3 de junho de 2016

Pequena Dança Subterrânea

Distraídos, os olhos dele vagaram.

E ela existia. Tudo o que ele via era apenas um pedaço do seu queixo e seus lábios, pois os cabelos loiros e lisos escondiam seu rosto. Mas ele se assustou tanto que não teria coragem de pedir por mais.

Alheios, os olhos dela corresponderam.

Teve tempo de ver aqueles olhos que pareciam ter acabado de descobrir o mundo pela primeira vez. Não soube dizer se brilhavam por ela ou para ela. Com mais tempo, entenderia que os olhos dele brilhavam nela.

Encabulados, os olhos dele fugiram.

Teve medo de olhar e descobrir que ela estava olhando de volta. Teve medo de olhar e descobrir que ela não estava olhando de volta. Mas, pela primeira vez, teve medo de nunca mais olhar e não descobrir a resposta.

Prevenidos, os olhos dela estudaram.

Quis fugir. Mesmo sorrindo nas fotos, ainda estava machucada. A tinta das brigas ainda estava fresca e borravam sua memória. A mágoa ainda existia. E os cortes do sonho estilhaçado ainda eram afiados.

Corajosos, os olhos dele encararam.

Quis ficar. Não se lembrava da última vez que seu coração havia disparado. Sempre que pensava sobre isso, se convencia de que talvez não fosse feito para o amor. E certamente não havia sido feito para a paixão.

Bobos, os olhos dela correram.

Pela primeira vez em meses, seu coração disparava sem o gosto amargo da raiva invadir sua boca. Não entendeu porque sentiu isso, apenas que não precisava entender. Queria olhar de volta e descobrir que ele estava ali.


Atenciosos, os olhos dele obedeceram.

Quis decorar o desenho dos seus lábios, mas estava preso no olhar. E ainda aprisionado nos olhos entendeu que a boca dela era a única que existia. E que seus lábios eram os únicos que poderiam lhe sorrir.

Temerosos, os olhos dela abaixaram.

Ela havia passado meses ganhando discussões imaginárias com a cabeça no travesseiro. Vivia reconciliações que nunca existiram, e que serviam apenas para molhar o lençol com lágrimas escondidas. Não queria isso tudo de novo.

Esperançosos, os olhos dele chamaram.

Percebeu que nunca havia se apaixonado antes, pois sempre havia sido dela. De repente, ele ganhou sentido, e descobriu que toda sua vida até então havia o preparado para aquele momento. E para que ele fosse dela.

Receosos, os olhos dela voltaram.

Sentiu a mágoa se dissipar como se nunca tivesse existido. E subitamente conseguiu algo pelo qual acordava todos os dias esperando por uma chance: querer. Mordeu os lábios sem perceber.

Famintos, os olhos dele brilharam.

Não era mais um espectador. Desfilava pelo palco sem controlar o que sentia e percebeu que a falta de controle fazia com que se sentisse vivo. E, pela primeira vez, não sentiu medo disso. Sorriu sem medo de esconder.

Entregues, os olhos dela sorriram.

Talvez pudesse novamente. Talvez ele fosse diferente e saberia ouvir quando ela precisava. Talvez As dúvidas e inseguranças não fizessem dela uma pessoa menor, e tudo o que ela precisava era pensar um pouco menos.

Convencidos, os olhos dele quiseram.

Talvez ele apenas não tivesse encontrado alguém que soubesse se apaixonar. Talvez nem todas as pessoas gostassem apenas dos jogos e se preocupassem em construir algo. Talvez pudesse ser sempre.

Delicados, os olhos dela assumiram.

Imaginou como seria segurar a mão dele. E percebeu que não queria mais viver no passado, e era hora de planejar o futuro. Queria estar perto dele e poder conversar sobre o que sentia, falar sobre o que ele queria e dividir os sonhos.

Envolvidos, os olhos dele desejaram.

Imaginou como seria envolvê-la com os braços. E poder contar seus planos e segredos, buscando seu sorriso a cada frase. E percebeu que mais que falar sobre, queria ouvir sobre ela, saber quem era ela e ajudando-a a atingir seus sonhos.

Desesperados, os olhos dela idealizaram.

Estavam no chão do quarto quente e somente as poucas luzes da rua entravam pelas frestas da veneziana. As mãos dele eram tão fortes quanto os gritos de alívio que ela dava por saber ser amada. Inspirou fundo em busca de ar.

Seduzidos, os olhos dele viveram.

Suas pernas entrelaçadas com as delas tremiam ao perceber os lábios que, colados em seu ouvido, diziam que seria para sempre porque sempre tinha sido para sempre desde aquele dia no metrô. Expirou fundo em busca dela.

Surpresos, os olhos dela molharam.

O trem começou a se afastar lentamente, ganhando velocidade aos poucos. Viu a dor nos olhos dele, que ficavam cada vez mais distantes, levando consigo os gritos e o calor, o alívio e a sensação de eternidade.

Amargos, os olhos dele choraram.

Observou enquanto ela se afastava e tentou sorrir, mas mudou de ideia ao perceber que aquela história não poderia acabar de forma tão banal. Mas, quando percebeu, era tarde e as promessas haviam sumido no túnel.


Tristes, os olhos nunca mais dançaram e tentaram esquecer que teria sido para sempre.

2 leitores:

Igor Luiz disse...

Caralho, eu te odeio, Rob!

Muito foda! Forte demais!

Cesar da Mota Marcondes Pereira disse...

Magia em um minuto...
Mais de 500 palavras pra descrever o que sentimos num instante ;)

Fenomenal, Rob, mesmo!

Forte abraço!

 

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