16 de julho de 2011

#24Horas24Crônicas #10 - Era uma Vez

(tema sugerido por: @isabelveronica)

Era uma vez o Começo de Texto que vivia sozinho, sem nenhuma outra frase para lhe fazer companhia. Mal sabia ela que Começos de textos eram assim mesmo, pequenos e solitários, antes que novas ideias apareçam. E passava a maior parte do tempo sozinho, perdido entre pensamentos.

Caminhava entre parágrafos.

E brincava de inventar palavras e frases, mas sempre com a sensação de que algo faltava em sua vida, como se entre uma palavra e outra existissem mais espaços do que o normal. Às vezes, arriscava-se até mesmo a protagonizar alguns diálogos, fingindo ter com quem conversar.

- Por exemplo, aqui, nesta frase em que estou falando. Viram o travessão?

Mas nunca recebia uma resposta em retorno, nem em diálogos nem na forma narrativa, então continuava sozinho. E achou que iria continuar sozinho até acordar um dia e perceber que havia algo de diferente. Primeiro, achou que fosse com seu alinhamento.

Se virou para cá.

Se dobrou para cá.

Ficou em pé no meio.

Não, o alinhamento estava em ordem. Foi quando passou na frente do espelho e percebeu que estava, sim, diferente. Estava um pouco mais encorpado, mais robusto. Sentia como se os leitores já estivessem um pouco mais afeiçoados a ele. Estava no caminho certo para ganhar a simpatia deles, e com sorte uns dois ou três já teriam se identificado com seus sentimentos. Não havia mais como esconder.

Ele já era um Meio de Texto.

E, como meio de texto, as coisas eram um pouco mais diferentes. Tinha mais liberdade de agir, pois estava um pouco mais seguro de si próprio. Claro que algumas regras ainda precisavam ser respeitadas. Números precisavam ser escrito por extenso, não importando se você os escrevia duas, três ou dez vezes. E as regras de pontuação, por sua vez, precisavam ser obedecidas, sempre com afinco e dedicação.

Continuava caminhando entre os parágrafos.

Mas se arriscava um pouco mais. Às vezes, experimentava frases um pouco mais longas, tentando expressar mais de uma ideia, ou apenas para reforçar as dúvidas sobre o que sentia. Mas variava. Frases curtas. Estas também surgiram. E dava ênfase ao seu estado de espírito.

Contudo, continuava solitário. Continuava desejando a companhia de alguém, de alguma outra ideia, de algum outro texto, mesmo que fosse uma simples redação infantil. E não conseguia esconder isso. Na verdade, nem se importava em esconder, tanto que ainda não havia perdido o hábito de falar sozinho, mesmo após ter aprendido a usar truques como parênteses (mas desconfiava que gostava de falar sozinho devido ao seu autor gostar de escrever diálogos):

- É por isso que estou falando mais uma vez.

E, sozinho, foi dormir uma noite, para acordar no dia seguinte, sabendo que sempre soube que saberia conjugar os verbos em diversos tempos verbais. Também conhecia novas formas de pontuação. Jura? Claro! Olhe estes pontos diferentes: símbolos de pausa, pausa maior; e diversos outros. Isso sem falar no itálico e no negrito.

Não havia mais jeito. Agora, ele era um texto completo. Há muito deixara de ser um pequeno Começo, e também não era mais um Meio de Texto, aquela fase da vida em que tudo pode acontecer, e as ideias podem mudar de caminho. Agora, ele era definitivamente um Final de Texto.

E gostou de ser Final. Pois, mesmo sozinho, sentia-se completo. Na verdade, não era apenas um Final. Mas só poderia dizer o que era realmente na última linha, para causar impacto.

Afinal, era um Final Feliz.

9 leitores:

IsabelVeronica disse...

Porra! Adorei! É muito legal ler uma crônica de um tema que a gente sugeriu.

Agora, como você ainda tá conseguindo concatenar as ideias?

Sil disse...

Muito bom. O sono deve ajudar na criatividade.

Varotto disse...

Arroubos metalinguísticos.

Uma de suas especialidades...

Lilian disse...

Assino embaixo do que o Varotto disse. Vc faz isso muito bem!

Natalia Máximo disse...

Ooown, que fofo! Porque todo texto merece um final feliz (até o da Faca Ao Sol. Foi feliz pro escritor e pro personagem que, apesar de psicopata, se livrou da chata! Sim, eu realmente amei esse texto!)

Brunín Assis disse...

Depois de 10 horas, uma madrugada inteira e 10 crônicas ainda sai algo tão bom e metalinguístico como esse texto? Foda define.

Patricia Koga disse...

Adoro Era uma vez com Final feliz!

Wi disse...

Muito bom!
Impressionante como vc levou o tema pra um sentido completamente diferente do que eu esperava!

Mari Hauer disse...

Ai, eu posso dizer que achei fofo? hahaha... Brincadeira, achei o texto leve e delicioso. Estou com o Varotto nessa: metalinguistica é uma das suas especialidades!

 

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