30 de outubro de 2012

O Ladrão de Felicidade


Tem um emprego difícil, o Ladrão de Felicidade.

Diferente das outras pessoas, ele só acorda quando o Sol se põe. Passa o dia dormindo em sua toca, que algumas pessoas dizem que fica embaixo da terra – apesar de que ninguém nunca viu uma toca dessas – e abre os olhos quando a noite cai. Faz seu chá de água suja, come biscoitos com gosto de nada e só depois disso vai para as ruas.

E trabalha a noite inteira.

Algumas pessoas dizem que ele tem medo da luz. Mas, se o Ladrão de Felicidade pudesse falar com elas, diria que não é nada disso. Ele gosta da noite apenas é mais fácil roubar a felicidade das pessoas quando elas estão dormindo. E é por isso que ele só usa roupas pretas: sua calça com duas pernas e o buraco para a cauda é negra; sua camisa surrada e gasta, com espaço para quatro braços, também é toda preta.

É com essa roupa que ele escala paredes e árvores, entrando nos quartos dos desavisados ou daqueles que se distraíram e dormiram com a janela aberta. E, caminhando silenciosamente pelo quarto, para ao lado da pessoa e toca a ponta dos seus dedos, que são meio esverdeados, na cabeça das pessoas, em busca de memórias felizes.

E fica ali, concentrado e com sua respiração abafada, se concentrando para vasculhar as memórias da vítima e roubar aquelas que ele acha particularmente saborosas. O primeiro beijo, o gol marcado no campeonato da escola, o abraço do avô. O Ladrão de Felicidade adora tudo isso. Fica com água na boca e faz uns barulhos estranhos, como se estivesse chupando os próprios dentes.

Mas ele é apaixonado mesmo por momentos doces. Quando encontra um punhado de memórias doces, seus olhos, verdes feito lodo, chegam a brilhar. Às vezes, ele precisa se esforçar para não devorá-las ali mesmo, ao invés de guardá-las no saco de pano remendado que carrega consigo e leva-las de volta para sua toca.

Mas o grande segredo do Ladrão de Felicidade é que, quando as pessoas acordam, nem desconfiam do que aconteceu. Não fazem ideia de que, alguns minutos antes, o Ladrão de Felicidade estava ali ao seu lado, percorrendo seus momentos mais felizes, jogando os menores para o lado e roubando aqueles que sabia serem os mais gostosos.

As vítimas do Ladrão de Felicidade apenas acordam se sentindo desanimadas, com a estranha sensação de que alguma coisa está faltando em suas vidas, mas sem saber direito o que poderia ser.

E passam o dia todo assim, meio tristes-sem-estar-triste-com-nada, até a hora de dormir.

Mas também demoram a ser visitadas pelo Ladrão de Felicidade, pois ele sabe que não pode roubar a mesma casa seguidamente. É preciso dar um tempo para a pessoa voltar a ser feliz. Mas isso não atrapalha o Ladrão de Felicidade, pois o que não faltam no mundo são casas para ele invadir, e memórias felizes para roubar.

E, ao nascer do Sol, ele volta para sua toca. E, com suas unhas sujas de terra, avalia o espólio da noite. Devora lembranças, arranca nacos de memórias, tira restos de recordações dos dentes. Bebe litros e litros de água dos pântanos e vai dormir.

Mas o Ladrão de Felicidade não é ruim. Ele não faz nada disso por mal.

Ele apenas rouba a memória das pessoas para que elas não se sintam felizes o tempo todo. Isso faria com que parassem de lutar por uma vida melhor. Assim, elas estão sempre sujeitas a se sentirem tristes um dia, para poderem dar ainda mais valor para a alegria que sentirão no dia seguinte – até, claro, o Ladrão de Felicidade as visitar novamente.

Mas claro que existem aquelas que, depois de serem roubadas, afundam na tristeza. Não conseguem mais arranjar ânimo em lugar algum e decidem que serão tristes e amargos durante a vida inteira.

Você deve ter visto algumas pessoas assim: são aquelas que andam feito zumbis, colocando defeito em tudo, criticando tudo o que acontece com elas. Torcem para que a felicidade dos amigos acabe de uma vez por todas, invejam tudo o que não é delas e sempre acham que nada vai dar certo. E sempre acham que o mundo é injusto, porque elas merecem mais que os outros.

Essas pessoas, o Ladrão de Felicidade não visita nunca mais. Mas não deixa de prestar atenção nelas. Pois sabe que, com o passar dos anos, serão elas que irão substituí-lo. Serão elas que andarão sozinhas pelo escuro, roubando a felicidade dos outros e passando horas se empanturrando de memórias felizes, antes de dormir.

E ele sabe que é questão de tempo.

Ou você achava mesmo que os Ladrões de Felicidade surgiam do nada?

5 leitores:

Marcel disse...

Óitmo texto. Mas há pessoas que guardam seus momentos e sua felicidade com tanto amor e carinho, tão bem guardados nas profundezas do coração que o Ladrão de Felicidade dá com cara na porta. Excelente argumento pra um livro infantil, quem sabe.

Varotto disse...

My precious...

Idéia (e execução) fantástica! Isso daria um belo curta metragem.

Marina disse...

Medo de virar um. Às vezes, aquele mau humor matinal não tem mesmo hora para acabar.

Ótimo texto, Rob

Guilherme Fabro disse...

Que ladão FDP!

Que leve eu dinheiro mas não mexa nos meus momentos de felicidade!!!

Penso como o Marcel, alguns momentos nem o Ladrão de Felicidades é capaz de apagar da memoria, felizmente.

Baita texto Rob.

Lu disse...

lindo texto. tocou alguma coisa aqui, sem mais.

 

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