que estava com o celular na mão olhou feio para eles, mas eles não perceberam. Assim, resignada, ela voltou sua atenção para o celular, e continuou a escrever seu texto problematizando a caça predatória de focas no polo Sul e como isso é uma consequência nefasta do capitalismo. Ela ainda estava em dúvida se iria usar a tag #JeSuisFocas no final do texto, mas não estava certa disso. Queria algo com mais impacto.)

“Quantos governos nós já vimos entrar e sair? Uns dez?”

“Uns dez. E todos eles colocam a culpa no governo que saiu.”

“Essa é a verdadeira democracia”, um deles disse, erguendo o copo. “No Brasil, a culpa é de todos.”

“E de ninguém ao mesmo tempo”, um deles respondeu, completando o brinde.

“Mas é sério”, o primeiro disse. Como qualquer pessoa da sua idade era teimoso (e como qualquer pessoa da sua idade, já havia desistido de romantizar sua teimosia com a palavra “determinado”) e queria falar sobre as redes sociais. “Eu não aguento mais. Eu lembro quando começaram as redes sociais. Falávamos sobre música, sobre filmes. Sobre a vida. Hoje, só se fala sobre política e sobre causas sociais”.

“Sim, é verdade. É o dia inteiro isso.”

“E eu acho importante. Porra, quando a gente era moleque, a gente também lutava por essas coisas. Mas o jeito que as coisas estão hoje...”

“Ninguém quer defender nada. As pessoas escrevem apenas porque elas querem trancar.”

“Trancar? Trancar o quê?”

“Não sei. Eu já vi esse termo antes. Fulano trancou a internet.”

“Ah, acho que é quando tem aquele cadeadinho do lado do perfil? É pra todo mundo saber que aquela pessoa trancou a internet?”

“Não, não é trancar. É lacrar.”

“Lacrar?”

“Isso.”

O primeiro encheu os copos de todos, com seus olhos brilhando. Seu argumento havia encontrado ainda mais força.

“Estão vendo? Esse é meu ponto. Hoje em dia, todo mundo quer... Lacrar, é isso? Lacrar a internet. Vou escrever sobre essa professora do Piauí que foi agredida com um apagador para lacrar a internet. Vou responder esse sujeito que é religioso para lacrar a internet. Vou postar meu cardápio de comida vegetariana para lacrar a internet. E a gente nem sabe direito o que é lacrar.”

“As pessoas fazem isso? Lacram a internet com cenouras e beterrabas e coisas assim? Aposto que meu médico está por trás disso. Ele parece um maníaco com essa história de salada.”

Silêncio. Todos pensavam no assunto – menos no paciente do médico obcecado por saladas, que começou a pensar em pedir uma porção de calabresa. Sempre que pensava no médico, sentia vontade de comer porcarias. Era o seu jeito de mostrar que quem mandava na sua vida era ele. Ao concluir isso, fez um sinal chamando o garçom pensando que “vou pedir para ele encher de azeite que eu quero lacrar essa porra dessa calabresa também.”

“Estamos velhos demais para as redes sociais”, um deles suspirou.

“Na verdade, nós precisamos de uma nova rede social. Uma que seja feita para nós.”

A declaração saiu despretensiosa, mas caiu como uma bomba na mesa. Por que não haviam pensado isso antes?

“Uma rede social onde só seriam discutidos os assuntos das redes sociais de dez anos atrás.”, continuou um deles.

“Música. Cinema. Quadrinhos. Relacionamentos...”, exemplificou o outro

“Uma rede social para pessoas normais”, sintetizou um deles.

“Livros!”, um deles gritou, batendo a mão na mesa. “Faz anos que não consigo conversar sobre livros com alguém nas redes sociais!”

“Mesmo?”

“Sim, a última vez foi quando um militante político disse que eu devia ler um livro sobre a União Soviética. Mas acho que isso não conta, porque ele falou isso, disse que eu sou manipulado e me bloqueou logo em seguida. Então não foi bem uma conversa.”

“Esse tipo de pessoa será banida na nossa rede social!”

“Boa! Já estou gostando da ideia!”, celebrou um deles, enchendo novos copos. “A cerveja acabou, hein?”

“Toda pessoa que problematizar um problema que não é um problema não terá espaço. Ela que vá problematizar os problemas em outro lugar.”

“Os problemas problematizados não são problemas nossos!”

“Cara, que puta frase”.

“Obrigado. Mas é verdade. Vamos ter uma rede social para bater papo.”

“Não vai dar certo”, um deles disse. “Não vai dar certo”.

“Como assim?”

“Toda rede social começa assim. Mas depois ela começa a se emporcalhar com esses assuntos. Aí você entra um dia querendo conversar sobre jazz, mas não pode, porque um garoto foi chamado de gay numa escola de Moscou e todo mundo está falando sobre isso.”

“É verdade. Nossa rede social só funcionaria se ela não pudesse ter pessoas dentro dela. Aí sim seria bom.”

“E se filtrássemos por idade?”

“Como assim?”

“Só quem tem mais de trinta anos pode entrar na rede. Porque, sejamos sinceros. Com trinta anos, a pessoa já aprendeu como as coisas funcionam. Ela sabe que fazer escândalo e textos enormes e campanhas disso ou daquilo não mudam nada.”

“Eu, com trinta anos, era assim.”

“Eu também.”

“Então é isso. Somente pessoas com mais de trinta anos podem entrar. E para provar a idade, a pessoa precisa colocar o CIC dela.”

“Não é mais CIC, é CPF.”

“Foda-se. Para mim vai ser sempre CIC. Passei a vida inteira falando CIC.”

“Olha, eu acho a ideia boa. Mas precisamos de mais regras. Uma coisa que precisa ser proibida são aquelas crianças assustadoras.”

“Que crianças?”

“Aquelas crianças politizadas que falam como se fossem alunos de pós-graduação. Já viu essas histórias? Outro dia eu li sobre uma criança que tinha três anos de idade e começou a bater boca com a professora sobre direitos das mulheres. E explicou para a professora que era hora de começar a quebrarmos paradigmas.”

“É sério isso? Com três anos?”

“Eu com três anos não sabia nem comer direito.”

“Meu médico foi uma criança assim, tenho certeza. Eu não estou exagerando, vocês precisam ver o imbecil falando sobre vegetais. Ele começa a falar sobre o valor nutricional do alecrim e é como se estivesse falando da descoberta de um novo planeta.”

“Bem, essas crianças não estarão na nossa rede. Muito menos as pessoas que conhecem essas crianças.”

“Meu médico deve ser uma pessoa muito infeliz.”

“Certo. Somente assuntos saudáveis. Nada de histórias com crianças destinadas a quebrar paradigmas no pré-primário. Nada de problematizações. E, claro, acima dos trinta anos.”

(Na mesa ao lado, a garota do texto sobre as focas virou a cabeça para começar a brigar com eles, dizendo que essa rede social seria excludente e que esse é o tipo de atitude que faz com que o mundo se torne um lugar menos humano e que beneficia apenas as elites e #JeSuisCriançasdeFanfics.)

“Porque é hora de termos um lugar nosso. Não somos mais respeitados nas redes sociais.”

(Ao ouvir a expressão “não somos mais respeitados”, a garota desistiu da briga e imediatamente simpatizou com eles. Era mais forte que ela: não podia identificar uma minoria sem imediatamente procurar uma bandeira para erguer. Abriu o celular e começou a digitar um novo texto sobre a falta de espaço que as pessoas de meia-idade tinham nas redes sociais, e como isso era culpa de corporações como a Apple e a Samsung e do consumismo selvagem. Ia lacrar a internet.).

“Então estamos combinados. Vamos criar a nossa rede social.”

“Podemos chamar de Paraíso.com? Ou é pedante demais?”

“Que tal Paradise City? E aí já conversa direto com o público dos anos 80”, disse um deles, que sempre ouvia o filho que estudava marketing usar a expressão “conversar com o público”.

“Melhoridade.com?”

“Melhor Idade? Não! Velho é a puta que pariu!”

“Foi só uma ideia. Minha calabresa está chegando, vamos pedir mais cerveja?”

“Ei, esse nome é bom.”

“Qual?”

“Velho é a puta que pariu.”

“Tipo... velhoeaputaquepariu.com?”

“Isso.”

Silêncio. Não era um nome fácil de digerir. Mas era um nome...

“Forte. Eu gosto.”

“Isso. Já mostra que ali é nosso lugar.”

“Imagine as pessoas da nossa idade conversando? Depois me adicione lá no velhoeaputaquepariu. Dá até orgulho de falar.”

As cervejas chegaram e, com elas o plano.

“Bem, senhores, temos um projeto. Vamos fundar nossa rede social.”

“Perfeito!”, continuou um deles.

“Ótimo! Não vejo a hora de fazer meu cadastro”, celebrou outro.

“E como fazemos isso?”, perguntou um, trazendo todos de volta à realidade.

Novo silêncio. Mas, desta vez, a resposta era óbvia demais.

“Precisamos de alguém que saiba programar.”

“Sim, eu não entendo nada disso.”

“Precisa ser alguém que entenda do assunto. Das funcionalidades e tal.”

“Funcionalidade é aquele negócio de ter a coisa no celular?”

“Sim, também.”

“Eu odeio rede social no celular. Fica apitando o dia inteiro, aí você vai abrir e abre o e-mail, você tenta fechar o e-mail e acaba ligando para sua irmã... É um inferno.”

“Fora que não dá para ler. Eu tenho três óculos hoje. O de perto, o de longe, e o de notificações no celular. Não consigo ler nada.”

“Bom, a velhoeaputaquepariu não precisa ter no celular. Mas precisa ter um site. Precisamos de um programador.”

E de repente, um deles engasgou com a cerveja.

“Ele será um jovem!”

“Como assim?”

“Ninguém da nossa idade sabe fazer isso! Vamos ter que contratar um jovem!”

Todos olharam horrorizados. Era verdade.

“Ele vai ficar usando aqueles termos que ninguém conhece. Vocês já viram uma criatura dessas? É horrível!”

“Minha filha namorou um cara que mexia com isso. Eu não entendia nada do que ele dizia.”

“É sério isso? Eu nunca vi um cara assim.”

“É horrível. Você não entende nada do que ele fala. E tudo o que você pergunta ele simplesmente olha como se você fosse um homem das selvas. Eu lembro que perguntei um dia para o menino da firma se o site que ele estava fazendo ia funcionar com mouse e ele respondeu que... Não entendi o que ele respondeu, mas tenho certeza que ele me xingou de algum jeito.”

“Eu não vou falar com uma pessoa dessas.”

“Eu também não. Mal consigo entender o que meu filho fala, não vou passar por isso com um estranho”.

“Eu vou pedir mais cerveja.”

“Aproveita para pedir para fechar essa janela aqui, está frio.”

“Vocês vão querer mais calabresa? Essa aqui acabou.”

E assim, entre o prato vazio de calabresas e o vento que entrava pela janela, o assunto morreu. E essa foi a maior demonstração de que o velhoéaputaquepariu seria um sucesso: lá, as pessoas saberiam naturalmente quando um assunto acabou. Logo, estavam conversando sobre outra coisa... Até que um deles lembrou.

“É Legião Urbana!”

“Oi?”

“A música! É Legião Urbana.”

“Que música?”

“Somos tão jovens... Tão jovens...”, ele cantarolou um pedaço.

“Talvez o Legião Urbana seja tão jovem”, respondeu um deles. “Nós não somos faz tempo.”

E fizeram novo silêncio, até a hora de pedir mais cerveja.


(Um agradecimento a @danieladavisp, @vuintrieri, @willianifanger e @judamasceno por muitas das ideias desse texto.)
 

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