28 de abril de 2010

A Menina dos Livros

Transformava tudo em mágica. Ninguém sabia ao certo como isso acontecia, mas tudo ela fazia de forma um pouco diferente dos outros. Não diferente a ponto de chamar a atenção, mas sim o suficiente para encantar quem estivesse olhando.

Quem a conhecesse além do olhar de menina descobriria que, mais que uma pessoa, era um personagem daqueles livros que se lê durante as férias e que mudam sua vida. Pois, sim, era menina ainda, mas fazia tudo como mulher, pois alguns capítulos de sua vida haviam lhe ensinado a isso.

Em seu romance, havia amado e sido amada, havia sido desejada e dormido com o rosto de amantes embaraçados em seus cabelos. Havia sonhado, tanto dormindo como acordada, em ouvir exatamente o suspiro que gostaria – pois uma de suas magias era a capacidade sentir o final do amor na intensidade dos suspiros, de prestar atenção na pressão das mãos dele nas suas nas madrugadas quentes, e de saber quando correr para o cheiro dos livros que tanto a protegiam.

Mas, mesmo se escondendo em frases, parágrafos e, às vezes, poemas, aparecia em todos os capítulos.

Seja trabalhando com as letras, que sabia pertencerem a ela; seja no bar, rindo gostoso até o Sol nascer, contando depois que a noite passou rápida demais, seja deixando seus olhos brilharem, quando era surpreendida, mergulhada nos fones de ouvido, por uma música que a fazia voar; seja relembrando tudo o que viveu e sentindo-se incapaz de adivinhar os próximos capítulos do seu romance.

Mas, às vezes, abandonava totalmente o ar de menina e se entregava. Bebidas, guitarras, gritos e refrões pegajosos, que a faziam colocar mais e mais para fora. E fantasiava, não com o sexo nem com as mãos dadas, mas com o sexo de mãos dadas, numa noite fria. E bebia rindo entre conversas repletas de segredo, fantasiava os pecados mais ardilosos e arriscados, com pessoas que, sabiam, iriam machucá-la um dia.

Era deste modo que transformava tudo em mágica. Pois ela não tinha facetas, ela era cada uma destas facetas, e sempre com a mesma intensidade. Era uma pedra preciosa, brilhante e reluzente em todos os seus muitos lados.

Ela nunca apenas estava, ela sempre era.

Contudo, assim como os anéis e colares brilhantes às vezes precisam se esconder na caixinha ao lado da cama; como as portas de aço dos bares se fecham, esquecendo as conversas e paixões que ali surgiram; como o Sol que nasce apagando todas as fantasias e desejos que correram as ruas da cidade durante a madrugada, ela, às vezes, precisa se esconder, precisava ser guardada.

Precisava respirar.

E, enquanto o mundo amanhecia em abraços de amantes, ela voltava ao seu reino: os livros, que, com suas palavras impressas, seus cheiros e texturas, a seduziam de forma mais suave e mais violenta que o mundo real.

Afinal, o mundo dos livros não era perfeito.

Mas era o mundo dela.

1 leitores:

Celyne Viana disse...

Uma pessoa que encontra a liberdade de ser... Uma conquista rara
Adorei o texto.

 

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