10 de novembro de 2015

Odisseia

Chovia e a História corria, tomando cuidado para não tropeças nas próprias palavras.

Olhando de longe, parecia ser uma história como outra qualquer. Tinha um personagem simpático, daqueles que a gente se identifica com facilidade. Também possuía diálogos bem construídos e certa dose de humor.

Mas, se olhássemos mais de perto, veríamos que ela era uma história diferente, e não porque ela corria como se estivesse viva – afinal há quem diga que, na verdade, toda história é viva. Ela era especial porque era uma história de amor e, sendo uma história de amor, era repleta de dúvidas. E, numa época em que todos têm receitas infalíveis sobre o amor, é preciso coragem para expor incertezas como a História fazia.

Sim, a História era viva e corajosa. Isso ficava claro em cada passo que ela dava enquanto corria na calçada. Olhava sempre para frente – pois o amor sempre caminha orgulhoso de si mesmo e com a cabeça erguida, algo que as imagens com mensagens de autoajuda parecem não entender – e dava passos largos, pulando poças e pequenas corredeiras que desciam pela sarjeta.

Mas seus obstáculos não eram apenas as poças de água. A História era obrigada a desviar de tudo o que aparecia em seu caminho. Gifs animados passavam girando pela calçada fazendo piada com uma situação de trabalho ou com falta de dinheiro. Selfies de pessoas que perderam a vergonha na mesma proporção da autoestima lotavam a calçada, implorando por elogios. Casais felizes andavam abraçados, impedindo a passagem – mas bastava esperar até que ninguém estivesse olhando para que começassem a brigar, tomando cuidado para não macular a imagem de casal perfeito.

Esbaforida, a História sabia que o tempo estava acabando e apertou o passo.

Mas, conforme sua velocidade aumentava, os obstáculos cresciam. Perdeu tempo desviando de uma enorme multidão vestida de azul que fazia coro contra pessoas que se vestiam de vermelho. Precisou quase se jogar no chão para não ser atingida por uma mensagem de homofobia que veio voando pelo ar a esmo, tentando acertar qualquer coisa que encontrasse pelo caminho. Outra frase de ódio – esta contra pessoas de outras classes sociais – veio logo atrás e acertou uma crônica escrita por um aluno de escola pública, matando não apenas a história como os sonhos do garoto de se tornar escritor.

A História começou a perder o fôlego. Mas não podia desistir. Ela sabia isso desde que ganharia sua primeira linha. Precisava chegar ao seu objetivo, que ia muito além do seu final.

Mas as coisas começavam a ficar cada vez mais e mais difíceis. Uma nova multidão – esta vestindo vermelho e atacando aqueles que usam roupa azul – apareceu em sua frente. Novo desvio, nova perda de tempo, especialmente porque a História, sem perceber, caiu no meio das pessoas que seguiam as modas.

Foi obrigada a desviar de vegetarianos que ainda limpavam a gordura do hambúrguer da boca – e que na semana que vem estarão comendo carne mais uma vez – de especialistas de cervejas que deram o primeiro gole duas semanas atrás e de escritores que sempre sonharam em escrever, mas que se tornaram fotógrafos porque sempre sonharam em fotografar e que no fim viraram chefs porque sempre sonharam em cozinhar.

Também presenciou algumas brigas. Na verdade, discussões levantadas por pessoas mais preocupadas em mostrar que defendem uma bandeira – e que, como qualquer pessoa que recém descobriu uma bandeira, enxerga todas outras bandeiras como inimigas – e de especialistas que explicam tudo para quem quiser ouvir. Também atravessou o discurso de uma pessoa que dava uma verdadeira aula sobre um caso de corrupção, mais preocupado em mostrar o quanto era bem informado que em impedir o novo escândalo que apareceria no dia seguinte. Saltou sobre dois fãs de um filme que trocavam socos, cada um exigindo que o outro reconhecesse que o adversário gostava mais do filme que ele.

O tempo estava curto. Nova multidão. Um corpo de uma celebridade esquecida jazia na calçada. Ao redor dele, diversas pessoas se juntaram. Algumas alegavam que sempre foram fãs dela, outros diziam que bastava alguém morrer para todos se tornarem fãs e um terceiro grupo argumentando que não aguentava mais as pessoas reclamando daquelas que se diziam fãs. A História viu quando o estranho velório foi interrompido por um abaixo assinado impedindo que o bar que ninguém ia não fosse fechado.

Todos ignorando a chuva. Todos tirando fotos. Fotos de si mesma e de momentos esquecíveis, que apenas desviam a atenção da vida.

Finalmente, a história atingiu seu objetivo. Faltavam poucos minutos para a garota sair do trabalho quando ela encontrou o texto na sua linha do tempo. A História se tornou a última coisa que ela leu antes de desligar o computador. Parecia ter sido escrito para ela, que vivia os primeiros dias de uma grande paixão e não dava atenção a mais nada – pois o amor faz a gente prestar atenção em tudo, mas a paixão faz a gente esquecer até de nós mesmos – e ela sorriu.

Sorriu com aquela História de amor e levou o sorriso com ela, no ônibus. Foi um sorriso discreto, mais preocupado em existir que em ser visto. Afinal, essa sempre foi a missão da História: fazer a menina sorrir de uma forma só sua, e que ela jamais esquecesse.

Todo o resto seria esquecido e repetido e esquecido e repetido no dia seguinte.

6 leitores:

Dell Soares disse...

Seus textos, quando me encantam, o fazem da mesma forma que uma boa música. Preciso ler, reler, tenho vontade de aplaudir, e mais do que isso, apertar tua mão, te dar uma abraço e agradecer por organizar as palavras de maneira tão eficaz que me faz te dizer: eu precisava ler isso. A sensibilidade nesse texto transbordou de tanto talento. Ou seria o contrário?

Dell Soares disse...

Seus textos, quando me encantam, o fazem da mesma forma que uma boa música. Preciso ler, reler, tenho vontade de aplaudir, e mais do que isso, apertar tua mão, te dar uma abraço e agradecer por organizar as palavras de maneira tão eficaz que me faz te dizer: eu precisava ler isso. A sensibilidade nesse texto transbordou de tanto talento. Ou seria o contrário?

Cesar da Mota Marcondes Pereira disse...

E é sempre uma história esquiva, livre de ardis, que consegue passar pelos dedos até o teclado ;)

Rob, mandou muito bem, man!!

Fábio Ricardo Panzoldo disse...

Olá. Fantástico como vc deu vida (no meu entendimento), àquelas linhas do tempo do facebook que sempre volta de ano em ano para nos lembrar que o tempo passou rápido demais. Tão rápido, que o amanhã terá outra lembrança. Abraço.

Marco Antônio Paiva disse...

Lindo texto. Nos faz pensar em tantas coisas bobas que nos atrapalham na vida. Tolas coisa no cotidiano se transformam em monstros, o tempo com suas presas nos morde um pedaço, a preguiça nos... Deixa eu parar que esse papo vai longe.
Obrigado pelo momento de reflexão.

Samuel Santos disse...

Que crônica linda, Rob.

É triste ver as futilidades inundando a vida das pessoas e afogando os instintos humanos e criativos.

Parabéns!!

 

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