20 de maio de 2015

Que Descolorirá

Ela entrou na papelaria apressada e carregando uma sacola de livraria. Parecia procurar algo específico, mas não reduzia o passo enquanto andava pelos corredores. E sempre olhando atentamente para os lados, examinando prateleira por prateleira como se sua vida dependesse disso. Estava no terceiro corredor quando o vendedor se aproximou.

– Boa tarde. Posso ajudá-la?

– Lápis de cor.

Assim mesmo. Sem um boa tarde, um por favor, ou nada parecido. O vendedor ignorou o modo brusco da mulher e pediu para que a mulher o acompanhasse até o quinto corredor. Quando chegaram, ele apanhou uma caixa azul, com vinte lápis de cores diferentes.

– Eu vou ter apenas essa marca.

– Não. Essa marca é ruim.

– Desculpe?

– Eu já experimentei essa marca. Ela é ruim. Preciso de outra.

O vendedor sorriu se desculpando.

– Infelizmente tenho apenas essa. As caixas de outras marcas acabaram e ainda não recebemos. Mas esta aqui tem uma saída boa.

– Não. Acredite em mim, ela é ruim. Ela não tem brilho.

– Brilho?

– Isso. Se você colorir com ela, não tem brilho. As cores ficam mornas. Eu preciso de outra.

– Olhe, infelizmente...

– Você já olhou no seu estoque?

– Senhora, se eu não tenho aqui na prateleira, é por...

– Eu posso ir olhar no seu estoque?

– Oi?

– Seu estoque. Onde fica? É só uma caixa de lápis de cor, tenho certeza que vou achar algo.

– Me desculpe, mas isso...

– Eu preciso de uma caixa de lápis de cor. Uma boa. De preferência uma que seja profissional. Pode ser uma daquelas de quatrocentos reais. Eu não me importo.

O vendedor olhou para os lados, sem graça. Sabia de qual caixa ela estava falando, mas nunca tinha visto aquilo ali na papelaria. Assim, fez uma sugestão.

– A senhora já olhou nas outras papelarias do shopping?

– Sim. Em todas. Não tem lápis de cor. Nenhuma marca boa.

– Bem, eu realmente só tenho esses.

A mulher olhou para os lados, certa de que o vendedor estava mentindo. Mas logo desistiu e abriu a bolsa, sacando o celular da bolsa.

– Espere um minuto que eu quero mostrar uma coisa.

O vendedor ficou em silêncio, enquanto ela mexia no celular. Minutos depois, entregou o aparelho na mão dele. Era uma tela do Instagram com uma foto que mostrava uma página de um livro para colorir. Eram flores que se entrelaçavam umas nas outras, e cada uma delas estava pintada de uma cor, que ia do azul-turquesa ao vermelho-sangue. O vendedor ia comentar o quanto estava bonito, mas a mulher falou antes.

– Foi a desgraçada da Laís que postou isso.

Sem saber o que comentar, o vendedor apenas devolveu o celular, enquanto a mulher continuava:

– Ela postou isso apenas pra me irritar.

– Como?

– Ela comprou uma caixa de lápis de cor profissional e fica postando para me provocar, porque como o lápis dela é melhor que o meu, as cores ficam mais vivas. Está vendo aqui? Estão vivas. Parecem flores de verdade! E no meu livro não fica assim.

O vendedor olhou para as sacolas da mulher. Dentro, havia cinco ou seis livros para colorir.

– Ah, a senhora precisa dos lápis para aqueles livros de pintar?

– Pintar, não. Colorir. Eu não sou criança.

– Desculpe. Colorir.

– Sim, preciso por causa disso. Comprei os livros novamente, porque vou fazer tudo de novo. E também comprei os outros livros. Comprei todos! Alguns eu tenho certeza que fui a primeira a comprar! A Laís não tem esses! Eu sei que não! Eu sei todos os que ela tem!

– Certo, mas...

– Mas preciso de uma caixa de lápis profissionais! Eu vou colorir isso melhor que a Laís e postar a foto! E ela que engula isso!

– Certo. Olha, infelizmente, essas caixas... São aquelas de madeira, certo?

– Não, não precisa ser a caixa de madeira. A caixa eu já tenho. Eu comprei um faqueiro e joguei as facas fora. Agora eu preciso só dos lápis. Ninguém vai saber que aquilo é um faqueiro, mas eu preciso de lápis profissionais. Porque eu vou fazer a Laís engolir meu desenho.

– Senhora...

– Sabe... Eu não sou como a Laís. A Laís não faz nada o dia inteiro. Casou com um homem rico, então tudo o que ela teve que fazer para poder colorir os livros foi cancelar a aula de tênis. Eu? Rá! Eu preciso cuidar da casa. Preciso resolver um monte de coisas o dia inteiro. É o filho que precisa do lanche para levar na escola, é o marido que não sabe onde guardou a chuteira, é a filha que está chorando porque os lápis de cor dela sumiram porque eu peguei par... Porque o irmão pegou para fazer alguma coisa. Eu não tenho tempo para colorir assim!

– Olhe, minha s...

– Mas eu vou! Eu vou colorir isso e esfregar na cara da Laís. E quero ver se ela vai olhar com desprezo para o meu desenho quando for jantar na minha casa com aquele marido entojado dela! E eu vou colorir de verdade! Não vou fazer como a Cecília!

– Cecília?

– A Cecília fica postando páginas dos livros dela, mas eu sei que não é ela que pinta. Ela contratou um desenhista para isso! Fica postando as pinturas mais maravilhosas do mundo, com frases como “ai, pintei um pouco hoje à tarde, mas não ficou bom” e todo mundo curte as fotos achando que foi ela que fez aquilo! Mas depois eu pego a Cecília! Primeiro eu quero destroçar a Laís! Eu quero fazer a Laís rasgar os livros dela de ódio!

– Olhe, minha senhora...

– Sim, vai ser isso! Primeiro, a Laís. Depois, a Cecília. E, por fim, a Fernanda.

– Fernanda?

– Ah, a Fernanda é outra história, nem te conto. Ela fica pintando os livros, aí retoca tudo no computador antes de tirar foto. E é óbvio que ela faz isso, mas mesmo assim as pessoas ficam comentando “ai, que lindo, Fê”, “nossa, como você pinta, bem, Fê”. Farsa de mulher. Mas essa eu vou pegar por último. Essa eu vou chamar um dia na minha casa e jogar um livro na mesa. “Pinta aqui na frente de todo mundo que eu quero ver!”.

– Certo... Bem, minha senhora... Os lápis...

– Sim, onde estão?

– Eu vou ficar devendo.

– Não, não vai. Você não está entendendo. Eu tenho os livros aqui. Eu tenho os livros e a disposição para humilhar cada uma delas. E eu preciso dos lápis.

– Bem, minha senhora, eu tenho apenas esses. Tenho certeza que para esses livros de pintar, eles...

– Colorir! Livros de colorir!

– Certo. Colorir. Desculpe.

De repente, a mulher pareceu esquecer que o vendedor estava ali. Aliás, ela pareceu se esquecer de que havia um mundo ao seu redor. Apenas cobriu o rosto com as mãos, aparentando um profundo cansaço mental. O vendedor ficou sem reação, mas, antes que pudesse falar algo, a mulher ergueu a cabeça e olhou para ele por entre os dedos. Lágrimas brotavam dos seus olhos.

– Vocês estão tentando me enlouquecer. Todos vocês.

O vendedor olhou ao redor, preocupado em ver se alguém mais estava vendo aquilo. Mas estava sozinho na loja com a mulher. Assim, tentou consertar a situação.

– Minha senhora, me desculpe. Eu vou ter apenas esses lápis de cor aqui. Mas... Posso fazer uma sugestão?

A mulher continuou olhando para ele sem dizer nada. Sua expressão estava começando perigosamente a transparecer uma pessoa que acabou de descobrir que tudo o que a separa da felicidade plena é arrancar a cabeça de alguém.

– Talvez seja melhor a senhora arrumar outro hobby.

– Outro hobby? OUTRO HOBBY?!

– Bem, eu não conheço a senhora, mas me parece que esses livros estão começando a...

– Todas elas têm os livros! Todas elas estão postando fotos disso! Eu não posso ser a única a não fazer isso!

– Bem...

– Você sabe o que as pessoas pensam daquelas que não fazem aquilo que todos os outros estão fazendo? Sabe? Eu preciso colocar uma foto no Instagram! Eu preciso mostrar que estou fazendo isso também! E melhor que os outros!

– É que, até onde eu sei, esses livros de colorir foram feitos para relaxar, e... Bem... A senhora...

– EU ESTOU RELAXADA!

– Certo. Desculpe.

– MAS EU PRECISO MOSTRAR PARA AS OUTRAS PESSOAS! EU PRECISO MOSTRAR QUE ESTOU RELAXANDO MAIS QUE ELAS!

– Sim, sim. Desculpe.

Mas era tarde demais. A mulher já estava indo embora, quase derrubando uma pilha de cadernos próxima à porta quando saiu da papelaria. E parecia estar resmungando alguma coisa sobre incendiar a casa da Laís com ela e os livros lá dentro.

4 leitores:

Celle Fonseca disse...

Estou fascinada! Ri demais dela querer matar, rasgar os livros, postar a melhor foto e de querer ser a mais relaxada de todas! Porque é assim mesmo, estamos o tempo todo tendo de seguir a moda, vigiando, ostentando, sendo vigiados e quando menos nos damos conta nos tornamos paranoicos. Excelente texto!

Celle Fonseca disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Fernanda disse...

Poxa, Rob... Quer dizer que eu trapaceio e passo os coloridos pelo photoshop?! Kkkk

Viviane Lessa Fernandes disse...

Hahahahahahahahahah Rob incrível!!
Como dizem a grama do vizinho é sempre mais verde que a nossa...felicidade é ser feliz por si mesmo e não pra provar pro mundo que isso é verdade!!! Senão não é verdadeira! Bjos parabéns!

 

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