13 de abril de 2011

O Monstro

Era noite na pequena aldeia.

Pelas ruas de pedras que cortavam o local, o Monstro corria. Suas vestes, trapos costurados de qualquer maneira, balançavam a cada metro que seu corpo disforme e pesado percorria. Corria em silêncio, sentindo o coração disparar de medo e cansaço, ouvindo sua respiração cada vez mais ofegante.

Metros atrás dele, a Multidão enfurecida trotava em seu encalço. Dezenas de pessoas, de todas as idades e profissões, empunhando tochas e forcados, ancinhos e enxadas. Gritavam juras de ódio, gritavam por sangue, por morte e, principalmente, por justiça.

Desviando-se de cães que latiam e de árvores e moitas que o prendiam na aldeia, o Monstro corria, insistindo em viver. Procurava refúgio, ou algum abrigo no qual pudesse passar a noite em paz, em silêncio, acompanhado de si próprio e mais ninguém.

Mas, na ânsia de sobreviver, fez um movimento errado. Estava num pedaço da pequena aldeia que conhecia pouco, e arriscou a sorte, entrando em um beco estreito, esperando refugiar-se na escuridão. Contudo, o beco logo terminava em um muro. Não havia como saltar, se esconder. E não havia mais tempo para retornar.

Estava encurralado.

E foram estas as palavras que passaram pela sua mente quando o brilho das tochas iluminou o beco, revelando por trás todas as pessoas que juraram matá-lo. Por trás dos gritos de ódio que ele mal compreendia, veio a primeira pedra, que o acertou no ombro. Desequilibrado, precisou se esforçar para não cair. Caso fosse ao chão, tudo estaria acabado.

A multidão, temerosa do tamanho da criatura, aproximava-se com cautela, mas ainda decidida. O perfume de medo e ódio inundou o beco, mesclando-se aos urros raivosos da turba. O Monstro já podia ver a luz das tochas brilhando no metal das armas improvisadas. Em instantes, estaria morto.

– PAREM!

Não sabe ao certo como arranjou forças para gritar. Talvez fosse o medo. Mas a multidão vacilou por uma fração de segundos e ele continuou.

– Eu exijo falar. Depois, se ainda o desejarem, podem me matar!

Os gritos cessaram.

– Por que vocês desejam me destruir?

– Porque você é um monstro, gritou a Multidão.

– Não. Eu sou uma pessoa como vocês, respondeu a criatura.

– Você trouxe o terror para nós e destruiu nossa aldeia, emendou a Multidão.

– Eu não fiz nada de errado. Apenas queria ser deixado em paz e nunca incomodei ninguém, replicou o Monstro.

A Multidão avançou mais alguns passos, de forma ameaçadora.

– Olhe a sua aparência! Alguém com esse rosto jamais pensaria em paz, bradou.

O Monstro não entendia como eles não podiam enxergar a verdade. Olhou para baixo e viu seu reflexo em uma pequena poça de água aos seus pés. Não era um Monstro, era uma pessoa normal, exatamente igual àquelas que formavam a Multidão enfurecida.

– Mas eu não entendo, eu não sou diferente de vocês...

Foi interrompido por outra pedra que partiu do nada e o acertou na testa. Sem forças, sem equilíbrio, sem vontade de lutar, caiu de joelhos sobre a poça.

A Multidão avançou.

– Eu sou uma pessoa como vocês! Eu erro e acerto, mas sou uma pessoa exatamente como vocês! Como vocês não vêem isso?

Seus gritos foram abafados pela Multidão, que pulou em cima de seu corpo, com paus e pedras, desferindo socos e chutes.

Em minutos, estava acabado.

O Monstro estava deitado no chão, morto. Seu rosto estava desfigurado e roxo devido aos golpes. Seu corpo era coberto de sangue. Seus braços, quebrados em várias partes, assumiam posições sobrenaturais, enquanto suas pernas, também destruídas, permaneciam numa estranha pose, como se a criatura fosse se levantar novamente.

– Nunca matamos um Monstro tão horrendo, bradou a Multidão, antes de virar a esquina em busca de um novo vilão.

Pois, deformado e morto naquele beco escuro, era sim um Monstro de verdade. Finalmente, sua aparência serviria para assustar as crianças em histórias contadas ao pé da fogueira.

E o conto foi narrado, passando através das gerações. Pais contavam aos filhos, que contavam aos filhos, que contavam aos filhos. A cada versão, o Monstro se tornava maior, mais ameaçador, muito mais feroz.

Mas nunca foi falado que o Monstro na verdade era um homem comum. As crianças nunca ficaram sabendo que a criatura que correu para dentro daquele beco era uma pessoa como outra qualquer, sem nunca ter feito mal a alguém. Tampouco se falava que sua aparência se tornou monstruosa deste jeito somente devido aos inúmeros golpes que recebeu, sem reagir.

Mas não fazia diferença.

Afinal, era apenas uma história. E nenhuma história sobreviveria tanto tempo sem um Monstro.

7 leitores:

Francine Ribeiro disse...

Muito bacana a história. Triste, mas é assim. As histórias sempre precisam de um mostro.

Anônimo disse...

A cada dia fica mais difícil diferenciar o monstro da vítima, não é mesmo?

Acho que estamos cansados de tantos montros que atacamos antes de perguntar.

Seu texto descreve bem os atuais acontecimentos.

ótimo Seu Rob!! Pra variar.

Tyler Bazz disse...

"E nenhuma história sobreviveria tanto tempo sem um Monstro."

Nenhuma história sobrevive também quando não há ninguém para contar. Se os pais não compram a história e as contam aos filhos, e se os filhos não contam a história, ela morre com quem a criou.

renata disse...

e tem gente que continua atirando pedras. no monstro morto. quem é o monstro afinal?

Alessandra Costa disse...

Quem é o monstro afinal? Boa pergunta.

suzany e disse...

axo q não impota quem é o monstro o q importa é o q o autor quiz passa para os ouvintes ..

melo disse...

de fato é isso mesmo que contunua acontecendo, as pessoas olham para as outras sem se quer saber quem ela é, uma dos piores defeitos de nós seres humanos é julgarmos!

 

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