9 de novembro de 2016

Gritos

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Era um saguão de aeroporto. E como todo lugar onde pessoas partem, era recheado de despedidas impossíveis de ser adiadas e abraçados de reencontro desejados. Eles eram os únicos que se reencontraram por acaso.

A mala dele bateu nas pernas dela – ou as pernas dela dançaram com sua mala – e um pediu desculpa para o outro. E se viram pela primeira vez em anos.

Haviam crescido no mesmo prédio, em meio a uma enorme turma que, como toda turma de amigos, deveria ser para sempre. Mas não foi. As brincadeiras de infância que se tornaram paixões adolescentes acabaram sumindo na poeira de caminhos que não se escolhem. Dos amigos eternos, sobraram apenas lembranças doces de um tempo em que os dias eram maiores.

Ele, solitário, havia desembarcado tentando ignorar que não tinha para quem ligar e dizer que havia chegado bem. Tinha a impressão que esse vazio o acompanharia em todas as viagens, num canto da mala. Ela, anestesiada, tinha se despedido do marido que viajou a trabalho tentando driblar da sensação de que se sentia mais feliz quando estava sozinha. Não era a primeira vez que sentia isso, mas não queria pensar a respeito.

Mas não pensaram nisso quando se abraçaram de forma desajeitada. Muito do abraço era saudade, mas havia pitadas de impulso e um pouco de vontade de voltar para as noites de verão do prédio, quando sentiam que ainda tinham muitos caminhos pela frente.

Os cabelos dela estavam mais curtos do que ele lembrava. O rosto dele tinha linhas que ela não conhecia.  Mas com a proximidade o sorriso logo voltou a ser o mesmo de anos antes. Depois do como você está e o que está fazendo aqui, a sugestão: vamos tomar um café. Ainda não jantei. Novo sorriso. Podemos ir comer algo.

Depois de dezessete anos e vinte e um minutos, estavam no bar do hotel ao lado do aeroporto. O primeiro gole teve sabor de me conta como anda sua vida, o segundo desceu confortável com você tem visto as pessoas do prédio e o terceiro, mais ardido, deixou a sensação de como o tempo passa. A cada gole, os sorrisos se abriam em busca de um passado. E de esquecer o presente.

“Eu era apaixonado por você”.

A frase saiu exatamente entre a brincadeira e o desabafo, sem saber para qual lado seguir. Ele tentou se convencer que ela havia escapado sem querer, mas não era verdade. Desde o segundo gole estava pensando nisso. Torceu para ela levar na brincadeira, mas ela apenas o olhou. E, fitando os olhos dele em busca do garoto do sexto andar, ela pensou que se ainda fosse menina, seus olhos teriam imediatamente fugido dos dele.

“Eu nunca soube disso.”

“Sempre fui. Apenas não tive coragem de falar”.

O bar estava quase vazio. Numa mesa perto da janela, um casal tentava se conhecer. No balcão, um homem tentava esquecer que se conhecia. Eles eram sortudos. Conheciam um ao outro e, ao mesmo tempo, tudo parecia novo.

Exatamente como nas noites de verão do prédio.

“Acho que nunca deixei de ser.”

Ela odiava a palavra “nunca”, mas não comentou isso. Na verdade, não disse nada. Apenas deixou seus olhos explodirem em sorriso – e ele sorriu de volta ao perceber que ela ainda os apertava quando estava feliz, exatamente como ele se lembrava.

Sorrindo, refugiaram-se no passado.

Sorrindo, se esconderam do apartamento vazio e do casamento que foi um erro.

Sorrindo, estavam no quarto do hotel. Ele sentado na cama aninhado no cheiro dela. Ela sentada sobre ele, dançando ao redor de sonhos e memórias. Os beijos funcionavam como pontes entre as memórias dele – aquela tarde na sorveteria, o dia em que a viu beijar outro sujeito numa festa, a ocasião em que conversaram até de madrugada – e para os devaneios dela – e se ainda fosse solteira, e se nunca tivesse se casado, e se tivesse se casado com ele.

Ele gemia de saudade e ela de libertação. A mulher abraçava um garoto que sonhava com ela há anos, e ele abraçava a mulher que o tornaria o garoto que ele havia sido em homem. Os beijos rodopiavam ao redor da paixão de adolescência dele e o prazer de ser a mulher mais desejada do mundo naquele momento.

Em um determinado momento, a ponta do seio dela deslizou pelo seu rosto e ele imediatamente soube que jamais esqueceria aquele pequeno momento. E estava certo. Ela, porém, quando abriu os olhos rapidamente e encontrou uma gota de suor descendo pelo ombro dele, achou poético, mas perdeu essa memória dois gemidos depois.

Na estrada, os carros passavam sem imaginar o que acontecia na janela do terceiro andar do hotel que estava acesa. Mal olhavam para ela, na verdade. E, se olhassem, jamais imaginariam que um menino estava concretizando sua paixão e se transformando em homem, e que uma mulher havia sido promovida, pelo acaso, ao posto de rainha de um homem.

Mas, se tivessem prestado atenção, algum motorista teria ouvido o grito. Afinal, foi um grito de décadas esperando para berrar o nome dela, e o grito de prazer de uma mulher que tinha a certeza que seu nome nunca mais seria gritado e descobriu estar errada.

Foram gritos de dezessete anos. Foram gritos de uma vida.

E aconteceu ali ao lado do aeroporto, num hotel daqueles que a gente não guarda o nome. Mas foi numa noite de verão. Isso, nenhum dos dois esqueceria.

(E sim, eles ainda estão lá. Caso você passe pela estrada, procure a janela acesa no terceiro andar.)

18 de agosto de 2016

Aguaceiro

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Sentado ao lado da janela, ele contou as lágrimas que caíam do céu inundando a rua de tristeza. Sentiu o cheiro da água que inundou o espaço entre prédios com poucas luzes acesas e viu o semblante de memórias iluminado rapidamente por um relâmpago. E fechou os olhos ao som do trovão.

Ela havia voltado.

Seu corpo dançava sobre o dele feito tempestade, mudando de direção com o vento de sua respiração. Seus olhos precipitaram-se sobre os dele deixando garoar um sorriso que parecia encharcá-lo sem que ele percebesse. Molhado, ouviu o sussurro de seu nome num som distante que parecia cair nos telhados atrapalhando o sono dos vizinhos.

O cheiro de suor invadiu o espaço entre passado e presente, misturando recordações com desejos. Um relâmpago mostrou a silhueta dela sobre seu corpo, outro entregou que a sala estava vazia de amor. Com medo, fechou os olhos e segurou a lembrança pela cintura, pedindo para que aquilo nunca acabasse – exatamente como havia feito pouco antes de acabar.

Não entendia mais se os raios estavam no mundo ou dentro dele. A cada facho de luz, era como se pudesse olhar para dentro de si mesmo e descobrir que a chuva o havia deixado alagado dela. Dela e sua voz que gemia garoas. Dela e seu corpo que dançava tempestade. Dela e de suas promessas que o arrastaram feito dilúvio.

E de repente um trovão gritou com dor e saudade o nome dela, exatamente como havia gritado num passado distante, ao lado da mesma janela. Gritou seu nome e o pedido de que a chuva fosse para sempre e não durasse apenas quarenta minutos ou quarenta noites. E, tremendo de frio, encolheu-se nela apertando-a com força.

E quando seu lábio ofegante roçou a pele delicada dela, o Sol brilhou.

Abriu os olhos e viu que ela não estava ali. Encolheu-se na poltrona ao lado da janela, decidido a dormir o resto da madrugada ali mesmo, em busca de um cheiro há muito desaparecido.

E a chuva continuava a cair. 

23 de junho de 2016

O Rei Embriagado

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O chão saindo de foco a cada passo não significava nada. Era o maior homem do mundo e seu terno amassado mostrava isso. Achava que estava andando rápido demais, mas quando tentava diminuir o ritmo perdia a paciência e voltava a acelerar, tropeçando em sonhos esquecidos na calçada, exigindo que as árvores abrissem caminho para ele. Sacou a garrafa de vodca barata já e deu um gole no cheiro forte que havia sobrado dela. Vazia. Não precisava mais dela. Queria, mas não precisava. Nem da vodca, nem dela. Tinha um terno que, mesmo amassado, era um terno. E tinha a calçada toda para seu poder de fazer o chão sair de foco. Suspirou e cantarolou baixinho uma canção de sua terra. Não sabia o nome. Sabia apenas aquele trecho e não fazia ideia porque ela havia surgido em sua mente. Talvez estivesse bêbado? Já havia reparado nisso: sempre que cantava sozinho era porque havia bebido uma a mais. Mas nunca seria a mais, porque era o maior homem do mundo. Com graça etílica, desviava de amores frustrados e paixões não consumidas. Com a leveza que somente o álcool traz, equilibrava-se numa corda bamba imaginária, tomando cuidado para não escorregar na saudade e mergulhar no fosso de tristeza fria que chamava seu nome, metros abaixo. Fora de foco. Igual ao chão. Mas chegaria ao outro lado da corda. Sentia-se vivo demais para morrer. Sentia-se vivo demais para não ser. Mas, ao mesmo tempo, queria apenas sentar um pouco. Sentar e descansar os pés de um dia que terminou tarde demais, de um dia que não devia ter começado prometendo que seria apenas igual ao outro. Novo gole no ar quente da garrafa. Vazia. Vazia como sua mente, incapaz de segurar cada pensamento por mais de um instante. Mas não queria pensar. Não precisa. Queria apenas se arrepender de ter bebido a última dose. Não. O problema não era a última dose e sim o fato dela não ser a penúltima. Queria apenas mais uma. Dois dedos. Dois dedos e um chorinho porque seria a última. E chorou o fato da bebida ter acabado, não porque dependia dela, mas sim do torpor feliz que ela escondia. A garganta ardia mas as memórias suavizavam. Era o maior homem do mundo e queria ser homem. Queria se apaixonar feito príncipe e amar feito rei, fazendo castelos tremerem com os gritos. Queria ter a força de um animal ferido e fazer sexo furiosamente até ficar tão saciado que a felicidade seria um detalhe. Era o maior homem do mundo e estava indo para sua casa velha, com armários vazios e fogão quebrado. Era o maior homem do mundo e tinha um terno surrado que detestava por usar em entrevistas de emprego. Novo gole no ar quente da garrafa vazia. Não precisava mais dela. Não hoje. Amanhã sim, mas não hoje. Hoje, ele era o maior homem do mundo. E logo o chão entenderia isso e pararia de sair do foco. Pois a bebida o transformava numa espécie de deus. O mundo era dele e o chão precisaria entender isso. Queria também que seus pés parassem de doer. Queria entrar em casa e tirar um pouco os sapatos. Deitar. Só um pouco. Um último gole, apenas para matar a sede e estender sua divindade. Queria cochilar um pouco e sonhar só um pouquinho com um mundo onde ele pudesse sonhar. Um mundo onde ele seria rei e a garrafa estaria sempre cheia. Não de cheiro quente, mas de calor. Do calor dos gritos dela. Para sempre.


(Uma pequena homenagem ao sujeito que passou em frente a minha casa às três horas da manhã, cambaleando e com um garrafa de vodca barata nas mãos).

18 de junho de 2016

Velhoeaputaquepariu.com

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Eram quatro e estavam em algum lugar entre a quinta e a sétima cerveja – exatamente no lugar onde nascem as conversas que poderiam transformar o mundo caso alguém se lembrasse delas no dia seguinte. Mas a conversa não nasceu querendo mudar o mundo e sim como um desabafo, quando um deles aproveitou um momento de silêncio para suspirar.

“Eu não tenho mais saco para redes sociais”

Todos concordaram com a cabeça – menos um que, ao pressentir que o assunto iria ganhar força para virar conversa, decidiu pedir mais cervejas. O autor da frase deu os últimos goles no copo e continuou.

“Hoje em dia, tudo o que se fala é política. Política e ativismo.”

“Essa geração acha que adianta falar alguma coisa”, um deles resmungou enchendo a boca de amendoins.

“Eles são jovens. Nós já fomos assim também”, um deles lembrou. “Como falava aquela música mesmo? Fomos tão jovens? Somos todos jovens? Como é mesmo?”

“Era algo assim. É Capital Inicial, não é?”

“Acho que é Barão Vermelho. Não lembro.”

“Mas o negócio do ativismo é verdade. Eles transformam tudo no grande problema do mundo. E às vezes eles até estão certos. Mas aí aparece uma coisa nova e eles inventam outro maior problema do mundo.”

“E esquecem o primeiro problema.”

“Isso. E não resolvem nenhum deles.”

O garçom chegou com as cervejas, interrompendo os devaneios musicais. Um deles aproveitou o silêncio para colocar o assunto no rumo certo.

“Outro dia eu estava olhando o Facebook e vi duas pessoas debatendo. Uma delas colocava a culpa da crise do país no governo que entrou. A outra dizia que a culpa era do governo que saiu.”

Todos riram na mesa.

(Na mesa ao lado, uma garota de vinte e poucos anos que estava com o celular na mão olhou feio para eles, mas eles não perceberam. Assim, resignada, ela voltou sua atenção para o celular, e continuou a escrever seu texto problematizando a caça predatória de focas no polo Sul e como isso é uma consequência nefasta do capitalismo. Ela ainda estava em dúvida se iria usar a tag #JeSuisFocas no final do texto, mas não estava certa disso. Queria algo com mais impacto.)

“Quantos governos nós já vimos entrar e sair? Uns dez?”

“Uns dez. E todos eles colocam a culpa no governo que saiu.”

“Essa é a verdadeira democracia”, um deles disse, erguendo o copo. “No Brasil, a culpa é de todos.”

“E de ninguém ao mesmo tempo”, um deles respondeu, completando o brinde.

“Mas é sério”, o primeiro disse. Como qualquer pessoa da sua idade era teimoso (e como qualquer pessoa da sua idade, já havia desistido de romantizar sua teimosia com a palavra “determinado”) e queria falar sobre as redes sociais. “Eu não aguento mais. Eu lembro quando começaram as redes sociais. Falávamos sobre música, sobre filmes. Sobre a vida. Hoje, só se fala sobre política e sobre causas sociais”.

“Sim, é verdade. É o dia inteiro isso.”

“E eu acho importante. Porra, quando a gente era moleque, a gente também lutava por essas coisas. Mas o jeito que as coisas estão hoje...”

“Ninguém quer defender nada. As pessoas escrevem apenas porque elas querem trancar.”

“Trancar? Trancar o quê?”

“Não sei. Eu já vi esse termo antes. Fulano trancou a internet.”

“Ah, acho que é quando tem aquele cadeadinho do lado do perfil? É pra todo mundo saber que aquela pessoa trancou a internet?”

“Não, não é trancar. É lacrar.”

“Lacrar?”

“Isso.”

O primeiro encheu os copos de todos, com seus olhos brilhando. Seu argumento havia encontrado ainda mais força.

“Estão vendo? Esse é meu ponto. Hoje em dia, todo mundo quer... Lacrar, é isso? Lacrar a internet. Vou escrever sobre essa professora do Piauí que foi agredida com um apagador para lacrar a internet. Vou responder esse sujeito que é religioso para lacrar a internet. Vou postar meu cardápio de comida vegetariana para lacrar a internet. E a gente nem sabe direito o que é lacrar.”

“As pessoas fazem isso? Lacram a internet com cenouras e beterrabas e coisas assim? Aposto que meu médico está por trás disso. Ele parece um maníaco com essa história de salada.”

Silêncio. Todos pensavam no assunto – menos no paciente do médico obcecado por saladas, que começou a pensar em pedir uma porção de calabresa. Sempre que pensava no médico, sentia vontade de comer porcarias. Era o seu jeito de mostrar que quem mandava na sua vida era ele. Ao concluir isso, fez um sinal chamando o garçom pensando que “vou pedir para ele encher de azeite que eu quero lacrar essa porra dessa calabresa também.”

“Estamos velhos demais para as redes sociais”, um deles suspirou.

“Na verdade, nós precisamos de uma nova rede social. Uma que seja feita para nós.”

A declaração saiu despretensiosa, mas caiu como uma bomba na mesa. Por que não haviam pensado isso antes?

“Uma rede social onde só seriam discutidos os assuntos das redes sociais de dez anos atrás.”, continuou um deles.

“Música. Cinema. Quadrinhos. Relacionamentos...”, exemplificou o outro

“Uma rede social para pessoas normais”, sintetizou um deles.

“Livros!”, um deles gritou, batendo a mão na mesa. “Faz anos que não consigo conversar sobre livros com alguém nas redes sociais!”

“Mesmo?”

“Sim, a última vez foi quando um militante político disse que eu devia ler um livro sobre a União Soviética. Mas acho que isso não conta, porque ele falou isso, disse que eu sou manipulado e me bloqueou logo em seguida. Então não foi bem uma conversa.”

“Esse tipo de pessoa será banida na nossa rede social!”

“Boa! Já estou gostando da ideia!”, celebrou um deles, enchendo novos copos. “A cerveja acabou, hein?”

“Toda pessoa que problematizar um problema que não é um problema não terá espaço. Ela que vá problematizar os problemas em outro lugar.”

“Os problemas problematizados não são problemas nossos!”

“Cara, que puta frase”.

“Obrigado. Mas é verdade. Vamos ter uma rede social para bater papo.”

“Não vai dar certo”, um deles disse. “Não vai dar certo”.

“Como assim?”

“Toda rede social começa assim. Mas depois ela começa a se emporcalhar com esses assuntos. Aí você entra um dia querendo conversar sobre jazz, mas não pode, porque um garoto foi chamado de gay numa escola de Moscou e todo mundo está falando sobre isso.”

“É verdade. Nossa rede social só funcionaria se ela não pudesse ter pessoas dentro dela. Aí sim seria bom.”

“E se filtrássemos por idade?”

“Como assim?”

“Só quem tem mais de trinta anos pode entrar na rede. Porque, sejamos sinceros. Com trinta anos, a pessoa já aprendeu como as coisas funcionam. Ela sabe que fazer escândalo e textos enormes e campanhas disso ou daquilo não mudam nada.”

“Eu, com trinta anos, era assim.”

“Eu também.”

“Então é isso. Somente pessoas com mais de trinta anos podem entrar. E para provar a idade, a pessoa precisa colocar o CIC dela.”

“Não é mais CIC, é CPF.”

“Foda-se. Para mim vai ser sempre CIC. Passei a vida inteira falando CIC.”

“Olha, eu acho a ideia boa. Mas precisamos de mais regras. Uma coisa que precisa ser proibida são aquelas crianças assustadoras.”

“Que crianças?”

“Aquelas crianças politizadas que falam como se fossem alunos de pós-graduação. Já viu essas histórias? Outro dia eu li sobre uma criança que tinha três anos de idade e começou a bater boca com a professora sobre direitos das mulheres. E explicou para a professora que era hora de começar a quebrarmos paradigmas.”

“É sério isso? Com três anos?”

“Eu com três anos não sabia nem comer direito.”

“Meu médico foi uma criança assim, tenho certeza. Eu não estou exagerando, vocês precisam ver o imbecil falando sobre vegetais. Ele começa a falar sobre o valor nutricional do alecrim e é como se estivesse falando da descoberta de um novo planeta.”

“Bem, essas crianças não estarão na nossa rede. Muito menos as pessoas que conhecem essas crianças.”

“Meu médico deve ser uma pessoa muito infeliz.”

“Certo. Somente assuntos saudáveis. Nada de histórias com crianças destinadas a quebrar paradigmas no pré-primário. Nada de problematizações. E, claro, acima dos trinta anos.”

(Na mesa ao lado, a garota do texto sobre as focas virou a cabeça para começar a brigar com eles, dizendo que essa rede social seria excludente e que esse é o tipo de atitude que faz com que o mundo se torne um lugar menos humano e que beneficia apenas as elites e #JeSuisCriançasdeFanfics.)

“Porque é hora de termos um lugar nosso. Não somos mais respeitados nas redes sociais.”

(Ao ouvir a expressão “não somos mais respeitados”, a garota desistiu da briga e imediatamente simpatizou com eles. Era mais forte que ela: não podia identificar uma minoria sem imediatamente procurar uma bandeira para erguer. Abriu o celular e começou a digitar um novo texto sobre a falta de espaço que as pessoas de meia-idade tinham nas redes sociais, e como isso era culpa de corporações como a Apple e a Samsung e do consumismo selvagem. Ia lacrar a internet.).

“Então estamos combinados. Vamos criar a nossa rede social.”

“Podemos chamar de Paraíso.com? Ou é pedante demais?”

“Que tal Paradise City? E aí já conversa direto com o público dos anos 80”, disse um deles, que sempre ouvia o filho que estudava marketing usar a expressão “conversar com o público”.

“Melhoridade.com?”

“Melhor Idade? Não! Velho é a puta que pariu!”

“Foi só uma ideia. Minha calabresa está chegando, vamos pedir mais cerveja?”

“Ei, esse nome é bom.”

“Qual?”

“Velho é a puta que pariu.”

“Tipo... velhoeaputaquepariu.com?”

“Isso.”

Silêncio. Não era um nome fácil de digerir. Mas era um nome...

“Forte. Eu gosto.”

“Isso. Já mostra que ali é nosso lugar.”

“Imagine as pessoas da nossa idade conversando? Depois me adicione lá no velhoeaputaquepariu. Dá até orgulho de falar.”

As cervejas chegaram e, com elas o plano.

“Bem, senhores, temos um projeto. Vamos fundar nossa rede social.”

“Perfeito!”, continuou um deles.

“Ótimo! Não vejo a hora de fazer meu cadastro”, celebrou outro.

“E como fazemos isso?”, perguntou um, trazendo todos de volta à realidade.

Novo silêncio. Mas, desta vez, a resposta era óbvia demais.

“Precisamos de alguém que saiba programar.”

“Sim, eu não entendo nada disso.”

“Precisa ser alguém que entenda do assunto. Das funcionalidades e tal.”

“Funcionalidade é aquele negócio de ter a coisa no celular?”

“Sim, também.”

“Eu odeio rede social no celular. Fica apitando o dia inteiro, aí você vai abrir e abre o e-mail, você tenta fechar o e-mail e acaba ligando para sua irmã... É um inferno.”

“Fora que não dá para ler. Eu tenho três óculos hoje. O de perto, o de longe, e o de notificações no celular. Não consigo ler nada.”

“Bom, a velhoeaputaquepariu não precisa ter no celular. Mas precisa ter um site. Precisamos de um programador.”

E de repente, um deles engasgou com a cerveja.

“Ele será um jovem!”

“Como assim?”

“Ninguém da nossa idade sabe fazer isso! Vamos ter que contratar um jovem!”

Todos olharam horrorizados. Era verdade.

“Ele vai ficar usando aqueles termos que ninguém conhece. Vocês já viram uma criatura dessas? É horrível!”

“Minha filha namorou um cara que mexia com isso. Eu não entendia nada do que ele dizia.”

“É sério isso? Eu nunca vi um cara assim.”

“É horrível. Você não entende nada do que ele fala. E tudo o que você pergunta ele simplesmente olha como se você fosse um homem das selvas. Eu lembro que perguntei um dia para o menino da firma se o site que ele estava fazendo ia funcionar com mouse e ele respondeu que... Não entendi o que ele respondeu, mas tenho certeza que ele me xingou de algum jeito.”

“Eu não vou falar com uma pessoa dessas.”

“Eu também não. Mal consigo entender o que meu filho fala, não vou passar por isso com um estranho”.

“Eu vou pedir mais cerveja.”

“Aproveita para pedir para fechar essa janela aqui, está frio.”

“Vocês vão querer mais calabresa? Essa aqui acabou.”

E assim, entre o prato vazio de calabresas e o vento que entrava pela janela, o assunto morreu. E essa foi a maior demonstração de que o velhoéaputaquepariu seria um sucesso: lá, as pessoas saberiam naturalmente quando um assunto acabou. Logo, estavam conversando sobre outra coisa... Até que um deles lembrou.

“É Legião Urbana!”

“Oi?”

“A música! É Legião Urbana.”

“Que música?”

“Somos tão jovens... Tão jovens...”, ele cantarolou um pedaço.

“Talvez o Legião Urbana seja tão jovem”, respondeu um deles. “Nós não somos faz tempo.”

E fizeram novo silêncio, até a hora de pedir mais cerveja.


(Um agradecimento a @danieladavisp, @vuintrieri, @willianifanger e @judamasceno por muitas das ideias desse texto.)

Sobe-Desce

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Ela                                                                              vida.
  descia                                                                        sua
           as                                                                      da          
             escadas                                                           mulher
                      degrau                                                    a
                  por                                                             encontrar
           degrau                                                              poderia
    pensando                                                                 onde
que                                                                              perguntando
    queria                                                                      se
          mesmo                                                              elevador
                      se                                                           pelo
             apaixonar                                                       subia
        para                                                                     ele
sempre........................................................................enquanto
 

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