8 de abril de 2013

Por Trás Daquele Beijo



Ela sempre achou que um beijo era apenas isso: um beijo. Poderia ser longo e demorado, ou curto e roubado, mas não havia muita discussão: um beijo é apenas um beijo.

Isso até ela se tornar personagem de uma crônica qualquer, que se passava numa cidade qualquer, no fim da tarde de um dia qualquer. Chovia, mas não era uma chuva qualquer. Era uma tempestade daquelas de entrar para a história da cidade. Mas ela não estava preocupada com a história da cidade, estava preocupada com a história dela. Os gritos da briga – ali, no meio da rua, no meio da chuva – ainda ecoavam em sua cabeça. Tudo estava acabado. Todos os sonhos e planos para o futuro haviam se despedaçado e escorrido junto com a água da chuva para o lugar aonde os sonhos vão quando se tornam esquecidos. E agora ela estava ali, com frio, roupas encharcadas, e se sentindo como se a chuva que desabava sobre a cidade caía somente sobre ela. Por um lado, a chuva não deixaria ninguém ver as lágrimas que escorriam pelo seu rosto e que começaram a cair antes mesmo dela chegar ao metrô. Sua vontade era sentar-se na guia e chorar abertamente na chuva, mas estava tentando segurar a explosão de dor no seu peito até entrar em casa. Não teve chance. Virou-se quando foi agarrada pelo braço e, ao dar meia volta, deu de cara com ele. Seu rosto também estava molhado de lágrimas, de chuva, da briga. E de saudade. E de repente ele disse tudo o que ela precisava dizer. Ela não ouviu nada, talvez por causa do barulho da chuva, talvez porque ele disse tudo apenas com os olhos. E a tempestade dentro dela aumentou ainda mais quando as palavras “não vai embora” trovejaram suavemente em seus ouvidos. E foi quando ela explodiu. Não de dor, como temia; nem de amor, como imaginava. Explodiu dele. E, molhada, perdeu o ar respirando a ele. Molhada, deixou-se afogar nos braços dele. E sorriu ali, feito menina-que-percebe-de-repente-que-vai-ser-menina-para-sempre, no fim de tarde de um dia qualquer, no meio de uma cidade qualquer, que foi criada para ser cenário de uma crônica qualquer.

E enquanto as pessoas corriam para escapar da chuva, ela fechou os olhos e entendeu que um beijo é apenas um beijo quando ele não tem palavras chovendo em volta dele. E que a palavra “beijo”, na verdade, nem precisa estar presente. Basta apenas todas as outras serem corretas.

2 leitores:

Brunna Paese disse...

Ótimo texto, o qualquer nem sempre quer dizer mais um. Pode representar o que realmente importa. Se essa crônica era para ser uma qualquer, conseguiu ser uma qualquer que me fará voltar. =)

Tiago Farias disse...

só posso dizer: obrigado

 

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