12 de julho de 2019

Síndrome de Impostor


O bar era no centro da cidade e semelhante a dezenas de outros bares que parecem existir apenas no centro de cidades espalhadas pelo Brasil. Sua decoração variava entre fotos de times campeões a cartazes antigos de cervejas e a maior parte das mesas de metal, todas envelhecidas e mal conservadas, estava ocupada por casais ou turma de amigos.

Como sempre, a última mesa, perto de uma geladeira que parecia ser mais velha que alguns dos garçons, estava ocupada pelos três. Marcavam presença ali pelo menos uma vez por semana há anos. Eram escritores – ou, pelo menos, era assim que costumavam se apresentar – e o encontro no bar havia se tornado uma espécie de ritual em suas vidas.

Nenhum dos três lembrava qual deles havia dado a ideia de frequentarem aquele bar, mas todos se lembravam o objetivo dos encontros: buscar ideias para histórias observando as pessoas das outras mesas ou, principalmente, captando fragmentos de conversas que se espalhavam pelo ambiente.

E, a bem da verdade, material para transformar o bar num laboratório de escrita havia de sobra. Como acontece em qualquer bar lotado, bastava prestar atenção durante alguns instantes para constatar que promessas de amor, pedaços de brigas e lamúrias de saudade flutuavam pelo lugar a noite inteira.

Às vezes, uma gargalhada escapava alta demais e enchia o bar, assustando esses trechos de histórias que pareciam correr para a rua ou se esconder atrás do balcão. Mas, logo depois, o som da risada se diluía entre as mesas e as conversas voltavam a aparecer, olhando com cuidado para os lados em busca de sinais da gargalhada até, por fim, se sentirem à vontade o suficiente para preencher o bar mais uma vez.

Mas, naquela noite, eles não estavam prestando atenção em conversa alguma, pois conversavam apenas sobre a profissão. Já haviam falado sobre falta de ideias, sobre técnicas de revisão e até mesmo truques para batizar personagens. A cada assunto, mais garrafas de cerveja enchiam a mesa e, quando Tracy Chapman começou a cantar Fast Car, o Primeiro inaugurou um novo assunto.

“O problema é a Síndrome de Escritor.”

Na verdade, ele não queria inaugurar assunto algum; apenas jogou a frase na mesa como um desabafo, sem grandes pretensões. Mas existem frases que você não pode jogar numa mesa com escritores, especialmente se ela estiver repleta de garrafas de cerveja. Assim, o Segundo não perdeu tempo.

“Nem fale. Eu sofro o tempo inteiro com isso.”

“Mas você não tem motivo”, devolveu o Primeiro. Ele levantou o copo para beber mais um pouco, mas desistiu no meio do caminho. “Seus textos são bons. Aliás, você parece melhorar a cada história nova que cria”, acrescentou.

“Isso não é verdade”, disse o Segundo. “Você leu a última que fiz? Da menina que se apaixona por um garoto depois de ver sua foto numa revista, no meio de uma reportagem sobre a Europa?

“Não, não li esse”, mentiu o Primeiro.

“Eu demorei dias para escrever aquela história, porque eu não sabia como terminá-la”, o Segundo explicou, enchendo o próprio copo e depois os dos companheiros. “Na verdade, eu quase desisti dela no meio, mas acabei criando um final qualquer, apenas para não deixar o texto incompleto.”

Como ninguém falou nada, ele continuou.

“Muita gente veio me cumprimentar, dizendo que adorou a história e coisas assim. Me falaram que eu construí um retrato do isolamento da sociedade atual, que eu criei um romance que é a cara do século 21...” Ele pareceu pensar um pouco antes de continuar. “E tudo o que eu consigo pensar é que não imaginei nada isso e que eu só queria escrever uma história de amor.”

“Eu sei como é isso”, disse o Primeiro.

“E, claro”, emendou o Segundo. “Fico torcendo para as pessoas não perceberem que o final é horrível e não funciona. Porque é claro que ele é horrível e que eu não sabia como terminar a história, mas as pessoas não enxergaram isso”. Ele bebeu mais um pouco e pousou o copo na mesa. “Quer dizer, não perceberam isso ainda. Elas vão perceber. Mais cedo ou mais tarde, alguém vai ler o texto e descobrir que ele é horrível. E pronto. Aí acabou-se tudo.”

“Eu tenho certeza que isso vai acontecer comigo a qualquer minuto”, disse o Primeiro. “Sinto isso toda vez que lanço uma história nova. As pessoas vão descobrir que ela não presta. Aí alguém vai inventar de vasculhar meus textos antigos e descobrir que todos eles são ridículos e mal escritos e que eu não deveria nunca ter publicado nada.”

“É exatamente isso”, rebateu o Segundo. “Não é essa história que é ruim. São todas. Um dia desses peguei uma história que lancei quatro, cinco anos atrás. Não consegui passar da primeira página, de tanta vergonha. Como as pessoas não percebem que eu nunca aprendi como começar histórias?”

“Você, eu não sei”, devolveu o Primeiro, depois de uma nova golada. “Mas a minha sorte vai acabar um dia. Aliás, eu nem sinto mais medo quando lanço uma história nova. Apenas espero a primeira crítica. Aquela que vai mostrar para o mundo que eu sou uma farsa. E ela nunca veio, mas é questão de tempo”.

“Exato”, o Primeiro disse, com ar resignado. “Essa crítica, aquela que vai acabar com tudo, está apenas esperando para acontecer. E aí vamos ver que era tudo mentira. Os prêmios, os elogios... O mundo vai perceber que nada disso deveria ter acontecido.”

Tracy Chapman acabou de cantar e ambos ficaram em silêncio junto com ela, cada um imaginando o seu próprio cenário apocalíptico e quanto tempo – ou melhor, quantos textos – iria demorar até isso acontecer. O Segundo já estava se imaginando na cadeia acusado de fraude quando o Terceiro, que estava quieto até então, jogou a bomba.

“Eu não sinto isso”.

“Não?”, perguntou o Primeiro. “Você gosta dos textos que escreve?”

“Gosto”, ele disse. “Eu leio e vejo que eles são bons. Eu vejo ritmo, humor na medida certa... E acho que meus personagens são bem construídos. Claro, eu tento melhorar o tempo todo, mas... Enfim, quando alguém vem me dar os parabéns, eu agradeço. Me sinto como se eu merecesse”.

Silêncio. Os pedaços de conversas de amor e brigas continuavam passando ao redor da mesa mas ninguém prestava atenção neles. Os primeiros acordes de uma nova música começaram a tocar no bar e o Primeiro achou que era Cranberries, mas não teve certeza e deixou isso de lado, porque estava mais concentrado prestando atenção no Terceiro, que abaixou os olhos em direção à mesa.

De repente, uma lágrima escorreu pelo seu rosto e ele falou, talvez mais alto do que planejara:

“Vocês têm noção do quanto isso é difícil? De ler meus textos e não ver defeito nenhum? Vocês sabem como eu me sinto vendo que todo escritor que eu conheço, inclusive vocês, sofre de Síndrome de Impostor e eu não?”

Os outros não sabiam o que responder.

“Eu sou a maior mentira de todas!”, ele disse, ainda mais alto e com uma nova lágrima molhando seu rosto. “Vocês começam a falar que suas histórias são ruins, que vão ser desmascarados em breve... E eu morro de vergonha! Vocês fazem ideia de quantas vezes eu reli meus textos para encontrar defeitos? Eu já cheguei até mesmo a tentar produzir histórias mal escritas de propósito... Mas não consegui!”

E desatou a chorar.

A música realmente era Cranberries. E quando a letra começou a ser tocada, o Terceiro ainda deixou escapar, entre lágrimas.

“Eu queria muito sentir isso que vocês sentem. Eu queria, de verdade, me achar um escritor de merda, para poder me sentir um escritor de verdade. Mas eu não consigo. Eu simplesmente não consigo”.

Uma gargalhada explodiu em outro canto do bar, dominando completamente o ambiente. Por isso quase ninguém ouviu quando o Terceiro finalmente concluiu.

“Eu sou um fracasso. Eu sou o maior fracasso de todos”.

2 leitores:

Francine Ribeiro disse...

Síndrome do escritor-impostor!
Fico sempre me perguntando quando vão me desmascarar...
Também gosto de bares para ficar caçando histórias e personagens. Mas nos últimos tempos eles ficam só na minha cabeça...
Muito bom o seu texto!

Gabriel Nunes disse...

Nossa, hein! Texto novo, e logo um com o qual me identifiquei do começo ao fim. Hehe.
Adorei, e é isso. Acho que você nunca acha que é bom o suficiente para suas próprias estórias.

 

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