24 de dezembro de 2012

Um Sonho de Natal


1.

Eu o conheci no meu primeiro dia na prisão.

Era meu companheiro de cela. Velho e baixo, com cabelo ralo e rosto marcado pelo tempo. Devia ter mais de setenta anos, talvez quase oitenta, mas ele mesmo não se lembrava de quantos anos tinha. Quando perguntavam como ele podia não saber a própria idade, respondia apenas que, depois de ser preso, havia parado de se preocupar com isso.

Havia sido preso por assassinato e, assim como eu, fora condenado à prisão perpétua. Estava na cadeia há mais de cinquenta anos, mas, diferente dos outros presos, parecia aceitar sua pena com tranquilidade, sem contar a todo instante e a quem quisesse ouvir como era inocente e fora vítima de um juiz carrasco ou de um advogado incompetente.

Pelo contrário, me dizia sempre que o melhor modo de encarar a cadeia era aceitando o fato de que passaria o resto da vida preso, sem criar grandes expectativas.

Esta falta de expectativas se refletia em seu comportamento. Era calmo e movia-se sempre devagar e silenciosamente. E, mais importante: estava sempre longe de confusões. Sempre que alguns gritos anunciavam uma briga entre detentos, ele se afastava discretamente e voltava para a cela.

Não era um preso modelo, mas estava longe de causar problemas. Ele apenas vivia na cadeia, sendo o mais discreto que conseguisse. Era como se os outros detentos estivessem presos – e eu me incluo nisso – mas ele era diferente. Ele apenas dormia e comia na cadeia.

Nos primeiros anos, conversávamos sobre tudo e nada ao mesmo tempo, sempre à noite, com a luz apagada. Ele me dizia pouco sobre sua vida, mas perguntava bastante sobre a minha. Queria saber como eu fora preso, o que eu fazia antes de parar numa cadeia, o que senti quando fui condenado, qual o meu prato preferido, se eu já havia amado alguém de verdade. Eu respondia. Primeiro, respondia para passar o tempo até o sono chegar. Com o tempo, vi que ele estava realmente interessado nas respostas.

Mas nunca perguntei a ele como fazia para não enlouquecer dentro da cadeia, apesar da minha curiosidade. Se existe algo que você aprende dentro de uma cadeia é não perguntar nada. A fórmula é simples: quando você pergunta, você se envolve. Quando você se envolve, você chama a atenção. E, quando você chama a atenção, as chances de morrer a qualquer minuto, vítima de um punhal nas costas no pátio ou de um estrangulamento no meio da madrugada, aumentam consideravelmente.

Assim, nunca toquei no assunto, apesar da minha curiosidade. Pois todos enlouqueciam lá dentro. Todos. Vi um sujeito mais durão que eu se esconder num canto escuro para chorar como uma criança. Testemunhei um garoto gentil, com metade do meu tamanho e ainda sem barba, estraçalhar outro preso com os próprios dentes numa briga. Até mesmo os guardas pareciam estar sempre a um passo de enlouquecer. E eu sabia que mais cedo ou mais tarde enlouqueceria também.

Todos enlouqueciam naquele lugar. Todos.

Menos ele.

Mas não precisei perguntar. Ele mesmo resolveu me contar por conta própria qual seu segredo. Era véspera de Natal e estávamos no refeitório, tomando café da manhã. Enquanto ele esperava seu café esfriar, me disse de forma distraída, quase casual:

- Este é meu último natal.

- Bobagem, respondi. Você está ótimo.

- Não. Um homem sabe quando a morte está chegando. Meus ossos não são mais fortes, e quando os ossos começam a fraquejar, é sinal de que a vida está acabando.

Fiquei em silêncio. Ele deu um gole no café antes de continuar.

- Você é um bom sujeito. Espero que consiga encontrar sua paz aqui dentro.

- Não existe paz aqui dentro, respondi dando um sorriso meio amargo.

- Existe. Basta saber procurá-la.

A sirene tocou anunciando que o café da manhã havia acabado. Andando pelo pátio, resolvi tocar no assunto.

- Como você faz para viver tão tranquilamente aqui dentro?

- Eu apenas não me meto em problemas, ele respondeu, olhando para o horizonte enquanto caminhava.

- Não. Não estou falando disso. Estou falando de ficar em paz com você mesmo.

Ele parou. Observou o nada por mais alguns instantes antes de me olhar nos olhos.

- Eu não estou mais aqui. Eu saí daqui faz tempo.

Sorri, mas fiquei em silêncio. Eu estava enganado. Ele também estava louco.


2.

Mais tarde, na cela, ele me chamou. Eu estava lendo um livro, aproveitando os últimos momentos da luz da tarde. Ele estava deitado em sua cama, em silêncio desde a hora do almoço. Tanto no Natal como no dia 24 de dezembro, os guardas permitiam que ficássemos em nossas celas, sem precisar ficar andando para lá e para cá.

- Você deve achar que eu sou louco.

- Não, menti.

- Sim, você acha. Eu vi isso nos seus olhos. Por isso nunca contei para ninguém.

Ele tossiu, antes de continuar.

- Sempre foi o meu segredo. Mas, agora, estou morrendo, e alguns segredos não devem partir comigo. E você é um bom homem.

Não respondi nada. Continuei fingindo ler meu livro.

Ficou em pé na cela e apontou para a janela.

- Eu estou lá fora. Eu não estou aqui dentro.

Novamente, fiquei em silêncio, mas por não saber o que falar. Achei melhor esperar ele continuar.

- Eu saio daqui todas as noites e passeio. Ando pelas ruas, visito os lugares da minha infância. Às vezes, passo em frente o prédio em que minha filha mora. Mas, em outras, gosto de apenas andar sem rumo, esperando que meus passos me levem até algum lugar que eu não conheço. Uma rua, uma avenida ou um parque que nunca visitei.

Dei uma risada.

- E o que você faz para sair e entrar da prisão todas as noites? Mata um guarda? Ou você cavou um túnel e entra e sai por ele?

Ainda olhando pela janela com grades, ele pareceu responder mais para si próprio que para mim.

- Eu durmo. Durmo e sonho.

Desta vez não aguentei e larguei o livro.

- Então você não sai daqui. Você apenas sonha que está lá fora.

- Não. Eu realmente saio. Eu posso provar.

Sentei na cama, fazendo o livro cair no chão.

- Como?

- Está vendo aquela pedra lá fora? Perto daquele poste?

Olhei pela janela e vi o poste. Ficava ao lado do tapume de um prédio em construção, do outro lado da rua. Às vezes, eu passava o tempo observando os pedreiros trabalhando e os invejando em silêncio. Abaixo do poste, uma pedra clara, provavelmente um pedaço de calcário que caiu da construção. Fiz que sim com a cabeça.

- Eu posso trazer aquela pedra para você na próxima vez que sair. Será o meu presente de natal para você.

Olhei para o velho. As linhas do seu rosto estavam bem mais acentuadas desde o que dia em que o conheci, mas ele parecia falar sério.

- Certo, respondi, voltando para a cama e para o livro.

Não falei mais com ele naquele dia.


3.

No dia seguinte, acordei e ele não tocou no assunto. Na verdade, mal falou comigo até a hora do café. Foi somente na mesa, enquanto mastigava um pão duro, que ele segurou meu braço com a mão.

- Gostou do presente?

- Não. Na verdade, eu não vi nada de diferente na cela. Você deve ter sonhado com outra coisa.

- Está embaixo da sua cama. Eu deixei ali para os guardas não verem. Se eles confiscam até revistas aqui dentro, imagine uma pedra.

Terminei meu café apressado e voltei para a cela. Depois de me certificar de que nenhum guarda estava me olhando, ajoelhei no chão e espiei por baixo da cama.

Lá estava a pedra. Branca, um pouco maior do que eu havia imaginado na véspera, ao vê-la pela janela. Mas definitivamente era a mesma pedra. Sabendo que não veria nada ao lado do poste, fui até a janela assim mesmo e ela não estava mais lá.

O velho entrou na cela.

- Como você fez isso?

- Eu lhe disse. Eu saio daqui todas as noites.

- Isto é impossível.

- A pedra está na sua mão. Ela mostra que é possível.

- Qual o truque?

- Não há truque. Eu não estou na prisão. Eu estou andando pelo mundo. Faço isso todas as noites. Durante o dia, eu durmo e sonho que estou numa prisão. É um preço baixo a se pagar, ainda mais se comparado aos lugares que eu conheci, às pessoas com quem conversei, aos vinhos que bebi e às mulheres que amei em todos esses anos. Você há de concordar comigo que sonhar com uma prisão é melhor do que estar de fato dentro dela.

Sentei na cama e pensei por um tempo no que ele havia falado.

- Mas nós estamos na prisão.

- Talvez você esteja. Eu não estou.

- Então você está apenas sonhando comigo? Isso é impossível. Eu existo. Eu não sou um personagem de sonho.

- Sim. Eu sei disso. Mas, a partir do momento que eu escolho acreditar que estar aqui é um sonho, e aquilo que eu sonho todas as noites é a realidade... É assim que funciona.

- Impossível.

Ele ficou em silêncio por alguns segundos.

- Eu poderia trazer outra coisa para você hoje. Uma foto da sua família. Um doce. Qualquer outra coisa. Não iria provar nada. Seriam apenas outras pedras. Você acharia que outro truque.

- Sim. Como eu ainda acho.

Foi quando ele se abaixou na minha frente, com dificuldade, e me olhou nos olhos. Minha sensação era de que ele olhava dentro de mim.

- O mundo inteiro está em você. Os sonhos que você vive quando dorme são seus. Eles são feitos das suas memórias e dos seus amores, são costurados com suas loucuras e com seus desejos. Eles são seus, e é você quem pode determinar se eles são reais ou não. Eu escolhi que os meus são reais, e desde então, isso funciona para mim. E pode funcionar para você.

- Mas apenas acreditar que eles são reais é uma coisa. Acreditar e conseguir trazer uma pedra para dentro da prisão é outra.

- Eu não sei explicar. Não sei como funciona. Sei apenas que funciona, e isso basta para mim. Foi assim que eu sobrevivi aqui dentro. Comecei a dar valor para os meus sonhos, até que eles se tornaram a minha realidade. O tempo que eu passo na prisão são apenas intervalos que eu preciso viver até voltar para o mundo lá fora.

- Mas isso é impossível

- Será? Quantas pessoas você conhece que escolheram encarar os seus sonhos como realidade?

- Nenhuma.

- Sim. Para todas as pessoas, os sonhos são apenas isso: sonhos. Nunca ninguém teve a coragem de acreditar que os sonhos acontecem de verdade. Nem você. Então, como você ter certeza de que isso não funciona?

Ele sorriu e vi que ele quase não tinha mais dentes na boca. Pela primeira vez, percebi que ele deveria estar com quase noventa anos. E também percebi que ele tinha razão: ele estava morrendo. Afastei esta ideia da cabeça.

- Eu não sei como acreditar em algo assim.

- Este é exatamente o segredo. Saiba que seus sonhos são reais. Não tente acreditar, apenas saiba que eles são reais. No momento em que você conseguir isso, estará fora daqui todas as noites. E o mundo inteiro será seu.


4.

À noite, antes de dormir, fiquei pensando sobre tudo o que velho havia me falado. Acabei pegando no sono e, no dia seguinte, acordei sem me lembrar do que havia sonhado, com guardas conversando agitados ao lado da minha cela.

Antes que eu despertasse totalmente, um médico entrou na cela e examinou o velho, que ainda estava em sua cama. Havia morrido em paz durante a madrugada. Seu coração havia simplesmente parado.

Depois que ele foi carregado para fora da cela, tudo se acabou. Na cadeia, os corpos não são velados. Não há despedidas ou cerimônias. A pessoa morre e seu corpo é levado embora, para dar lugar a outro preso.

Mas, mesmo assim, fiquei feliz por ele. Agora, de uma forma ou de outra, ele estava livre. De verdade.


5.

Fiquei sozinho na cela por algumas semanas, até que outro preso chegasse para ser meu novo companheiro. Passava a maior parte do tempo passeando sozinho pelo pátio ou lendo, evitando maiores contatos com os outros presos e tentando não pensar na solidão. Nunca tive problemas em ficar sozinho, mas confesso que sentia falta do meu antigo companheiro.

Contudo, uma noite ele apareceu na minha cela. Eu estava dormindo e ele sentou-se ao lado da minha cama, me chamando baixinho. A luz da Lua dava uma aparência fantasmagórica ao seu rosto.

- O que você ainda está fazendo aqui? Por que não está passeando lá fora?

- Você está morto. E eu estou sonhando.

- Sim. As duas frases são verdade. Eu morri e você está sonhando. Mas eu precisei vir lhe ajudar a sair daqui.

- Eu estou sonhando.

- Sim. E é hora de aproveitar isso.

Não vi seu braço se movendo, mas senti a ponta do seu dedo tocando minha testa.

E, subitamente, estávamos na rua. Estávamos ao lado do muro da prisão, em pé, com roupas normais. As pessoas passavam pela calçada apressadas, desviando casualmente de nós, como desviariam de qualquer outra pessoa que estivesse em seu caminho.

Mas não dei muita atenção às outras pessoas, mas sim ao modo como eu me sentia. A sensação que tinha era que eu realmente pertencia àquele mundo, como se eu tivesse acabado de despertar de um sonho. Um sonho no qual eu estava dentro de uma cadeia.

E de repente, estávamos num parque.

- Sim, aqui é o seu lugar, o velho disse, como se adivinhasse o que eu estava pensando.

- Como você fez isso?

O parque sumiu e deu lugar a uma praia.

- Eu já disse. Eu não sei como eu faço, eu apenas faço. E agora é hora de você começar a fazer.

- Eu não sei como...

A praia desapareceu, dando lugar a uma rua movimentada. Algo me dizia que estávamos em Paris.

Ele sorriu e disse meu nome. Fiquei em silêncio.

- Apenas faça.

E saiu andando. Chegou ao final do quarteirão, virou-se para mim e sorriu acenando com o braço, antes de entrar em um pequeno café. Corri até o local, mas estava vazio, a não ser por uma balconista gorda e de meia-idade, que sorriu e me cumprimentou em francês.

Foi a última vez que vi o velho.

Depois de horas andando por Paris, acordei novamente na minha cela. Tomei café sozinho e passei o resto do dia em silêncio, esperando a hora de dormir. E, quando as luzes se apagaram, fechei os olhos e pouco tempo depois eu estava em alto mar, num navio. Havia uma festa ao meu redor, e as pessoas sorriam e me ofereciam bebidas. Passei a noite no convés, conversando com uma cantora de ópera e seu marido, antes do Sol nascer e eu voltar para a minha cela.

E depois disso, nunca mais passei outra noite dentro da cela.


6.

Eu já devia ter passado quase trinta anos na cadeia quando um menino de vinte e poucos anos foi preso e passou a dividir a cela comigo. Ele usa um cabelo diferente, de uma forma que eu nunca vi antes, e fala comigo usando expressões que eu demorei a me acostumar.

Mas nos damos bem. É um bom menino. Um pouco impulsivo, mas em certa idade todos nós somos impulsivos. E eu já o ouvi perguntando aos outros presos qual o meu segredo, ou o que eu faço para aguentar a prisão com tanta tranquilidade.

Qualquer dia, quem sabe, eu conte a ele o meu segredo. Talvez eu conte o meu segredo e mostre a ele aquela antiga pedra, que ainda está escondida num canto da minha cela, atrás do vaso.

E explique a ele como aquela pedra se tornou o presente de natal mais importante que eu ganhei em toda a minha vida. 


(Dedicado a Stephen e Neil.)

6 leitores:

Guilherme Fabro disse...

Porra Rob, mais um baita texto, muitooo bom mesmo.

Nem sei mais como elogiar teus textos, dessa vez vou dizer que com toda certeza Stephen e Neil ficariam orgulhosos com a dedicatória.

Abraço.

Serbão disse...

vc tem razao em se orgulhar dele. é teu melhor conto. parabens.

Richard Plácido disse...

Um belo conto, Rob! Já escrevi sobre o sonho, essa doce ilusão que nos faz tirar da nossa realidade.

Gostei da dedicatória íntima aos grandes mestres.

Alan (FFC) disse...

Eu curto escrever nesse estilo, é claro que, os meus não tem a qualidade dos seus e isso não importa, o que eu quero dizer é que eu gostei muito... É um texto muito bonito e merece meus elogios sinceros.

Alexandre Quegi disse...

Muito bom mesmo, um dos melhores textos que já li por aqui, apesar de que compará-los é uma estupidez. Nem sempre tenho como dar uma paradinha para comentar, mas sempre corro aqui quando vejo uma novidade pelo feed, e agradeço por essa pequena dose literária que você nos traz!

Francine Ribeiro disse...

Muitíssimo bom!!
Só posso dizer parabéns!!

 

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