8 de abril de 2014

Repetição

Era uma terra onde todos eram iguais.  Comiam os mesmos pratos, usavam as mesmas roupas, defendiam as mesmas cores, falavam sobre os mesmos assuntos. Era uma terra onde todos eram iguais. Os penteados eram semelhantes, as tatuagens eram parecidas, os acessórios eram quase iguais e a maquiagem era repetitiva. Era uma terra onde todos eram iguais. As reclamações eram as mesmas, as ideias eram as mesmas, as opiniões eram as mesmas e os xingamentos eram os mesmos. Era uma terra onde todos eram iguais. Os mesmos filmes preferidos de sempre, o mesmo quadro que todos adoravam sem saber o motivo de sempre, as comidas preferidas eram as mesmas e os livros preferidos eram os mesmos. Era uma terra onde todos eram iguais. Usavam os mesmos argumentos, acusavam os mesmos adversários, repetiam as mesmas frases, lutavam pelas bandeiras dos outros. Era uma terra onde todos eram iguais.

Até que um homem decidiu se portar de outra maneira.

Usou roupas diferentes, defendeu outras cores, falou sobre novos assuntos. Mudou o cabelo, fez um tatuagem nova, usou acessórios diferentes e alterou sua maquiagem. Reclamou de temas inéditos, teve ideias inovadoras, opiniões sobre assuntos que ninguém havia opinado e acusou coisas novas. Escolheu outros filmes preferidos, adorou quadros novos, experimentou comidas e se arriscou em livros novos. Seus argumentos, xingamentos, frases abraçaram uma nova bandeira.

E todos viram que podiam se portar de outra maneira.

Passaram a comer o mesmo prato diferente, usar a mesma roupa nova, defender a cor do momento e falar sobre o mesmo novo assunto. Os cabelos se tornaram igualmente diferentes, as novas tatuagens se multiplicaram, os acessórios novos se repetiram, os xingamento diferentes viraram uma só voz. O filme quase inédito se tornou adorado, o quadro novo foi chamado de obrigatório, a comida diferente foi para todos os pratos e todos sabiam de cor o novo livro. Argumentos novos, xingamentos novos, frases novas passaram a se repetir. A nova bandeira virou a bandeira de todos.

E o homem diferente se perdeu no meio da multidão.

Era uma terra onde todos agora eram diferentes.

Era uma terra onde todos eram iguais.  

1 leitores:

Fernando Santos disse...

Uma bela crítica social, Rob. Muita gente deveria ler isto.

 

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