9 de junho de 2016

Making-Of

Sentindo-se triste sem saber o motivo, o Escritor abriu o processador de texto e começou a digitar sem sequer pensar em uma história inteira.

Corria pela calçada. O Sol forte fazia o suor escorrer pelo seu rosto, encharcando suas roupas, enquanto ele desviava das pessoas.

Não. Não era o que precisava. Queria algo mais sombrio. Mais sombrio e mais solitário.

Corria pela calçada. Seus olhos estavam molhados de chuva, enquanto a cidade dormia ignorando sua existência. Para os motoristas dos poucos carros que desafiavam a tempestade, era apenas uma pessoa qualquer, sem passado ou futuro, correndo pelas ruas.

O Escritor gostou do que viu. Sem saber para onde levar a história, pensou que um dos carros poderia parar ao seu lado. Dentro desse carro, estaria alguém que mudaria a vida do homem naquela calçada. Mas mudaria como? Tentou escrever para descobrir a resposta.

Corria pela calçada. Seus olhos estavam molhados de chuva, enquanto a cidade dormia ignorando sua existência. Para os motoristas dos poucos carros que desafiavam a tempestade, era apenas uma pessoa qualquer, sem passado ou futuro, correndo pelas ruas. Menos para ela, que estacionou o carro ao lado do homem e o chamou pelo nome.

Não. Não era isso. A mulher, no texto, não justificaria o homem estar correndo. O acaso não iria funcionar aqui, pois ele precisava estar correndo atrás de algo. Esta mulher, nesse carro – o Escritor sabia que eles terminariam fazendo sexo dentro do carro com o barulho da tempestade disfarçando os gritos – não se encaixava na crônica. Assim, sem saber o que fazer com o homem que corria nas ruas, o escritor resolveu ganhar tempo investigando o que o sujeito sentia.

Corria pela calçada. Seus olhos estavam molhados de chuva, enquanto a cidade dormia ignorando sua existência. Para os motoristas dos poucos carros que desafiavam a tempestade, era apenas uma pessoa qualquer, sem passado ou futuro, correndo pelas ruas.

Seus passos tentavam correr no ritmo do seu coração acelerado. Não conseguiam, pois é muito difícil acompanhar um coração vazio. A cada metro que avançava, retornava ao passado. Ia da calçada para o beijo dela, da chuva para o suor que escorria dos cabelos dourados dela. A cada passo, suas roupas molhadas davam lugar aos braços dela.

O Escritor pensou onde ela poderia estar. Não queria saber quem era ela. Uma amante. Uma antiga amante. Um amor platônico que uma noite, piedosa, desceu dos céus e criou a memória mais doce na vida daquele sujeito. Não importa sua identidade, e sim onde ela estava. Saber onde ela estava resolveria o motivo do homem correr. Talvez ela estivesse no seu apartamento, esperando por ele? Talvez.

Corria pela calçada. Seus olhos estavam molhados de chuva, enquanto a cidade dormia ignorando sua existência. Para os motoristas dos poucos carros que desafiavam a tempestade, era apenas uma pessoa qualquer, sem passado ou futuro, correndo pelas ruas.

Seus passos tentavam correr no ritmo do seu coração acelerado. Não conseguiam, pois é muito difícil acompanhar um coração vazio. A cada metro que avançava, retornava ao passado. Ia da calçada para o beijo dela, da chuva para o suor que escorria dos cabelos dourados dela. A cada passo, suas roupas molhadas davam lugar aos braços dela.

Encontravam-se uma vez por ano, e isso por mais anos do que ele se lembrava – mentira, ele se lembrava de todos. Haviam sido amantes rapidamente, mas não podiam ficar juntos. Eram ingênuos demais para saber conviver e resolveram ir cada um para seu lado. Porém, eram famintos demais para não conviver e resolveram que mereciam uma trégua. Uma noite por ano.

Não era saudade, era mais que isso. Era a noite que desafiavam o tempo e voltavam ao passado, quando ainda podiam ficar juntos. E, entre gritos e gemidos, mostravam que num mundo em que tudo se transforma, eles nunca mudariam. Toda noite – no aniversário do primeiro beijo – seriam um. Seriam tudo.

O Escritor gostou disso, mas gostou ainda mais de perceber que sua tristeza começava a dar lugar para a curiosidade que sentia. Era hora de fazer o homem correr mais um pouco pela chuva. Era hora de avançar o texto com movimento.

Corria pela calçada. Seus olhos estavam molhados de chuva, enquanto a cidade dormia ignorando sua existência. Para os motoristas dos poucos carros que desafiavam a tempestade, era apenas uma pessoa qualquer, sem passado ou futuro, correndo pelas ruas.

Seus passos tentavam correr no ritmo do seu coração acelerado. Não conseguiam, pois é muito difícil acompanhar um coração vazio. A cada metro que avançava, retornava ao passado. Ia da calçada para o beijo dela, da chuva para o suor que escorria dos cabelos dourados dela. A cada passo, suas roupas molhadas davam lugar aos braços dela.

Encontravam-se uma vez por ano, e isso por mais anos do que ele se lembrava – mentira, ele se lembrava de todos. Haviam sido amantes rapidamente, mas não podiam ficar juntos. Eram ingênuos demais para saber conviver e resolveram ir cada um para seu lado. Porém, eram famintos demais para não conviver e resolveram que mereciam uma trégua. Uma noite por ano.

Não era saudade, era mais que isso. Era a noite que desafiavam o tempo e voltavam ao passado, quando ainda podiam ficar juntos. E, entre gritos e gemidos, mostravam que num mundo em que tudo se transforma, eles nunca mudariam. Toda noite – no aniversário do primeiro beijo – seriam um. Seriam tudo.

Afastou a água dos olhos enquanto entrava no seu prédio. Havia avisado o porteiro que ela chegaria antes dele e que ela tinha a chave. Apertou freneticamente o botão do elevador e, ao lembrar que estava a alguns segundos de distância do cheiro dela sentiu suas pernas tremerem.

Fingiu que não se lembrava da voz dela para poder se surpreender quando abrisse a porta, mas as recordações da primeira vez que ela gemeu seu nome baixinho invadiram sua mente e ele teve receio de explodir de ansiedade.

Amargo, talvez até um pouco sádico, o Escritor teve uma ideia.

Corria pela calçada. Seus olhos estavam molhados de chuva, enquanto a cidade dormia ignorando sua existência. Para os motoristas dos poucos carros que desafiavam a tempestade, era apenas uma pessoa qualquer, sem passado ou futuro, correndo pelas ruas.

Seus passos tentavam correr no ritmo do seu coração acelerado. Não conseguiam, pois é muito difícil acompanhar um coração vazio. A cada metro que avançava, retornava ao passado. Ia da calçada para o beijo dela, da chuva para o suor que escorria dos cabelos dourados dela. A cada passo, suas roupas molhadas davam lugar aos braços dela.

Encontravam-se uma vez por ano, e isso por mais anos do que ele se lembrava – mentira, ele se lembrava de todos. Haviam sido amantes rapidamente, mas não podiam ficar juntos. Eram ingênuos demais para saber conviver e resolveram ir cada um para seu lado. Porém, eram famintos demais para não conviver e resolveram que mereciam uma trégua. Uma noite por ano.

Não era saudade, era mais que isso. Era a noite que desafiavam o tempo e voltavam ao passado, quando ainda podiam ficar juntos. E, entre gritos e gemidos, mostravam que num mundo em que tudo se transforma, eles nunca mudariam. Toda noite – no aniversário do primeiro beijo – seriam um. Seriam tudo.

Afastou a água dos olhos enquanto entrava no seu prédio. Havia avisado o porteiro que ela chegaria antes dele e que ela tinha a chave. Apertou freneticamente o botão do elevador e, ao lembrar que estava a alguns segundos de distância do cheiro dela sentiu suas pernas tremerem.

Fingiu que não se lembrava da voz dela para poder se surpreender quando abrisse a porta, mas as recordações da primeira vez que ela gemeu seu nome baixinho invadiram sua mente e ele teve receio de explodir de ansiedade.

Mas sua ansiedade desapareceu quando saiu do elevador e encontrou o apartamento vazio. No sofá, apenas um bilhete, explicando sem explicações que ela não conseguia mais. E pedia desculpas desesperadamente como pediu na primeira briga. A diferença é que agora ele tinha as desculpas por escrito para carregar a vida inteira.

Amassou o bilhete e sentou-se no chão da sala. Não queria desculpas, queria ela. E, enquanto as lágrimas escorriam do seu rosto, ela surgiu em sua mente. Estava nua, sentada em seu colo e acariciando seus cabelos enquanto abraçava seu rosto forte contra os seios. As batidas do coração dela se confundiam com os beijos deles, que emolduravam a frase “vai ser para sempre” que ela sussurrou em seus ouvidos.

E ele passou a noite ali, no chão e com os olhos fechados. No momento que os abrisse, veria que ela não estava ali. Encontraria apenas aquele bilhete e saberia que, agora sim, tudo estava acabado.

Não. O Escritor sentia-se amargo, mas não queria que o homem que corria na chuva sentisse o mesmo. Uma pessoa que corre na chuva atrás de um amor precisa ser recompensada. Sabia que seus leitores gostariam de ter um amor que os fizesse correr na chuva no meio da madrugada, numa questão de vida ou morte, porque todos querem isso em algum momento da vida. Assim, decidiu que a mulher estaria lá. Mordeu os lábios ao enxergar os dois fazendo sexo desesperado no chão da sala por um parágrafo inteiro.

Sabia da força que o sexo tinha, em suas crônicas, como forma de desabafo. Por isso que muitos dos seus personagens gritavam enquanto faziam sexo, algo que talvez seus leitores nunca tivessem percebido. Para seus personagens, o sexo não era paixão. Era uma maneira de enfrentar a solidão. Um modo de não ser apenas mais uma pessoa andando nas ruas.

Corria pela calçada. Seus olhos estavam molhados de chuva, enquanto a cidade dormia ignorando sua existência. Para os motoristas dos poucos carros que desafiavam a tempestade, era apenas uma pessoa qualquer, sem passado ou futuro, correndo pelas ruas.

Seus passos tentavam correr no ritmo do seu coração acelerado. Não conseguiam, pois é muito difícil acompanhar um coração vazio. A cada metro que avançava, retornava ao passado. Ia da calçada para o beijo dela, da chuva para o suor que escorria dos cabelos dourados dela. A cada passo, suas roupas molhadas davam lugar aos braços dela.

Encontravam-se uma vez por ano, e isso por mais anos do que ele se lembrava – mentira, ele se lembrava de todos. Haviam sido amantes rapidamente, mas não podiam ficar juntos. Eram ingênuos demais para saber conviver e resolveram ir cada um para seu lado. Porém, eram famintos demais para não conviver e resolveram que mereciam uma trégua. Uma noite por ano.

Não era saudade, era mais que isso. Era a noite que desafiavam o tempo e voltavam ao passado, quando ainda podiam ficar juntos. E, entre gritos e gemidos, mostravam que num mundo em que tudo se transforma, eles nunca mudariam. Toda noite – no aniversário do primeiro beijo – seriam um. Seriam tudo.

Afastou a água dos olhos enquanto entrava no seu prédio. Havia avisado o porteiro que ela chegaria antes dele e que ela tinha a chave. Apertou freneticamente o botão do elevador e, ao lembrar que estava a alguns segundos de distância do cheiro dela sentiu suas pernas tremerem.

Fingiu que não se lembrava da voz dela para poder se surpreender quando abrisse a porta, mas as recordações da primeira vez que ela gemeu seu nome baixinho invadiram sua mente e ele teve receio de explodir de ansiedade.

Mas explodiu, não de ansiedade, mas de paixão, ao encontrá-la sentada no sofá assim que abriu a porta do apartamento.

Beijou o sorriso que ela tentou lhe entregar e, antes do beijo terminar, estavam nus, deitados no tapete, repetindo a valsa faminta de todo ano. As pernas dela entrelaçavam-se ao seu corpo, as mãos dele enamoravam-se do corpo dela e as bocas existiam como se o mundo pertencesse a elas. E, minutos depois, urrou o nome dela enquanto ela recitava o nome dele, a saudade em cada sílaba que saía pela janela e se dissolvia na chuva que molhava a cidade.

Mas, desta vez, ele olhou nos olhos dela e disse, sem dizer uma palavra, que existir um dia por ano era suficiente, desde que tivesse todos os anos do mundo. E aninhou-se no pescoço dela, a chuva de sua pele se misturando ao suor dos cabelos dela e pediu para que o ano passasse rápido.

O Escritor gostou. E postou, querendo que essa história fosse conhecida e que alguém, ao terminá-la, sentisse vontade de gritar. Não sentia mais tristeza por saber que alguma pessoa no mundo estava vivendo uma paixão daquela – e o fato dessa pessoa existir somente nas telas de computadores não fazia diferença.

Mas, na metade do cigarro, ele percebeu que estava sendo injusto. Naquela madrugada de chuva, uma mulher que nem ele nem seus leitores conheciam não teve o direito à felicidade. Precisava reparar esse erro. Assim, voltou ao computador, pensando na mulher que passou de carro e acabou ficando de fora da crônica e começou a escrever.

Encostou o carro na chuva sem saber direito onde estava. O susto havia sido grande demais. Estava tentando enxergar algo através da tempestade quando a chuva pareceu dar uma trégua apenas para que ela o visse na calçada. Duvidou de si mesma, mas logo teve certeza. Era ele mesmo. Estava um pouco mais velho, mas era ele – e já havia ido embora.

Seu coração estava disparado. Havia passado anos pensando no primeiro namorado. Relacionamentos inteiros jogados fora porque ela tinha certeza de que, um dia, se encontrariam novamente. E de repente, ele estava ali, correndo pela chuva, como um personagem de uma crônica, ao lado dela. Era o destino tentando dizer que ela sempre teve razão: eles ficariam juntos.

E seria para sempre, como ela sempre acreditou.

O Escritor salvou o arquivo e reclinou-se na cadeira. Pensou em continuar a história, mas desistiu. Eram gritos demais para uma noite só e cada chuva pode trazer somente uma redenção.

Olhou pela janela. Bastava esperar outra tempestade.

11 leitores:

Igor Luiz disse...

Eu vou comentar só por comentar mesmo... eu queria te xingar, porque pra mim cabe melhor que um elogio neste caso, mas soaria indelicado.

Ah! E isto não foi uma crônica. Foi uma aula.

Cesar da Mota Marcondes Pereira disse...

Puta texto!
Metonímico, visceral - construção e reconstrução.

É um daqueles textos seus que merecem ir parar em livro ;)

cleuson disse...

Ia te xingar, mas, nem original eu iria ser. Muito bom. Sem medo de ser apenas mais um, vou repetir q foi uma aula.

cleuson disse...

Ia te xingar, mas, nem original eu iria ser. Muito bom. Sem medo de ser apenas mais um, vou repetir q foi uma aula.

Natan Andrade disse...

CARRRRRRAAAALHO MULEQUE

(É a minha reação para todo texto que eu acho muito bom)

P.S.: Foi minha reação para "A Última Pergunta" do Asimov e "A Forma da Espada" do Jorge Luís Borges.

Natan Andrade disse...

CARRRRRRAAAALHO MULEQUE

(É a minha reação para todo texto que eu acho muito bom)

P.S.: Foi minha reação para "A Última Pergunta" do Asimov e "A Forma da Espada" do Jorge Luís Borges.

Kell Bonassoli disse...

Muito obrigada por nos permitir viver um pouco do seu processo criativo. Não sei nem explicar a intensidade da gratidão que é poder ler uma crônica-aula destas.

Jeferson Corrêa disse...

Muito obrigado por essa crônica! Nessa época onde todos demonstram sua opinião pra criticar,me sinto na obrigação de postar pra agradecer. Sua crônica é Inspiradora, cara! Adoro ler algo que me tira do conforto. Que brinca com a narrativa, que é metalinguista, etc. Sua crônica é realmente muito bem construída e é bem gostosa de se ler. Li por curiosidade e terminei admirado. Palmas pra você! Também escrevo, mas ando parado com meus contos e crônicas. Espero conseguir sair do bloqueio criativo que estou passando e voltar a escrever algo tão bom quanto o que acabei de ler.
Meus olhos agradecem. Obrigado pelo ótimo trabalho, Rob! =)

@frank_london disse...

Terminei de ler com os olhos molhados, e não era da chuva.
Porra, Rob. Que texto, cara. Que texto.
Obrigado por esse presente que é poder te ler.

Daniel disse...

Obrigado!

Me vi muito nessa crônica! A gente acaba de inventar o personagem, e ele não é mais nosso. Aí fica a obrigação de lhe dar um final digno. É engraçado, lembra um pouco aquela história do Da Vinci, que dizia apenas tirar a escultura de dentro da pedra: parece que o personagem já tem a história, o papel do Escritor é apenas retratá-la.

E a sensação de débito que dá, quando a gente inventa um personagem, já pensou nas angústias e desejos dele, e de repente ele não cabe mais na história?

Como sempre, demais!

FRANCISCO ISAIAS Da Silva Sousa disse...

Simplesmente poético,a saudade saindo pela janela se dissolvendo na chuva que caia,você faz magica com as palavras.

 

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