11 de agosto de 2014

Amendoins Azedos e Outras Histórias de Bar

Eram quatro amigos que se encontravam às vezes para colocar o papo em dia. Dois homens e duas mulheres, mas que não eram casais – mesmo porque mal conseguiam concordar em tudo como amigos. Sempre que estavam juntos falavam, brigavam, discutiam, davam risada... E desce cerveja.

E, como acontece em qualquer encontro que reúne amigos e cerveja, as horas passaram sem ninguém ver. De repente, existiam mais garrafas de cerveja que assuntos restantes sobre a mesa. O bar já havia esvaziado – somente outra mesa, ali num canto, estava ocupada por um velho que parecia já estar cochilando – e os quatro ficaram em silêncio.

Cada um perdido em seus próprios pensamento, antes de um deles voltar a falar.

É neste momento que a crônica começa, com o Romantismo cutucando o Sonho com o braço.

Romantismo: Você não estava escrevendo um livro?

Sonho: Sim. Na verdade, ainda estou. Só não consigo terminá-lo.

Experiência: Está empacado em um trecho? Posso tentar ajudar.

Sonho: Não. Não consigo terminar por causa dela.

Realidade: Por que vocês estão olhando para mim?

Sonho: Porque é você que não me deixa terminar o livro.

Realidade: Eu? Eu não tenho nada a ver com isso.

Sonho: Toda vez que eu sento para escrever... Não é uma vez, duas vezes... É toda vez. Eu sento para escrever, ela liga para me interromper.

Realidade: Mas eu não ligo para interromper, eu ligo para falar coisas importantes.

Romantismo: Que coisas importantes?

Realidade: Dinheiro. Trabalhos. Essas coisas.

Romantismo: Ah, achei que tivesse paixão no meio.

Experiência: Como assim?

Romantismo: Coisa importante para mim é se apaixonar.

Realidade: Pelo amor de Deus, você não cresce nunca? Tem que se apaixonar o dia inteiro?

Romantismo: Cada um com suas prioridades. Você gosta de falar sobre contas e saldo bancário, eu prefiro continuar com quinze anos de idade.

Experiência: Olhe, esse negócio de se apaixonar é complicado. Você se expõe demais, e a outra pessoa...

Romantismo: Eu não disse que precisa ser por uma pessoa. Eu disse “se apaixonar”. Pode ser por um livro, um seriado, uma bebida. Pode até ser por uma pessoa, mas não precisa ser por isso.

Realidade: Se apaixonar por um livro? Para com isso.

Romantismo: Se apaixonar significa pensar no objeto da paixão vinte e quatro horas por dia. Vai dizer que você nunca leu um livro que fica pensando nele o dia inteiro? Você sai de casa querendo voltar para ele. Isso é estar apaixonado. O Sonho está de prova, quando eu me apaixono, fico dias sem nem falar com ele. Com nenhum de vocês, na verdade.

Experiência: Ficar pensando no livro? Porque metade dos livros que eu leio eu descubro como eles vão terminar quando estou na metade.

Romantismo: Não. Se apaixonar é querer estar lá quando você está aqui, e querer estar lá até quando você está lá, sabe?

Realidade: Isso não faz o menor sentido.

Romantismo: Não faz sentido para você, que fica o tempo inteiro pensando em pagar o aluguel.

Sonho: É por isso que eu não consigo terminar meu livro. Vocês ficam tirando meu foco.

Romantismo: Nós?

Sonho: Sim. Ela me liga para falar do aluguel. Você me liga para dizer que não consegue fazer nada enquanto não terminar não sei qual temporada de qual série. E a Experiência me liga dez minutos depois de você, para me dizer que a série não é tudo isso, ela já viu coisa melhor. E eu ali tentando escrever. Não dá.

Experiência: Você devia sentar e escrever esse livro de uma vez. Ou desistir logo disso. Fica sonhando com essas coisas...

Sonho: Nem começa. Vocês já me atrapalham com o livro, não vão me atrapalhar com a vontade de escrever o livro.

Romantismo: Vamos pedir mais uma?

Sonho: O papo está bom. E eu não vou escrever hoje, então eu topo.

Experiência: Não sei, não. Eu sei o que acontece quando bebo demais.

Romantismo: Você sempre diz que sabe tudo. Vamos beber.

Sonho: Traz mais duas aqui! E amendoim!

Realidade: Esse amendoim é por conta da casa?

Sonho: Tomara.

Realidade: Dá uma olhada na conta, depois, para ver se não estão cobrando esse amendoim.

Sonho: Esquece a conta. Vamos beber, a noite é uma criança!

Romantismo: Um brinde às paixões que ficaram no passado!

Sonho: Um brinde ao meu livro que ainda vai ser um sucesso!

Experiência: Um brinde a tudo o que vivemos juntos!

Realidade: Olha, esse amendoim está meio estragado, não come não.

Sonho: Pelo amor de Deus, você é muito chata!

Realidade: Pô, peguei um amendoim meio azedo. Não tem nada pior que amendoim azedo, ele vem junto com os outros na boca, escondido, e, quando você vê, a boca inteira está azeda. Você devia escrever um livro sobre isso. Amendoins azedos.

Romantismo: Sério? Seria um baita livro horrível.

Realidade: Aposto que as pessoas iriam se identificar. Todo mundo já comeu um amendoim azedo. Acho que iriam se interessar.

Sonho: Não, não quero falar mais do livro. Vocês sempre estragam todas as ideias que tenho.

Experiência: Que culpa eu tenho se acho que suas ideias podiam ser melhores?

Realidade: Que culpa eu tenho se você, como qualquer outro sonho, não paga conta alguma?

Romantismo: Que culpa eu tenho se você... Puta que pariu, Sonho, olha isso.

Todos olharam na direção da porta, fixando os olhos a garota que havia acabado de entrar no bar e pedido um maço de cigarros. Devia ter cerca de uns vinte anos, ou qualquer outra idade que fica entre a adolescência e a vida adulta, fazendo meninas terem corpo de mulher e mulheres terem cara de menina.

Usava um pequeno vestido branco colado ao corpo e saltos altos. Seus cabelos dourados pareciam refletir o Sol, independente de estarem no meio da madrugada.

Sonho: Porra...

Realidade: Esquece. Essa garota nem vai olhar para vocês.

Experiência: Tomara. Mulher assim sempre traz problema.

Romantismo: Entenderam o que eu quis dizer com “se apaixonar”?

Enquanto esperava pelo cigarro, a garota olhou para eles. E sorriu. Experiência desconfiou, Realidade duvidou, Romantismo se arrepiou e Sonho pensou como seria estar ao lado dela, e não na mesa. Experiência não se aguentou:

Experiência: Qual seu nome?

A garota sorriu ainda mais.

– Vida.

Pagou o cigarro, guardou na pequena bolsa e ainda sorrindo saiu do bar. Mas ficou na calçada, esperando algo acontecer. Ou alguém ir falar com ela, quem sabe. Experiência desconfiou, Realidade não entendeu, Romantismo estava pensando num poema e Sonho imaginou como seria ter filhos com ela.

Mas nenhum deles teve tempo de ir até a calçada. Quem apareceu ali foi o Velho da mesa do canto de quem eles nem se lembravam mais. Aparentemente, ele não apenas estava acordado como estava ali, na calçada, ao lado da Vida que vestia branco. E não demorou muito até ela colocar o braço ao redor da cintura dele e irem embora.

O silêncio no bar se tornou quase sólido. E foi quebrado pelo garçom, que veio até a mesa perguntar se queriam mais cerveja. Quem respondeu foi Romantismo, mas com uma pergunta:

Romantismo: Você conhece esse velho?

Garçom: Esse que levou a Vida embora?

Romantismo: Isso.

Garçom: Sim. Ele vem aqui às vezes. Mas não se sintam mal com o que aconteceu. É sempre assim.

Sonho: Como assim?

Garçom: Ele sempre fica ali no canto e ninguém presta atenção. De repente, ele passa e leva algo embora. Ele ganha todas.

Realidade: Que velho filho da puta.

Sonho: Como ele se chama?

Garçom: Tempo.

E foi embora, arrastando os pés, buscar mais cervejas, deixando todos em silêncio, enquanto a Realidade olhava para o pote de amendoins, com medo de comer um que estivesse azedo.

9 leitores:

Ricardo Wagner disse...

Sem brincadeira.

Essa crônica está FANTÁSTICA.

De dar arrepios. E me fazer bater palmas em pé diante do pc.

Meus parabéns! Inspirado demais dessa vez. =)

Cesar da Mota Marcondes Pereira disse...

Arrepiou, Rob!!!
forte abraço!

Fernando Santos disse...

Não vou me alongar, porque qualquer coisa que eu disser estará muito abaixo do nível desse texto.
Parabéns, Rob!

Sil disse...

Texto perfeito!

Apenas um conselho:

Continue mostrando seus escritos para a Ana e sempre confie na opinião de quem entende de coisa boa. :)

Varotto disse...

CACETE!

Varotto disse...

Cara, na boa. E quem acaba ficando milionário é o Paulo Coelho dizendo que o "Universo conspira a seu favor" ou whatever. Se você não chegar lá é porque esse tal de Universo deve gostar de uma piada sem graça.

Rafael oliveira disse...

uau...fera esse texto. Realmente o tempo não perdoa ninguém!

Anônimo disse...

Nossa que bosta.

Abs
Pedro

Alex Gemeos disse...

Cara, que texto foda...
O mais engraçado é que estou terminando de ler Sandman e foi impossível não ler esse texto sem imaginar os Perpétuos ali conversando...

 

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