11 de abril de 2011

Memórias

Quando percebeu onde estava, era tarde demais. Não havia mais como desviar o caminho. Anos depois, ele nem se recordaria de onde estava vindo, lembraria apenas de que estava voltando de algum lugar para casa. Porque – ele ainda não sabia disso – certas lembranças são tão devastadoras que podem nublar os acontecimentos de um dia inteiro.

Mas lá estava ele, a poucos metros daquela padaria em que haviam parado uma vez. Estavam andando pelo bairro, sem rumo, numa tarde de sábado e decidiram entrar naquela mesma padaria. As memórias pareciam tão distantes de si, naquele momento, que ressoavam em seu cérebro como se fossem tivessem acontecido com outra pessoa, ou em um livro. Mas não com ele.

Caminhando disfarçadamente pela calçada, do outro lado da rua, como se temendo que as próprias memórias detectassem sua presença ali, parou atrás de um carro estacionado e olhou em direção à mesa.

Ainda estavam ali, tomando sorvete e conversando. Porque estavam ali há anos, e estariam ali para sempre ali. Alheios ao fato de que estavam sendo observados, ela sorriu em resposta a algo que ele falou, enquanto ele alternava mordidas no sorvete e longos goles na pequena garrafa de água que esperava sobre a mesa.

E, alheios ao mundo – porque houve uma época em que eles eram alheios a tudo, exceto a eles mesmos – continuaram conversando, sorrindo e tomando sorvete. Lambidas infantis, mordidas delicadas, risadas que escapavam transbordando cumplicidade. Mais alguns minutos, os sorvetes chegariam ao final, lembrando teimosamente a ambos que tudo na vida acaba.

Menos as memórias. Estas sempre serão eternas.

Do outro lado da rua, esfregou os olhos e olhou novamente em direção à mesa, onde, segundos atrás, eles tomavam sorvete rindo. Não estavam mais. Não eram mais.

No lugar deles, um velho estava sentado na mesma cadeira que ele ocupara um dia, junto com ela. Bebia algo. Sozinho. Bebia para escapar do calor da tarde, bebia para escapar das próprias memórias. Sozinho, na mesa onde eles existiriam para sempre.

E, numa fração de segundos, o velho olhou em direção a ele e esboçou um sorriso discreto, quase amargo. Ele sorriu de volta, enxugou os olhos e andou em direção a sua casa. Exatamente como naquele sábado.

Mas, desta vez, sozinho.

E não conseguia se lembrar do sabor do sorvete que ela havia pedido. Somente do sabor doce daquela tarde de sábado. Porque as memórias, diferente dos sorvetes, são eternas.

5 leitores:

terrorismosuicida disse...

Que triste isso...
E o mais triste é eu me sentir dentro desta história, como alguém que se lembra de um momento feliz a dois, mas volta sozinha para casa...

Rafael Sette Câmara disse...

A vida é triste mesmo. As coisas passam rápido, bem mais do que a gente pensa. Ficam as boas memórias, as alegrias. Pra variar, ótimo post! =)

Anônimo disse...

Esse texto me fez lembrar da música "Futuros Amantes" do Chico Buarque.

Anônimo disse...

Hoje mais do que nunca eu acredito que tudo nesta vida passa, até esses momentos ruins. Parece piada velha, mas é pura verdade.

Seus textos são lindos Rob.

Varotto disse...

Estou tirando o atraso dos textos do Chronicles e, apesar de saber que você não vai ler, tenho de dizer: que texto sensacional. Curto e forte. Triste, mas belíssimo.

 

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