20 de dezembro de 2015

Certezas e Certezas Absolutas

Ele saiu do cinema calado, completamente diferente dos amigos, que ainda viviam cada cena do filme como crianças na porta de um cinema que se recusou a envelhecer e fincou os pés em 1977. Todos eram garotos novamente. Queriam um sabre de luz ou pilotar um caça, viajando de um planeta para o outro. Acima de tudo, queriam livrar a galáxia do mal.

Todos, menos ele, que continuou em silêncio quando entraram no bar e permaneceu assim quando pediram as primeiras cervejas. Foi só no segundo copo que um dos amigos, ao ver que ele apenas encarava o copo, cutucou seu braço:

“Você não gostou do filme?”

“Adorei”, respondeu, ainda com os olhos baixos.

“Mas você não está falando nada! O que achou do filme?”

Ele observou uma bolinha de gás se desprender do fundo do copo e flutuar até a superfície.

“É maravilhoso. É melhor que eu esperava.”

Seu tom de voz era preocupado. Completamente diferente de horas atrás. Na fila para entrar no cinema, ele estava tão empolgado quanto os companheiros e falava pelos cotovelos, conversando sobre os filmes anteriores para disfarçar a ansiedade, sem perceber que isso o deixava ainda mais nervoso.

Havia comprado o ingresso dois meses antes, mas não era um filme que ele esperava para assistir desde o dia que os ingressos começaram a ser vendidos, nem desde que o primeiro trailer foi lançado. Era mais que isso. Estava esperando esse filme desde garoto. Foram décadas imaginando como esse filme poderia ser e, muitas vezes, se perguntando se ele seria feito.

Agora, com a história e cada cena frescas em sua cabeça, tudo o que ele conseguia fazer era fitar o próprio copo.

“Mas por que você está desse jeito?”, um deles perguntou.

“Já sei”, outro concluiu. “É por causa daquela cena em que...”

“Não! Sem spoilers”, o terceiro gritou, batendo na mesa. “Isso aqui é uma crônica e não sabemos se todos os leitores já assistiram ao filme!”

“Tem razão, desculpe”.

Ficaram alguns segundos em silêncio, esperando o amigo entregar o motivo de estar amuado daquele jeito. Finalmente, mas ainda sem erguer os olhos, murmurou.

“Estou apenas um pouco preocupado. Só isso.”

 “Preocupado com o quê? O filme é maravilhoso!”

“Sim, eu sei. É justamente por causa disso”, disse, olhando os amigos nos olhos pela primeira vez desde que as luzes do cinema se acenderam.

Nenhum deles soube ao certo o que dizer. Se ele tivesse dito que estava preocupado antes de ver o filme, na fila do cinema, seria compreensível. Mas ali, no bar, com os olhos ainda inchados das lágrimas derramadas a cada cena mais emocionante... Não fazia sentido. Sabendo disso, ele deu um gole na cerveja e resolveu explicar.

“Qual o melhor filme da saga?”

“Império...”, disse um deles.

“Contra”, emendou o segundo.

“Ataca”, concluiu o terceiro.

“Isso”, ele concordou, ignorando o momento Huguinho, Zezinho e Luisinho cavado pelos amigos. “Vocês nem precisaram pensar antes de responder. Esse é meu ponto”.

 “Mas o que há para se pensar?”, disse um deles. “Império é o melhor filme da saga!”

“Império é o melhor filme da história”, disse o segundo.

“Cadê o garçom?”, disse o terceiro, o único a perceber que as garrafas estavam vazias.

Como se procurasse a melhor forma de colocar sua preocupação em palavras, ele ficou em silêncio alguns segundos, com o rosto apontado na direção do balcão do bar, mas sem olhar nada específico.

“Vocês se lembram de 1999? Episódio Um?”, ele finalmente disse.

“Sim, claro”, um deles respondeu.

“O que vocês acharam do filme?”

“Bem, eu saí maravilhado. Só na quarta ou quinta vez que fui ao cinema que comecei a perceber que ele era ruim”, um deles disse – e não faz diferença qual, já que todos concordaram.

“Vocês acharam em algum momento que ele era melhor que Império?”

“Claro que não! Nada é melhor que Império!”

“E ao ver Episódio Um”, ele perguntou, agora olhando diretamente para cada um dos amigos, “vocês acharam que Episódio Dois poderia ser melhor que Império?”

“Imagine! Império é o melhor filme da história!”

“Sim”, ele concordou. “Eu também acho isso.”

“Nunca teremos um novo Império Contra-Ataca!”, declarou um deles, de forma definitiva.

“Hoth! A cena dos asteroides! Boba Fett!”, emendou o segundo.

“Posso comentar spoilers desse, certo? O filme é de 1980, os leitores da crônica sabem o que rola no filme”, pediu o terceiro.

“Claro”, todos emendaram.

“I AM YOUR FATHER!”, ele gritou, erguendo o copo, e sendo aplaudido pelos outros dois.

Quando os aplausos e gritos cessaram, o amigo parecia ainda mais fatalista.

“Como eu disse, esse é o meu ponto. Vou tentar explicar aqui”, ele disse, dando um gole na cerveja. “O Império Contra-Ataca é mais que um filme. Ele é uma das poucas certezas absolutas da vida.”

“Como assim?”

“A gente sempre teve certeza não só que Império Contra-Ataca é o melhor filme de Star Wars, como nunca mais outro Império Contra-Ataca seria feito. Pergunte a um fã se ele gostaria que outro O Império Contra-Ataca fosse feito. Ele vai falar que sim. Mas pergunte se ele acha que isso é possível e ele vai rir da sua cara.”

“Sim, tem razão.”

“Império Contra-Ataca é uma certeza. É uma daquelas coisas que acontece apenas uma vez na vida, e que mostra que a perfeição é possível. Aliás, um dos motivos dele ser tão bom é que sabemos que nunca mais haverá outro igual.”

“Tipo o Brasil de 70”, disse aquele que gostava de futebol.

“Tipo a Bianca”, disse aquele nunca havia se recuperado da primeira namorada.

Nova rodada de cervejas. Quando o garçom terminou de encher os copos, ele continuou.

“Enfim, eu sempre pensei isso. Por mais que eu mentisse para mim dizendo que adoraria que outro Império Contra-Ataca surgisse, eu sempre soube que isso não iria acontecer. E eu nem precisei dos outros filmes para saber isso, soube disso quanto assisti pela primeira vez. A primeira vez que assisti Império, eu tive certeza que aquilo era o auge. Quando fui assistir O Retorno de Jedi, eu vi que estava certo assim que os ewoks apareceram”.

“Eu também”, um concordou.

“Aí veio a nova trilogia...”, disse outro.

“E a gente teve mais certeza ainda. Aliás, não vamos nos esquecer das edições especiais. O Império Contra-Ataca é tão imbatível que nem mesmo a nova versão do próprio Império Contra-Ataca consegue ser do mesmo nível. É o que eu estou falando, ele é uma certeza. É algo que a gente cresceu sabendo que era verdade indiscutível.”

“Sim.”

“Pelo menos, até hoje”.

Todos pararam de beber ao mesmo tempo. Mas apenas um deles teve coragem de transformar o espanto em palavras.

“Espere aí! Você está dizendo que Episódio Sete é melhor que Império?”

“Não, claro que não. Na verdade, não estou comparando. Afinal, lembre-se que Império é o segundo filme da Trilogia Clássica. E esse filme que acabamos de assistir é o primeiro de uma nova trilogia.”

“E daí?”

“E você realmente acha”, ele indagou, “que pelo que vimos hoje... Pelo filme que vimos agora... Que essa nova trilogia não tem chances de ter um segundo filme melhor que Império?”

“Você acha?”

“Não estou dizendo que sim, mas... Pense. Pense nas trilogias. Uma Nova Esperança virou O Império Contra-Ataca. Certo. Agora, Episódio Um a gente sempre soube, desde o primeiro dia, que ele jamais daria origem a um novo Império Contra-Ataca. Com sorte... Com muita sorte, ele teria uma continuação que chegaria perto de O Retorno de Jedi. Agora, se o Despertar da Força, que é o primeiro filme dessa trilogia, já foi tudo isso...”

Deixou o resto da frase no ar, esperando que um dos amigos a pescasse. E não demorou muito até que um deles mordeu a isca.

“Meu Deus. Você tem razão. Se Episódio Sete já foi tudo isso... Episódio Oito pode ser melhor.”

“Pode ser melhor que Império.”, ele corrigiu.

“Será? Mas Império é perfeito!”

“Mas agora esse risco agora existe. E eu não sei se estou pronto para isso”

Silêncio na mesa. Desta vez, não porque as cervejas tinham acabado ou porque tinham receio de comentar spoilers no meio da crônica. Era um silêncio mais profundo, típico de pessoas que veem suas vidas inteiras sendo questionadas.

“Você tem razão”, um deles finalmente disse. “Eu não saberia viver direito sabendo que Império Contra-Ataca não é o melhor filme da saga. Acho que eu nem mesmo me reconheceria mais.”

“Sim”, outro emendou. “Agora que você está falando... Existem dias que você acha que não entende nada sobre a vida. Seu casamento termina e você não sabe o motivo, seu colega incompetente é promovido e você não... Aqueles dias em que você sabe que está fazendo tudo errado, mas não entende ao certo o que exatamente está fazendo de errado, sabem?”

“Sim.”

“Mas aí você para e pensa que Império Contra-Ataca é o melhor Star Wars e sente um pouco de conforto, porque sabe que existe pelo menos um assunto que você entende. Sabe que existe algo que você sabe e que nunca vai mudar.”

“Exato. Eu sequer me lembro da pessoa que eu era antes de achar que Império Contra-Ataca era o melhor filme da saga! Eu não conseguiria mudar agora, estou velho para isso.”

“Eu também não.”

“Vocês fazem ideia”, disse um deles, “que se Episódio Oito for melhor que Império... Nada mais faria sentido? Amor. Vida. Morte. Não vão mais existir verdades absolutas. Porque se Episódio Oito for o melhor Star Wars, é porque a única certeza que nós tínhamos... Deixaria de ser verdade.”

“E se isso acontecesse, tudo o que sabemos sobre a vida... Sobre o mundo... Sobre nós mesmos...”

“Até mesmo sobre o Brasil de 70”, um deles acrescentou.

“Ou sobre a Bianca”, outro concluiu.

“Tudo. Tudo poderia estar errado”, alguém finalizou.

“Eu não estou pronto para isso. Eu não estou pronto para jogar décadas da minha vida fora assim.”

“Não. Esse filme não pode ser melhor que Império.”

“Sim! Se um dia fizerem um Star Wars melhor que Império, no que nós vamos acreditar? Vou estar com quase cinquenta anos e de repente descobrir que nunca soube nada sobre a vida?”

“Meu Deus”, disse um deles, escondendo o rosto nas mãos. “Tantos anos... Tudo o que sou... E isso pode terminar em apenas um filme? Não é justo.”

“Vamos torcer. Quem sabe as coisas dão errado...”

“Quem sabe o roteiro é ruim?”

“Quem sabe trazem o Jar Jar de volta?”

“Isso. Aí iríamos para casa e passaríamos a noite bebendo e conversando sobre Império Contra-Ataca.

“E nos perguntando se um dia alguém conseguiria fazer um filme tão bom quanto ele. Ou melhor.”

“E tendo certeza que a resposta era ‘não’”.

“Certeza absoluta.”

“Verdade. Bons tempos em que a gente entendia o mundo...”

Novo silêncio. Desta vez, por aquele medo típico que sentimos quando vemos uma verdade absoluta se esfarelar como um castelo de areia, que é a maneira que a vida encontra, às vezes, de mostrar quem manda ali. Mas ele foi quebrado pro uma voz. Era outro amigo, que havia ido a outro cinema e combinado de aparecer no bar depois. Entrou vestindo um manto Jedi e gritando sobre o filme.

“Que filmaço!”

Todos olharam para ele com cara de enterro.

“O que aconteceu?”, ele perguntou, puxando uma cadeira. “Vocês não gostaram do filme?”

“Adoramos.”

“Por que essas caras?”

Todos pensaram se era justo estragar a vida do amigo, mas decidiram que não. Ele podia esperar mais uns anos e descobrir por conta própria se Episódio Oito era melhor que Império Contra-Ataca. Assim, ficaram em silêncio. O único que falou, falou mais para si mesmo que para os outros.

“Saudade da Bianca. Nunca mais vou achar uma mulher como ela...”, resmungou.

3 leitores:

Marcio Melo disse...

Espetacular meu caro. Linda crônica. Me arrepiei no final!

Ahhhh... Bianca! hehehe

Rhuan Rousseau disse...

Tive uma conversa parecida com esta depois de ter assistido O Despertar da Força. Como um filme pode ter virado tanto nossas cabeças a ponto de nos deixar tão pensativos depois de tais acontecimentos Spoilísticos. O filme foi tão bom que até tenho dúvidas se ele foi tão bom quanto imagino que foi. Seu texto foi a completa síntese do que os fãs de Guerra nas Estrelas sentiram após o deleite do novo filme!

Marco Antônio Paiva disse...

Meus sentimentos foram bem parecidos, mas claro que fui ao cinema sozinho e fiquei sentado pensando na vida até começarem a limpeza e me expulsarem de lá. ^^

 

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