10 de fevereiro de 2016

Petúnias

Alguns minutos depois do meio-dia, a equipe de demolição sentou-se para almoçar. Eram três, mas poderiam ser seis, já que todos eram mais altos e mais largos que qualquer outra pessoa no pequeno restaurante. Seus músculos eram grandes para desespero das camisetas brancas apertadas que usavam. Todos com a barba por fazer e cara de poucos amigos. Se alguém decidisse organizar um campeonato de clichês no restaurante, os três teriam grande chance de conseguir o primeiro prêmio na categoria “grupo”.

Estavam sentados numa mesa próxima à janela, comendo e conversando sobre o dia. Na verdade, apenas dois falavam. O terceiro mastigava a comida lentamente olhando para a janela, na direção dos tratores estacionados. De tempos em tempos, empurrava a comida garganta abaixo com um gole de cerveja.

Os dois que falavam pareciam se esforçar para agirem como clichês também nas conversas. Assim que sentaram no restaurante, estavam conversando sobre UFC, mas o assunto logo mudou para a manutenção dos tratores. Era sobre isso que estavam falando quando o garçom veio anotar o pedido.

“O parmegiana é grande?”

“Olha”, respondeu o garçom, com um ar de quem já havia escutado essa pergunta mais vezes do que poderia contar. “Ele serve fácil duas pessoas. Talvez até três.”

“Então eu quero um.”

“Outro para mim.”

“Um para mim também. Com bastante batata.”

Aliás, o próprio garçom era um clichê. Arrastava os pés entre as mesas com a animação de quem já se conformou que passará o resto da vida entre ali, anotando pedidos, servindo bandejas e respondendo se o parmegiana é grande. No mesmo campeonato de clichês, ele teria grandes chances na prova individual.

Quando a comida chegou, estavam conversando sobre o jogo de domingo. Os três jogavam no mesmo time de futebol do bairro, mas nunca juntos. Não havia vaga para os três, já que o técnico sempre os escalava como zagueiros. Assim, enquanto dois estavam no campo testando quantos chutes as tíbias dos adversários suportavam antes de virar pó, o outro ficava no banco.

Comeram conversando sobre aqueles assuntos que todos esperam que uma equipe de demolição converse. Você viu o trator novo que foi lançado este ano? Move três toneladas sem ranger. Os caras da empresa falaram que sábado o Alemão derrubou um pedaço de uma parede com uma cabeçada. Acho que vou pedir mais batata, veio pouca. Aproveita e pede mais uma cerveja. Cara, assisti aquele filme do Stallone ontem. Rocky? Não, aquele que ele é soldado. Rambo? Não, porra, aqueles novos, que tem um monte de gente, tem o russo que lutou com ele no Rocky. Ah, Mercenários! Isso. Filmaço! Como um filme desses não ganha Oscar?

Uma hora depois, não sobrava assunto, nem parmegiana – as batatas já tinham acabado faz tempo. E só então os dois perceberam que o companheiro mal havia aberto a boca durante o almoço.

“Cara, tá tudo legal?”

“Oi?”, ele respondeu, afastando os olhos da janela.

“Você não falou nada no almoço?”

“Ah, tô cansado só. Puxei ferro o domingo inteiro. Aí à noite treinei boxe.”

“Ah, então tá certo.”

As palavras “puxando ferro” fizeram com que se esquecessem do amigo e começaram a conversar sobre isso. Pediram a conta falando sobre exercícios, pagaram conversando sobre baldes de suplementos e foram embora sonhando com a menina da recepção da academia.

Mas isso, claro, apenas os dois que falavam. Porque o terceiro continuou quieto, pensando sobre aquilo que havia passado o almoço inteiro. Quando voltou para o trator, certificou-se que os amigos não estavam olhando e puxou um pequeno bloco de papel do bolso. Algumas linhas estavam escritas com letra feia numa das páginas, e ele releu.

Era um poema não terminado.

Fez as contas. Estava há pelo menos doze horas tentando arrumar alguma palavra que rimasse com petúnia. Empacou nesse trecho pouco depois da meia-noite, e não conseguia encontrar uma maldita palavra. Pensou até em escolher outra flor e deixar aquele trecho com o vasinho de petúnias de lado. Rosa rimava com pecaminosa, mas ele já havia usado em outro trecho. Margarida e acolhida combinavam perfeitamente, porém ele queria guardar para o final.

E como não conhecia muitas outras flores, tinha que usar as petúnias no meio do poema.

CALÚNIA!

Sorriu vitorioso. Sim, seria difícil encaixar essa palavra no poema, mas era algo que ele conseguiria resolver. Afinal, era experiente nisso, tinha cadernos e cadernos de poemas em casa, todos muito bem escondidos no fundo de uma gaveta.

Guardou o caderno no bolso da calça, ligou o trator.


Partiu em direção à obra, mais animado. Passaria a tarde conversando sobre flexões e abdominais. Talvez até tentasse derrubar um pedaço de uma parede com uma cabeçada, como o Alemão. Seu dia já estava ganho.



(Este texto faz parte do desafio do podcast Gente que Escreve, que tenho a honra de ser co-apresentador - clique aqui para conhecer. A ideia era criar uma crônica com os elementos "cerveja", "trator" e "vasinho de petúnias").

6 leitores:

Rafael Verginelli disse...

Depois que ouvi os episódios do podcast, passei a prestar mais atenção à construção dos textos. E este está fantástico, parabéns! :D

Marina disse...

Estou por fora do podcast; vi o compartilhamento no Facebook, mas ainda não tive tempo de entrar. Tenho que voltar a me atualizar. Bom, como texto solto, eu achei massa. Like always. Beijos, Rob.

wesley_nunes disse...

Gostei do conto.

Chama a atenção a forma que você conduziu o conto em somente uma cena dos operadores de tratores almoçando. Legal você sempre retomar o concurso de clichê com o decorrer da trama. Em uma primeira leitura, pensei que o poeta dos tratores foi inserido somente do meio para baixo. Na segunda leitura percebi que ele está presente na narração desde o inicio e sempre é citado de alguma forma. Gostei da forma que você humanizou a camisa no primeiro parágrafo. A brincadeira com o filme Mercenários me fez rir.

O conto gera identificação, todo mundo já viu um trio de brutamontes comendo em um restaurante e tendo como pauta a exaltação da testosterona. Fiquei pensando se o poeta dos tratores melhorou a sua escrita conforme o tempo e se ele será descoberto.

É a minha primeira experiência com um texto seu e posso dizer que foi ótima.

Rodolfo L. Xavier disse...

Genial. Só agora consegui ler o conto, e rapaz, colocou um sorriso no meu rosto.
Admiro muito seu trabalho! Forte abraço!

Leandro Mai disse...

Estou ouvindo, queria mais podcasts.

FRANCISCO ISAIAS Da Silva Sousa disse...

Acabei de ler esse conto e li o conto pacto do Fabio m barreto no wordped,obrigado só tenho a aprender com vocês,acho que vou fazer minha versão só pra testar o que aprendi no podcast de vocês.

 

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