10 de abril de 2015

Curtir, Compartilhar

Acordou.

Acordou e foi trabalhar. Ao chegar ao escritório, passou os olhos pelas notícias do dia. Uma enxurrada de novos escândalos políticos e de crimes ocorridos com pessoas que ele nunca saberia que existiram se elas não tivessem morrido. Em meio a tudo isso, notícias sobre celebridades que não eram famosas ontem, mas que hoje explicavam como fazer o penteado da moda.

Sentia-se pequeno demais perto de tanta coisa. E, pequeno, escreveu sobre como somos bombardeados por notícias de todos os lados e como é quase impossível filtrar para nós mesmos o que realmente importa. Escreveu mais para colocar os pensamentos em ordem, para não se sentir tão pequeno, para ter alguma importância para si mesmo.

Muitos curtir, diversos compartilhar.

Foi almoçar.

Foi almoçar e, com o celular na mão, desceu a linha do tempo. Pensava no paradoxo dela se chamar linha do tempo mesmo sempre completamente parada, mostrando as mesmas coisas e mesmas ideias e mesmas publicidades pessoais. Fotos da viagem perfeita, recados do namorado infalível. Todos curtidos e compartilhados. O melhor livro que alguém leu na vida, uma nova versão da história que acontece todos os dias e causa a revolta de todos os dias no ativista de todos os dias, cento e vinte e sete coisas que você deveria ter visto na internet essa semana senão você não é ninguém. Épico. Quebrou. Lacrou. Tantas palavras que não existiam ontem e que ninguém irá lembrar amanhã.

Sentia-se anestesiado perto de tanta coisa. E, anestesiado, desabafou no celular um comentário sobre a discussão que acontecia no momento, e que ele não via muito propósito naquilo, que parecia ser um dos casos que a repercussão se torna mais importante que o assunto, com as pessoas muito mais preocupadas em mostrar o que achavam do problema que com o problema em si. Postou porque não entendia como ninguém mais enxergava isso.

Muitos curtir, diversos compartilhar.

Tomou café.

Tomou café tentando terminar de escrever um pequeno texto sobre duas pessoas que se apaixonavam em plataformas diferentes de uma estação de trem. Queria um final feliz para elas, mas não conseguia encontrá-lo. Queria o final feliz porque gostaria que seus personagens fossem felizes o suficiente para construir um mundo escondido do mundo real, onde tudo ao mesmo tempo parece se transformar num enorme nada ao mesmo tempo cuja única função é mudar a vida das pessoas para sempre por quatro minutos.

Sentiu-se incomodado porque precisou abandonar o texto. E incomodado, levantou-se e foi para perto do pessoal do escritório tirar uma foto juntos porque era uma data comemorativa e todos estavam postando a mesma foto. Já haviam feito aquilo antes, e fariam de novo depois. As mesmas caras, os mesmos gestos, as mesmas poses da foto da semana passada. Postou porque era obrigado porque sem fotos mostrando o quanto você é feliz, você não é feliz.

Muitos curtir e alguns compartilhar.

Jantou.

Jantou após voltar para casa e decidiu terminar o texto. Ainda procurar pelo final feliz, fez os personagens atravessarem os trens da estação, se encontrando na porta de um dos trens. Beijaram-se na frente de todos e foram aplaudidos, pois num mundo onde nada tem substância, uma simples história de amor numa estação de metrô parece ser genial durante dois minutos, com sorte três.

Sentiu-se cansado. Cansado, imaginou que se essa história se passasse no mundo real, as pessoas na estação do metrô tirariam fotos do casal se beijando para postar na internet (muitos curtir e alguns compartilhar) com suas impressões sobre como o amor é importante (muitos curtir e alguns compartilhar – lindo!) e como a vida acontece nas ruas e não na internet (muitos curtir e alguns compartilhar – verdade!). Sites fariam matérias sobre 10 maneiras de beijar no metrô (muitos curtir e alguns compartilhar – muito bom!), os 10 beijos no metrô que você precisa ver e o quatro vai mudar sua vida (muitos curtir e alguns compartilhar – sensacional!), com fotos de cachorros se beijando no metrô (muitos curtir e alguns compartilhar – épico!), páginas da prefeitura fazendo brincadeira com o beijo (muitos curtir e alguns compartilhar – show!) e venda de camisetas “eu beijo no metrô” (muitos curtir e alguns compartilhar – quero!).

Mas, ainda cansado, fez a história se encerrar no beijo, porque não queria que nada disso acontecesse com seus protagonistas apaixonados. Queria que eles ficassem sozinhos, e não em uma jaula. E postou o texto.

Dois curtir. Nenhum compartilhar.

Foi dormir.

2 leitores:

Varotto disse...

I read the news today, oh boy...

Fernando Santos disse...

Agora que já sabemos a história dos dois no trem pelos spoilers, conta ela aí pra nós! (Muitos curtir, diversos compartilhar.)

 

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