12 de agosto de 2013

Sabores




Hoje eu estava no ônibus e uma menina ao meu lado estava no telefone. Percebi logo que ela estava falando com alguém que conhecera na internet, e que era a primeira vez que se falavam. Pelo que peguei da conversa, eram cantadas padrão, risadinhas que escapavam e “você sabe tudo sobre mim”. O que me incomodou era que a menina falava alto demais e não me deixava escrever (eu estava rascunhando um projeto num caderno). Assim, comecei a reclamar disso no Twitter, até que soltei uma premonição sobre o casal (neste tweet aqui).

Logo sugeriram que eu fizesse uma crônica sobre isso. Não dei atenção na hora, mas dez minutos eu estava convencido de que talvez valesse a pena. Mas, quando entrei em casa, menos de meia hora depois, eu já havia mudado tudo: eu não iria transformar a história em uma crônica, mas sim em quatro crônicas diferentes, cada uma contando a mesma história, com um tom diferente.

Assim, seguem as quatro variações sobre o mesmo tema abaixo:


Doce

Conheceram-se no Facebook. Não lembram ao certo como um foi parar na lista de amigos do outro, mas começaram a bater papo. Mas ambos se recordam da primeira vez em que conversaram por telefone. Foi numa segunda-feira à tarde. Ele pediu o número e ela pediu para ele ligar depois que ela saísse do trabalho. Dito e feito. Ele ligou e conversaram. Ela, no ônibus, não parava de sorrir e mal percebeu que estava falando alto demais. Contou um pouco sobre ela – ele parecia adivinhar tudo, até mesmo que ela era ansiosa – disse que detestava lugares cheios e adorava caipirinha de saquê. Ele disse que a voz dela era linda e a risada era mais linda ainda, e ela sorriu. Falaram-se todos os dias. Durante o dia, pela internet; à noite, por telefone. Conheceram-se pessoalmente três dias depois. Na terceira cerveja dele (e no começo da segunda caipirinha dela) o primeiro beijo. Inesperado naquela hora, e aguardado há dias. Ele sugeriu que fossem para a casa dele, ela disse que não, ele insistiu, ela sorriu que ele era atrevido, ele insistiu, ela abaixou os olhos e sussurrou “sossega”, ele cochichou e ela aceitou. Gritaram de madrugada, ali no sofá da sala. Gritaram até mais alto que a música que estava tocando no rádio e que ela postou no dia seguinte, no Facebook, com um bom dia sorridente. Falavam-se todos os dias, trocavam fotos e piadinhas nas redes sociais. Saíram mais quatro ou cinco vezes. Na segunda vez, mesmo rotina: bar e casa com gritos. A partir da terceira, direto para os gritos de madrugada. Mas na quinta vez algo parecia errado. Algo parecia automático demais. Mesmo assim, roupas caíram no segundo vinho. Desta vez não houve gritos, somente gemidos abafados. Algo havia mudado. Dois dias depois, somente e novamente gemidos. Foi a última vez, pois ambos sabiam que agora que os gritos haviam sido descobertos, gemidos não serviriam mais. No dia seguinte, mal se falaram. Cada um seguiu seu lado, procurando por novos gritos de madrugada nas listas de amigos.


Salgado

Conversaram por telefone pela primeira vez no ônibus, no final de uma segunda-feira. Haviam conversado o dia inteiro pela internet e como o encantamento não cabia mais no monitor, foram para o telefone. As conversas na internet eram perfeitas. Uma frase se encaixava com a outra como se fosse um roteiro cuidadosamente escrito. Ele parecia saber tudo sobre ela, e ela parecia adivinhar a vida inteira dele, e, quando palavras faltavam, um sorriso preenchia o espaço. No telefone, tudo mudou. A ansiedade na voz dos dois (ele tentava controlar, ela disfarçava sorrindo, mas não conseguia evitar falar alto demais no ônibus) apenas deu mais tempero. No telefone, ela não parecia conhecê-lo tão bem, nem ele parecia adivinhá-la tão fácil, mas o encantamento ainda era recente, e com a magia das vozes coladas no ouvido, mal prestaram atenção isso. Foi quando veio a fome de se ver – conversaram por mais dois dias, no mesmo clima de “eu conheço você melhor do que você imagina” e se encontraram dois dias depois. Desta vez, foi diferente. Ela não conseguia olhar ele nos olhos, ele não sabia o que fazer com as mãos. E o terceiro silêncio maior que o normal deixou claro que ali, cara a cara, sem pensar antes de escrever, sem olhar as fotos, sem consultar rapidamente a faculdade que ela estudou para fingir que estava adivinhando, as coisas mudaram de figura. Eram duas pessoas que mal se conheciam e que não sabiam se comportar na frente do outro. Depois da segunda caipirinha de saquê, cada um foi para sua casa, entraram no computador e começaram a bater papo. Logo, veio a vontade de se ver. Mas nunca mais se encontraram, estão conversando todos os dias há meses, totalmente apaixonados. Mas concordaram que se encontrar pessoalmente está fora de cogitação, vai perder a graça e um relacionamento tão forte como o nosso não se arruma em qualquer lugar hoje em dia.


Amargo

Foi num dia como outro qualquer. Ele a chamou na internet por que não tinha nada a perder, ela respondeu somente por que talvez tivesse algo a ganhar. Logo, a conversa decolou e ambos descobriram que tinham a perder somente a si próprios: ou seja, muito a ganhar. Passaram dias assim, alimentando uma paixão sem olhar ou voz, até que ele criou coragem e tocou no assunto, ela criou coragem e deu o número, ele criou coragem e ligou, ela criou coragem e atendeu. E a conversa parecia melhor ainda no telefone. Cada um queria falar tudo, mas também queria ouvir a outra pessoa inteira, e a ansiedade se transformava em sorrisos dele e mordidas discretas dela no próprio lábio. Ficaram dois dias apaixonados por uma voz até que ele criou coragem e tocou no assunto, ela criou coragem e disse que sim, ele criou coragem e sugeriu um lugar ela criou coragem e confirmou o horário. No bar, as vozes se transformaram em rostos e o desejo se embebedou. E na terceira caipirinha de saquê e no segundo beijo ele criou coragem e convidou, ela criou coragem e disse que calma, ele criou coragem e insistiu, ela criou coragem e disse que vamos. Da internet para o telefone, do telefone para o bar, do bar para a cama, faminto demais, urgente demais, rápido demais... Até para acabar. A noite foi longa e ela voltou para casa com o Sol nascendo, mas o dia seguinte foi curto. Ele criou coragem e disse que não sabia mais se podiam se ver, ela criou coragem e perguntou como assim, ele criou coragem e assumiu pela primeira vez para outra pessoa que gostava de outra pessoa, ela criou coragem e não insistiu. Nunca mais se falaram – mas ambos tinham certeza de que poderia ter dado certo. Faltou somente um pouco de coragem.


Azedo

Começaram a conversar pela internet. Conforme o encantamento apareceu, surgiram também os recadinhos públicos de um para o outro. Piadinhas. Depois, músicas. E as conversas desenrolando conforme os dois ficavam mais desembraçados. O dia que ela não entrou, ele publicou “saudade”, o dia que conversaram até mais tarde ela publicou “totalmente acesa não consigo domir”. Um curtia as coisas dos outros. De lá, foram para o telefone. A conversa ficou ainda melhor. Ela postou que “e ainda tem voz gostosa”, e ele devolveu um sorriso, depois de curtir o status dela. Quando se encontraram pela primeira vez, deram check-in no bar e postaram fotos no Instagram. Primeiro, das bebidas (caipirinha de saquê para ela, uísque para ele) depois das pernas dela, cruzadas, sobre as pernas dele. Dezenas de amigos curtiram. Haviam se tornado celebridades vivendo um romance de vitrine. Tudo durou exatamente cinco encontros, quinze dias, dezenove fotos, cinco check-ins, dezenas de posts no Facebook e centenas de curtir. Mas um dia acabou. Brigaram, sabe-se lá porque, e pararam de ser ver. Mas a briga foi feia. Pararam de se ver, mas não de interagirem de forma indireta. Nos próximos dias, cada um ficava postando indiretas no Facebook o tempo inteiro, e o outro fingia que não via. As indiretas, amarguradas e agressivas, eram para mostrar primeiro como haviam se decepcionado. Depois, passaram a ser para mostrar para todos os outros amigos que cada um estava sozinho e sofrendo. Eram iscas: ambos contavam que alguém saberia que pessoas sofrendo estão dispostas a agir impulsivamente. Deu certo. Ele saiu com uma menina do trabalho, ela saiu com um amigo de faculdade. Novos rostos, novas fotos: primeiro, para machucar o outro, sempre com aquele tom de veja como estou feliz sem você. Mas logo a mágoa passou a e as fotos e check-ins voltaram ao normal. Era apenas para tornar público: afinal, se você tem alguém, não pode reclamar de solidão na internet. Ambos não viam muita graça em ter alguém sem poder transformar tudo em um acontecimento público, esperando por elogios invejosos que ajudassem a perceber que estavam felizes e fazendo a coisa certa.

5 leitores:

Ricardo Wagner disse...

E nenhum deu certo.

Leonardo Gedraite disse...

Dentro dessa degustação literária tenho que admitir que o sabor azedo caiu muito bem...

cmmarcondes disse...

E, de todos os sabores, só faltou o umami, o saboroso da vida!
Muito bom, Rob!!
Grande abraço!!

Fernando Santos disse...

"Logo sugeriram que eu fizesse uma crônica sobre isso. Não dei atenção na hora, mas dez minutos eu estava convencido de que talvez valesse a pena."
Valeu a pena 4 vezes! Muito bom!

Dúh disse...

ótimo, muito bom

 

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