18 de fevereiro de 2011

Opus 27

Em silêncio, na sala, olhou o retrato.

Seus olhos lutavam contra a escuridão da madrugada que se encerrava. Mas mesmo a total ausência de luz não o impediria de ver o brilho do sorriso estampado à sua frente. Era um sorriso de novidade, de brinquedo novo. Um sorriso de dias melhores que haviam partido e que não mais seriam.

Mas que haviam sido muitos. Chuvosos e ensolarados, quentes e frios, dias de todos os tipos, em todas as estações do ano. Eram tantos os dias que as imagens rodavam à sua frente feito um caleidoscópio de amor, com músicas e cores e sons e cheiros e sonhos e crimes perfeitos nos quais haviam sido cúmplices.

Suas memórias eram tudo que ele tinha.

Imagens com sons de risadas que se perderam no tempo, com cheiro de suor gemido e escondido no quarto abafado, com sabor de vinho bebido de madrugada. Imagens com a textura de um sonho doce interrompido bruscamente por um despertador qualquer.

Suas memórias eram tudo o que ele teria.

Antes que o Sol nascesse, começou a chover levemente em seus olhos. E, conforme as gotas caíam, retirou a foto do porta-retratos e escreveu rapidamente no verso, antes de recolocá-la na moldura e depositá-la com cuidado sobre a estante, à frente de livros e discos que, em minutos, não seriam mais de ambos.

Olhou ao redor, admirando a sala pelos últimos momentos. E, com um gosto amargo na boca, olhos baixos e lutando para ignorar o cheiro dela ainda em suas roupas, fechou a porta com cuidado e, ganhando o mundo da rua, perdeu-se no mundo, deixando de existir.

Uma memória era tudo o que ele seria.

E o “obrigado por todos os dias” escrito no verso da fotografia permaneceu ali, por anos, apontado para os livros no fundo da estante e sem poder observar a sala. Lá ficou, de costas para o mundo, escondido de risadas e sonhos que não era mais seus, protegido dos futuros amores, como novos atores, que se desenrolariam naquele mesmo palco onde eles haviam representado uma vida.

E nunca foi lido. Como as memórias, eventualmente apagou-se com o tempo.

E deixou de existir.

3 leitores:

Wi disse...

Lindo.
E de tão lindo, faz a gente não saber o que dizer.

Petterson Farias disse...

Intenso.

Mari Hauer disse...

Que lindo! Lembrei de um romance doce e leve. Intenso e bom, vivido nos meus meses antes de ir pro Canadá. Mas diferente do texto, o que escrevi na capa de um livro não foi apagado! Adorei a leveza do texto, sem o peso que muitos finais de relacionamentos carregam!

 

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