21 de setembro de 2007

O Homem que Jantava Sozinho

Toda quinta-feira ele entrava no restaurante, por volta do horário que o Jornal Nacional estava acabando, sozinho e trajando um terno claro, vagamente amassado e já um tanto envelhecido. Carregava sempre uma pasta e aparentava ar cansado. E, invariavelmente, pedia uma mesa para dois, apesar de estar sozinho.

– Estou esperando uma pessoa, ele dizia, antes de acrescentar explicando que “Combinei com ela neste restaurante”.

Sentava-se sempre na mesma mesa, na mesma cadeira, de frente para a porta. Colocava a pasta no chão, encostada numa parede meio amarelada e pedia dois sucos de laranja, sem gelo e sem açúcar. E sempre explicava ao garçom para colocar um dos copos do outro lado da mesa, à frente da cadeira vazia.

Bebia em silêncio, olhando para a porta. Jamais percebia as pessoas ao redor, nas outras mesas. Às vezes, arriscava rápidas olhadas pela janela, mas logo voltava a olhar na direção da porta, sem olhar as outras mesas. Quando acaba o suco, chamava o garçom discretamente e pedia mais um, sem gelo e sem açúcar, sem nem olhar para o outro copo, do outro lado da mesa.

Seguindo um ritual quase religioso, pedia em certo momento, uma cesta de pães e um pouco de manteiga. Quando o garçom voltava a mesa para lhe entregar os pães, avisava que iria fazer seu pedido, e escolhia sempre o mesmo prato.

Esperava pela comida enquanto partia o pão com as mãos, comendo com manteiga e sal, e dando goles no suco. Sempre olhando para a porta. Quando a comida chegava à sua mesa, ele pedia por dois pratos, e só começava a comer quando o outro prato fosse servido.

E, antes da primeira garfada, discretamente, ele batia levemente seu copo no outro, brindando em silêncio. E, nesse mesmo silêncio, comia, enquanto o outro prato permanecia ali, cheio de comida, intocável. E não tirava os olhos da porta.

Ao final da refeição, pedia dois cafés e uma água, com dois copos. Bebia um café, enchia os dois copos. Colocava um do outro lado da mesa e bebia o seu. Passava mais alguns minutos olhando a porta, quase em transe. Até que pedia a conta, pagava, levanta-se, pegava sua pasta e embora.

E os garçons sabiam que ele voltaria sempre na próxima quinta-feira, e o ritual seria repetido. A mesma mesa, os sucos, os dois pratos, o mesmo brinde silencioso e discreto, os cafés, a água e a conta. E sempre olhando para a porta, esperando por algo.

Ou por alguém.

Anos e anos se passaram. E se passaram para ele também. O terno ficou mais envelhecido, os passos se tornaram mais arrastados, os cabelos começaram a se tornarem grisalhos. Namorados que freqüentavam o restaurante casaram e tiveram filhos, o gerente se aposentou (foi morar no interior, parece) e outro garçom tomou o seu lugar, um dos garçons se separou da mulher para casar com a menina do caixa – tiveram dois filhos, gêmeos.

E ele continuava ali. Todas as quintas-feiras, chovendo ou não, calor ou não, sentava-se na mesa para dois lugares, pois “está esperando uma pessoa” e repetia todo o ritual. Os garçons mais experientes instruíam os mais novos a atenderem aquele senhor normalmente, mesmo se ele pedisse dois sucos, dois pratos, dois cafés. E, quando os mais jovens perguntavam o porque de tudo aquilo, os outros garçons apenas respondiam, em tom de respeito:

– Ele está esperando por uma pessoa.

Uma quinta-feira, que parecia exatamente igual a qualquer outra quinta-feira, ele não apareceu. Os garçons estranharam, mas acabaram se distraindo com uma enorme família que comemorava o aniversário do avô aquela noite, e não deram muita atenção ao fato. Na semana seguinte, ele também não apareceu. Nem na outra.

Ele nunca mais foi ao restaurante. Nem em nenhuma quinta-feira, nem em nenhum outro dia. Os garçons conversavam a respeito, mas ninguém sabia de nada. Ninguém sabia nem o nome dele, já que ele sempre pagava em dinheiro. Nunca mais foi visto.

O garçom que agora era gerente, entretanto, deixava uma placa de reservado sobre a mesa dele, todas as quintas-feiras, na esperança de que um dia ele entrasse pela porta. E, naquele horário próximo ao final do Jornal Nacional, os garçons, entre um pedido e outro, davam olhadas discretas para a porta, esperando pelo homem que entraria com um terno surrado e uma pasta, e caminharia em direção àquela mesa.

Os anos continuaram passando. O garçom que agora era gerente arrumou um emprego numa fábrica (parece que pagava melhor), dando lugar a um novo gerente contratado, e, aos poucos, os garçons foram envelhecendo e sumindo, cada vida tomando novos rumos, sempre para longe do restaurante.

E, por fim, quando o restaurante foi vendido para um homem que ganhou uma herança do avô e queria usar o dinheiro para transformar o lugar numa cantina de comida italiana, o antigo dono fez apenas um pedido. Para que ele mantivesse aquela mesa na parede naquele mesmo lugar, e que tomasse o cuidado dela estar sempre desocupada nas noites de quinta-feira. O novo proprietário não entendeu, mas o dono explicou que era para um cliente muito especial e se recusou a vender o restaurante se o rapaz não lhe prometesse isso.

E assim os meses foram passando. Novos garçons, um gerente novo que traía a esposa, um cozinheiro que aprendera a fazer massa quando era criança olhando a empregada da avó cozinhar, novos garçons, e uma menina que trabalhava no caixa para pagar o curso técnico de contabilidade.

E, claro, clientes de todos os tipos e lugares da cidade, que lotavam o restaurante e comiam, bebiam gritavam sorriam, faziam promessas de amor eterno e confessavam aos amigos que estavam apaixonados e que não, não, desta vez é para valer. E, conforme prometido, o novo dono dera instruções claras ao gerente de que aquela mesa ali, perto da janela, tem que estar vazia toda a quinta-feira à noite. “É para um cliente especial”, ele explicava.

E a mesa dele permaneceu vazia, todas as quintas-feiras, anos e anos, todas as quintas-feiras, mesmo quando o restaurante estava lotado. E, nesses dias, o dono fazia questão de passar a noite no restaurante – porque nas terças-feiras ele jogava pôquer com os amigos de faculdade - , olhando de relance para a porta, esperando pelo cliente especial que ocuparia aquela mesa.

Mas ele nunca apareceu.

A pessoa por quem ele esperava também não.

10 leitores:

vera maya disse...

Que lindo..

Voce retratou a solidão, a esperança e o respeito..e que retrato!

beijo

Sweet Pimenta | Milene Portela disse...

a pessoa por quem ele esperava apareceu sim, é uma aparição de solidariedade, de condolência.

ver-se nos atos alheios nos faz entender o alcance do olhar na porta. mais que a esperança, o que espera em nós tem mesmo que ser reverenciado.

um brinde a isso. de suco de laranja sem gelo.

Lua Durand disse...

talvez, talvez a pessoa por quem ele esperava apareceu, todas as quintas, junto com ele.

e ele olhava pra porta por não conseguir olhar pra ela, talvez por ser bom de mais o que se via, talvez por doer mais ainda.

não sei.

mas sei que sempre gosto das crônicas que leio aqui.

você tem um talento especial.

beijos

au revoir

o amnésico disse...

Eu não sei se a pessoa que ele esperava estava ou não com ele, antes ou este tempo todo. Como não sei se os donos que sucederam aquele primeiro estavam certos em continuar o ritual (que eu não sei se ele abandonou, aliás). Só sei que era necessário. Comparecer às quintas e manter aquela mesa vazia.

Como é necessário este seu texto. Bravo!

Gabi disse...

Desde que uma amiga me mostrou teu blog,me apaixonei perdidamente por ele.

Tô completamente encantada.

:)

Já li todos os textos.

Parabéns,é perfeito.

ps.Talvez o que o cleinte estivesse esperando seja exatamente o que ele conseguiu: respeito.

Sinta-se crimoniosamente convidado a passar lá no meu.

:*

lucaxxx disse...

Olá Amigo. Legal que você seja um ecrito tb (apesar que todos blogueiros geralmente sao né). Tinha varios blogs da serie championship no seu nome mas acabei vindo nesse aqui mesmo. mto bom o texto.
Abraçãooo

Mariliza Silva disse...

Este homem ensinou às pessoas do restaurante o esperar, mesmo sem saber o quê, mas esperar com reverência merecida.

Desistir nunca. Esperar sempre! Nunca sabemos quando findará a espera, mas vivemos é de expectativas. O encontro nem sempre se torna necessário.

Lindo, rapaz, lindo!

Beijos

Mariliza

Richard disse...

Nossa, esse me deu calafrios, muito bom.

Larissa disse...

Lindo.

Danielle Ribeiro disse...

Acredito que do primeiro proprietário e daquela equipe que trabalahava alí,sem dúvidas ele conquistou foi respeito.Mas das pessoas que sucederam já acho que foi outra coisa...Fala sério!Se eu sou a nova proprietária e alguém me conta essa história eu também deixaria a mesa alí sem contestar nem um pouquinho só pra saber "quem SERÁ"!
CURIOSIDADE FEMININA É FOGO!rsrsrs
Parabéns cara!Você me prende...

 

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