17 de janeiro de 2013

Jason: Ano Um


- Alô?

- Por favor, a senhora Vorhees?

- Sou eu. Quem está falando?

- Aqui é Tom, diretor da escola onde Jason estuda.

- Meu Deus! Aconteceu algo com o meu bebê?

- Bem... Hoje nós fizemos a festinha junina aqui com os alunos da pré-escola, e ocorreram alguns incidentes.

- O Jason está bem?

- Bem... Não podemos responder ainda. Eu estou ligando para a senhora para saber se o Jason trouxe uma fronha para a escola hoje.

- Uma o quê?

- Fronha.

- Não sei. Acho que sim, porque ontem mesmo ele estava brincando com uma fronha velha aqui na sala. Mas o que aconteceu?

- Bem, um dos alunos está aterrorizando as outras crianças, e ele está usando uma fronha na cabeça. Nós acreditamos que seja o Jason.

- Mas como assim, aterrorizando?

- Os primeiros incidentes começaram durante a dança das quadrilhas. Um dos estudantes, um japonesinho, desapareceu no meio da dança. E algumas crianças juraram ter visto um garoto escondido no armário e usando uma fronha na cabeça. Horas depois, nos achamos o japonesinho.

- Bom, ainda bem. E ele estava bem?

- Mais ou menos. Ele disse que um aluno usando uma fronha na cabeça havia tentado matá-lo com uma espada.

- Uma espada?

- Sim. Mas, felizmente, como a espada é de brinquedo, feita de plástico, o garoto está bem. Ele só ficou um pouco tonto, pois o garoto que o atacou bateu com a espada em sua cabeça.

- Bem, menos mal.

- Sim. Mas os incidentes não pararam por aí. Duas outras crianças foram atacadas ao lado do bebedouro. Elas dizem que um garoto com um pano branco na cabeça apareceu do nada e tentou golpeá-las com um gancho de plástico.

- Um gancho?

- Sim, as plantas das paredes do corredor ficam penduradas em ganchos. Graças a Deus trocamos todos os ganchos de metal por ganchos de plástico algumas semanas atrás. Então, elas apenas se arranharam um pouco.

- Bem, mas ninguém garante que este garoto que esteja atacando as outras crianças seja o meu Jason.

- Minha senhora, desculpe a franqueza, mas o seu filho tem um histórico de atacar e assustar as outras pessoas, como naquela vez em que ele se escondeu dentro do armário da cantina e quase matou a copeira de susto.

- Mas ele estava apenas brincando de se esconder!

- Ele tinha nas mãos um facão de papelão que fez na aula de Artes. E assim que a funcionária abriu o armário, ele enfiou o facão no peito dela. Claro que não aconteceu nada, mas imagine o susto que a moça levou.

- Bom, ele não faz por mal. Ele está apenas brincando.

- Brincando? Minha senhora, as outras crianças não conseguem ficar em paz com o Jason na sala de aula. Todos os dias eu ouço queixas de que seu filho aparece do nada atrás dos meninos. E, quando eles percebem sua presença, ele os ataca.

- Mas...

- Já são várias ocorrências. Atacou uma menina dando uma coronhada com uma espada de plástico, enfiou facas de brinquedo na cabeça de outra criança... A lista não acaba nunca. Ele chegou até mesmo a tentar estrangular a professora com as próprias mãos.

- Ele nunca me disse isso.

- Aposto que ele também nunca comentou com a senhora o dia em que eu o surpreendi na minha sala. Entrei aqui e ele estava embaixo da mesa. Quando fui pegar café, ele apareceu atrás de mim com um cano montado com peças de Lego. Felizmente, quando ele me atingiu o cano se partiu e eu pude levá-lo de volta para a sala.

- Vocês certamente estão exagerando. Meu Jason é apenas brincalhão, mas ele é um doce.

- Bem, os outros alunos não pensam isso. Ele já foi encaminhado para a nossa psicóloga três vezes, e em todas elas, não aconteceu nada. Ele não fala nada. Na verdade, ele não fala com ninguém. Nem com os professores, nem com os outros garotos, com ninguém. E acredito que... Só um minuto, minha senhora. Um dos professores está aqui.

- Tudo bem.

- Como? Não... Não, tire isso das mãos dele! Não me importa de que jeito!... Como assim? Ele o quê?... Mas... Certo. Tire isso das mãos dele. E chame os outros pais, vamos cancelar as aulas. Alô? Senhora Vorhees.

- Oi. O que aconteceu?

- Aparentemente, o Jason descobriu no armário de brinquedos temos um conjunto que imita a vida dos pioneiros. Tem chapéu, botas, uma espingarda velha e um machado de plástico. E agora o Jason está vagando pela escola, com aquela fronha na cabeça e o machado nas mãos. As crianças estão apavoradas.

- Mas se vocês falarem com ele...

- Um dos alunos o golpeou na cabeça com um caminhão de plástico, e seu filho caiu no chão do corredor desmaiado.

- O quê? Eu vou até aí!

- Não precisa se preocupar. Dois minutos depois, o corredor estava vazio.

- Vazio?

- Sim. O Jason havia sumido. As outras crianças estão gritando aqui na porta que seu filho é indestrutível.

- Imagine, O Jasonzinho  é só um bebê. Ele é quieto demais, mas, certamente se assustou com tudo isso e foi se esconder.

- Os professores acharam o garoto que golpeou seu filho com o caminhão. Aparentemente, Jason disparou diversas flechas de brinquedo no garoto, e uma delas acertou seu olho. Está inchado, mas ele vai ficar bem.

- Sim, mas meu filho...

- Seu filho está bem, minha senhora. É justamente este o problema. Ele está vagando pela escola com um machado de plástico e uma fronha na cabeça, infernizando as outras crianças. Eu preciso que a senhora venha até aqui, para nos ajudar a localizá-lo e assinar a rescisão do contrato estudantil.

- Rescisão?

- Sim. Sinto dizer, mas o Jason não é mais bem vindo nesta escola.

- Mas...

- Por favor, senhora Vorhees. Preciso que a senhora venha o mais rápido possível para a escola.

- Bem... Certo. Vou me arrumar e estarei aí em minutos.

- Obrigado.

Enquanto se preparava para sair de casa, Pamela Vorhees resmungou um palavrão. Não era de hoje que vinha reparando nas brincadeiras estranhas do filho, que costumava ficar escondido atrás do sofá para assustar as visitas. Mas ele não era um menino ruim. Tudo o que precisava era de um ambiente mais tranquilo.

E antes mesmo de entrar no carro, já havia decidido aceitar o emprego de cozinheira naquele acampamento. Como era o nome mesmo? Crystal Lake, Crystal Pool... Algo assim. O salário era bom, e ela gostava do campo.

E o ambiente certamente iria fazer bem ao seu filho Jason – que, naquele momento, estava escondido dentro do armário do diretor da escola, com um novo facão de papelão prateado. Desta vez, havia enrolado silver tape na parte que simulava a lâmina, deixando o brinquedo com a aparência de uma lâmina de verdade e muito mais resistente. Agora, demoraria muito até que sua arma ficasse amassada.

Com sua fronha na cabeça, o garoto estava determinado: assim que o diretor da escola abrisse o armário, ele aproveitaria o susto que o homem tomaria e o golpearia no joelho. Queria golpeá-lo mesmo no pescoço, mas como tinha pouco mais de 1.20m de altura, o joelho teria que bastar.

Um dia ele cresceria o suficiente para cortar as pessoas nos lugares certos.

Ali dentro do armário, sabia: bastava esperar.

2 leitores:

Maurílio Resende disse...

Quando a gente está na escola conhece um bocado de crianças sinistras, que fazem muito professor cogitar suicídio antes mesmo da demissão.

Mas com certeza essa história mostra uma criança que está além, e nasceu com a capacidade de escrotizar cravada na alma!

Parabéns pelo texto, mais um foda e inesperado. : )

Pri disse...

Incrível vc Rob, simples assim.

 

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