27 de agosto de 2012

Platônica


Foram três meses de paz.

Três meses sem ver seu sorriso que nem sabe que existo. Três meses sem sentir vontade de você querer falar comigo, três meses sem morrer de medo de você decidir falar comigo. Três meses sem passar as primeiras aulas me perguntando se eu veria você, três meses sem passar as últimas duas aulas querendo ver você.

Três meses sem meu coração bater acelerado quando você passa perto de mim; três meses sem subir correndo as escadas nas terças-feiras e me sentar na janela só porque era o dia que você jogava futebol na educação física; três meses sem torcer em silêncio quando você estava com a bola.

Três meses sem tremer ao passar em frente sua sala; três meses sem me perguntar se você prefere meu cabelo solto ou preso, fazendo de conta que você sabe como é o meu cabelo; três meses sem rabiscar seu nome no ar, com a ponta do dedo; três meses sem imaginar como seria passear de mãos dadas na frente de todo mundo.

Três meses fingindo que mal olho para você no pátio; três meses sem procurar você no meio da escola, fazendo meus olhos saltarem das meninas que brincam ao garoto que está sempre fazendo lição no pátio e às vezes me olha, dos garotos da minha sala que vão para a quadra aos professores que tomam café.

Foram três meses sem você.

Foram três meses de paz.

Mas hoje, logo no primeiro dia de aula, eu dei de cara com você.

Você estava com seus amigos e o cabelo mais curto. E eu descobri que prefiro assim, porque posso ver sua nuca. Você estava encostado no pilar daquele jeito que só você sabe, com os cadernos no chão, e o tênis que fica lindo porque você usa desamarrado. Você não me viu, mas eu enxerguei você inteiro.

E, quando você sorriu por causa de algo que falaram, tudo voltou de uma vez só, feito turbilhão. E a minha paz, que era uma paz de mentira, acabou. Desta vez, para sempre.

E eu sorri e dei graças a Deus.

3 leitores:

Elise Garcia disse...

Eu acabei de voltar aos meus 14 anos, quando eu gostava de um cabeludinho que nem sabia que eu existia e que depois das férias de julho cortou o cabelo que eu tanto adorava.

Sério, esse texto poderia ter sido escrito pela Elise que eu era há 13 anos.

Se isto é estar fora de forma, francamente, não quero estar perto quando vc estiver plenamente em forma... ;)

Varotto disse...

Platonismo amoroso fora de sincronia.

Cruel.

Antônio LaCarne disse...

lindo o teu texto. :)

 

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