2 de maio de 2013

Miragem

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Poderia ser você.

Foi isso que me disseram os cabelos dourados que brilharam quando encontraram com o Sol, sendo beijados por cada raio. Foi isso que me disse o modo de andar, que fazia o mundo se dobrar à sua volta, assumindo seus contornos e lhe estendendo caminhos feitos de boas vindas.

Poderia ser você.

Foi isso que me disseram seus olhos fitando o chão e escondendo sua alma dos outros pedestres, jurando-a ser mais preciosa que a paisagem urbana. Foi o que me disseram as mãos no bolso, que emprestavam um ar de casualidade e até mesmo descaso na forma que brilhava pelas ruas.

Poderia ser você.

Foi isso que me disse aquele tênis surrado que desafiava todas as revistas e editoriais de moda e jogava na cara do mundo que certas coisas não se compram em três vezes no cartão. Foi o que me disse seu casaco verde que, abraçando seu corpo até a altura dos joelhos, deixa o resto do mundo lhe imaginando.

Poderia ser você.

Mas não era. E eu soube disso, pois você não estava comigo e, nestes momentos, você existe somente dentro de mim, em algum lugar entre minha saudade e minha paixão. Quando você não está comigo, você está em mim.

Poderia ser você. Mas era somente minha imaginação.

8 de abril de 2013

Por Trás Daquele Beijo

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Ela sempre achou que um beijo era apenas isso: um beijo. Poderia ser longo e demorado, ou curto e roubado, mas não havia muita discussão: um beijo é apenas um beijo.

Isso até ela se tornar personagem de uma crônica qualquer, que se passava numa cidade qualquer, no fim da tarde de um dia qualquer. Chovia, mas não era uma chuva qualquer. Era uma tempestade daquelas de entrar para a história da cidade. Mas ela não estava preocupada com a história da cidade, estava preocupada com a história dela. Os gritos da briga – ali, no meio da rua, no meio da chuva – ainda ecoavam em sua cabeça. Tudo estava acabado. Todos os sonhos e planos para o futuro haviam se despedaçado e escorrido junto com a água da chuva para o lugar aonde os sonhos vão quando se tornam esquecidos. E agora ela estava ali, com frio, roupas encharcadas, e se sentindo como se a chuva que desabava sobre a cidade caía somente sobre ela. Por um lado, a chuva não deixaria ninguém ver as lágrimas que escorriam pelo seu rosto e que começaram a cair antes mesmo dela chegar ao metrô. Sua vontade era sentar-se na guia e chorar abertamente na chuva, mas estava tentando segurar a explosão de dor no seu peito até entrar em casa. Não teve chance. Virou-se quando foi agarrada pelo braço e, ao dar meia volta, deu de cara com ele. Seu rosto também estava molhado de lágrimas, de chuva, da briga. E de saudade. E de repente ele disse tudo o que ela precisava dizer. Ela não ouviu nada, talvez por causa do barulho da chuva, talvez porque ele disse tudo apenas com os olhos. E a tempestade dentro dela aumentou ainda mais quando as palavras “não vai embora” trovejaram suavemente em seus ouvidos. E foi quando ela explodiu. Não de dor, como temia; nem de amor, como imaginava. Explodiu dele. E, molhada, perdeu o ar respirando a ele. Molhada, deixou-se afogar nos braços dele. E sorriu ali, feito menina-que-percebe-de-repente-que-vai-ser-menina-para-sempre, no fim de tarde de um dia qualquer, no meio de uma cidade qualquer, que foi criada para ser cenário de uma crônica qualquer.

E enquanto as pessoas corriam para escapar da chuva, ela fechou os olhos e entendeu que um beijo é apenas um beijo quando ele não tem palavras chovendo em volta dele. E que a palavra “beijo”, na verdade, nem precisa estar presente. Basta apenas todas as outras serem corretas.

27 de março de 2013

A Dancinha de Adalberto

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- Oi. Cheguei.

- Oi.

- Fiquei até mais tarde hoje, estava cheio de trabalho.

- Certo.

- Tudo bem?

- Tudo.

- Que foi?

- Nada.

- Mesmo? Você está estranha.

- Adalberto, você andou na Avenida Central hoje?

- Sim, fui ao banco ali. Por quê?

- Porque a Joana me ligou. Ela disse que viu você ali.

- Ah, é?

- Sim. Ela passou de carro e viu você na calçada.

- Que coincidência. E ela está bem?

- Ela me disse que viu você dançando na rua, Adalberto!

- Oi?

- Não negue! Você sempre nega tudo!

- Mas...

- Ela disse que viu tudo claramente. Era você, andando na rua e fazendo uma dancinha!

- Bom...

- E dando pulinhos! Pulinhos! Vai negar?

- Bem, não... É que...

- O que você estava pensando?

- Olhe, eu...

- Pulinhos, Adalberto? Pulinhos e dancinha! A Joana disse que você fez até uma voltinha! Não negue!

- Eu não estou negando nada. Não foi culpa minha...

- Ah, claro que não. Por acaso alguém colocou uma arma na sua cabeça e gritou que “ou você dança na rua ou você morre”?

- Não... Olhe, eu estava indo ao banco e ouvindo música com meu fone de ouvido. E de repente começou a tocar Stones. She’s a Rainbow, sabe?

- Sei.

- E, de repente... Não sei o que me deu... Comecei a dançar.

- Na rua, Adalberto? No meio da rua?

- Desculpe! Foi mais forte que eu! É aquele comecinho, com piano... Eu gosto. Dá vontade de dançar. Aí não aguentei...

- Ah, Adalberto! Faça-me o favor! Você é um homem adulto!

- Mas...

- Como eu vou encarar minhas amigas agora? Porque a Joana já deve ter falado para todo mundo! A partir de amanhã, todas vão olhar com pena para mim. Tenho certeza! Vou ser conhecida no bairro inteiro como a mulher que tem o marido que dançou na Avenida Central. Que vergonha!

- Mas é só...

- Doze anos de casamento, e um dia você começa a dançar e dar pulinhos na rua! Você não pensou em mim? Na sua família?

- Ah, não... Na verdade, eu não pensei em nada, eu apenas...

- Claro que não pensou! Você estava lá, todo pimpão, indo ao banco e de repente, pronto. Bastou ouvir uma musiquinha para jogar tudo para o alto! Eu, seus filhos, nossa reputação!

- Olha, Fernanda...

- A esta altura, já está todo mundo sabendo! Pelo amor de Deus, Adalberto. Você é um engenheiro, trabalhador, tem uma vida estável. E de repente começa a dançar na rua feito um adolescente?

- Fale mais baixo! Você vai acordar as crianças!

- Ah, você não quer que os meninos saibam que o pai deles dança na rua, certo?

- Oi?

- Sim, porque imagine o que esses meninos vão ouvir na escola! Deve ser demais você ser um pré-adolescente e ter um pai que faz dancinhas na rua!

- Então, mas o pianinho... Foram só uns cinco segundos...

- NÃO QUERO SABER! SE QUISER FAZER DANCINHA, FIQUE EM CASA!

- Calma...

- E eu vou contar isso pros nossos filhos! Amanhã de manhã!

- Bom, tudo bem...

- Faz quanto tempo que você dança na rua?

- Como?

- Faz quanto tempo? Eu duvido que você tenha começado com isso hoje!

- Sei lá... Nunca pensei nisso.

- Quando você fica no banheiro depois do almoço, no final de semana, você fica dançando lá dentro, não fica?

- No banheiro?

- Responde! Você fica fazendo isso dentro de casa? Debaixo do nosso teto?

- Não sei, nunca prestei atenção. Apenas aconteceu...

- Meu Deus. Uma vida inteira jogada no lixo. Por que você nunca me disse isso? Antes de casarmos, por que não me disse que você gostava de fazer dancinhas na rua? Eu teria entendido! Mas não! O que você preferiu? Resolver ser pego em flagrante, mais de dez anos depois do casamento. Que humilhação.

- Mas é só... Eu não...

- Não quero mais saber. Eu vou dormir. Você vai ficar na sala.

- Na sala?

- Sim. Eu não quero você no meu quarto. Pode dormir ou dançar e dar pulinhos aqui na sala. Tanto faz. Você escolhe.

- Fernanda, eu...

- Amanhã a gente conversa melhor. Quero ficar sozinha.

- Mas...

- E espero que você pense no que está fazendo com a nossa vida.

- Mas foi só...

- E com a vida dos seus filhos.

- Mas foram apenas três pulinhos. Três ou quatro. E uma voltinha, a hora que o Mick Jagger começa a cantar. Juro que foi só isso!

- Seu porco! Não quero saber!

- Sabe, aquele pianinho. Tim-tim-tim-tim...

- CALA A BOCA, ADALBERTO!

- Mas estou tentando...

- Não quero mais saber! Vou dormir!

- Espera, calma...

- E outra coisa! Se você ousar ligar nesse mp3 dentro da sua mala, eu vou para a casa da minha mãe!

- Hã?

- E levo as crianças comigo!

- Mas...

- Seu cafajeste! Pervertido!

- Fernanda...

- Uma vida inteira jogada fora! Cafajeste!

E bateu a porta do quarto.

Eventualmente, fizeram as pazes. Adalberto explicou que fora tudo sem querer, e que nunca mais iria dançar na rua. Prometeu de pés juntos. Nem mesmo um pulinho. E o casamento voltou ao normal – Fernanda nunca teve coragem de tocar no assunto com as amigas ou com os filhos.

Mas o Adalberto está se saindo bem, está se segurando. Mas na dúvida, não leva mais o mp3 na mala. E até hoje, sempre que estão numa festa, basta Adalberto bater o pé distraído ao som da música que está tocando para a Fernanda olhar feio para ele.

25 de março de 2013

Devo(ra)ção

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De joelhos.

Com o resto de visão que lhe restava, ergueu os olhos em direção ao horizonte de pele clara, admirando o brilho da leve penugem dourada que refletia o Sol. E, com os braços estendidos, tateou o corpo quente à sua frente, percorrendo suas curvas com os dedos e agarrando-as para si. Respirando fundo e faminto, sentiu o cheiro doce de alma em transe invadindo seus sentidos. E, quando pernas envolveram sua cabeça, sufocando seus ouvidos com força desesperada, deixou de ouvir o mundo, e apenas imaginou os gritos.

E pensou confuso e afoito que se um dia escrevesse sobre isso, terminaria o texto dizendo que tanto sua visão como seu tato, tanto seu olfato como sua audição eram dela. Mas seu paladar, não.

Seu paladar era ela.

14 de março de 2013

Os Caminhos de uma Crônica

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Abriu o processador de texto e começou a escrever sem rumo algum. Ignorou todas as ideias que estavam guardadas em sua mente e começou a digitar, seguindo seu instinto, vendo quais palavras apareciam no caminho. E assim escreveu em linha reta e observando a paisagem até se encontrar com uma pequena bifurcação.

De um lado, a realidade. Do outro, a ficção.

Enquanto a realidade lhe parecia mais cinzenta, o caminho que levava à ficção aparenta ser mais colorido. Assim, optou pelo segundo caminho e começou a ver suas palavras passearem por mundos inventados, cruzarem caminho com personagens inventados e testemunhando situações que nunca aconteceram de verdade. E foi desta forma que continuou caminhando sobre o teclado, até chegar a um novo desvio.

De um lado, o amor. Do outro, o humor.

Desta vez, precisou refletir. Sabia que o amor só existe de verdade com humor, e que o humor, por sua vez, também se enriquece com a leveza do amor. Sem saber que caminho escolher, confiou na sorte. Pegou a enorme barra de espaço do teclado e atirou-a para cima, vendo-a rodar antes de cair, atingindo o solo no caminho do amor. E pelo amor seguiu com suas palavras, observando personagens de mãos dadas e outros se beijando apaixonadamente – até que encontrou uma nova encruzilhada.

De um lado, o final feliz. Do outro, o final amargo.

Ambos os caminhos lhe pareciam igualmente bonitos – mas sabia que o destino de cada um seria completamente diferente do outro. Olhou para cima e viu que o céu estava azulado e sem nuvens e decidiu pelo final feliz – já que casais separados combinam muito mais com um dia nublado, de preferência com garoa fina e vento frio. Assim, rumo ao final feliz, continuou digitando fingindo para si mesmo que ainda não possuía um rumo – pois sabia que uma das coisas mais gostosas do mundo é fingir que algo bom não está acontecendo para ser surpreendido. E foi surpreendido, sim, com outro desvio.

De um lado, somente narração. Do outro, diálogos.

Sabia que diálogos emprestariam leveza e fôlego ao texto, mas a certeza de caminhar para um final feliz fez com que reunisse coragem para um desafio maior. Assim, optou por deixar os travessões de lado e concentrou-se somente no narrador, na descrição dos ambientes e na força dos sentimentos – que, ele sabia bem, nem sempre precisavam ser falados, apenas sentidos com sinceridade. Já caminhava apressado, quase correndo pelo teclado, sentindo os protagonistas ao lado, controlando-se para que sua própria ansiedade não fizesse com que a história se apressasse.

E relaxou somente quando chegou ao último parágrafo, sentindo o coração disparado de paixão quando viu seus protagonistas se beijando pela primeira vez e eternamente – pois a grande vantagem de textos que terminam com um beijo é que este beijo se torna eterno, já que o leitor não vê nada do que acontece depois.

E, com a sensação de dever cumprido, largou o teclado e respirou fundo. Havia traçado um caminho cheio de decisões, fazendo com que seus personagens descobrissem o rumo da felicidade. Digitou a palavra fim e foi descansar.

No dia seguinte, trilharia outro caminho, com outros desvios, outros mundos, outras decisões. E escreveria uma nova crônica.
 

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