18 de fevereiro de 2011

Dilúvio - Parte 2

Foi um dia desses, no Céu. Deus estava sentado na Sua sala, despachando uns documentos, quando o pequeno interfone da sua mesa tocou. Era Sua secretária.

– Senhor, Noé está aqui e deseja vê-lo.

– Mande-o entrar.

As portas de Sua sala se abriram e um homem idoso, com a barba branca escondendo metade do seu peito, entrou arrastando os pés. Vestia apenas um manto e sandálias de couro. Ainda digitando algo em seu computador, Deus apenas o cumprimentou com a cabeça.

– Só um minuto, Noé. Estou terminando um e-mail. Pronto. Sente-se.

– Obrigado. Preciso falar com o Senhor.

– Diga.

– Eu sei que o Senhor está planejando este novo dilúvio há tempos, mas eu preciso que o projeto seja adiado.

– Por quê?

– Por que eu não consegui terminar o barco. Nem coletar os animais.

– Como assim? Faz anos que estamos falando disso! E adiar agora é impossível, já faz três ou quatro dias que está chovendo. Não posso reverter o processo a esta altura!

– Mas o Senhor não pode trocar o local? É muito difícil fazer o barco em São Paulo. E se o Senhor me desse mais uns anos, e colocasse as chuvas em outro lugar?

– Impossível. A chuva já começou, Noé. Todo dia está caindo uma pancada, e daqui a uma semana, vai chover direto por quarenta dias e quarenta noites. É hora de fazer uma limpeza no planeta, e vai começar em São Paulo. Eu não vou conseguir verba para fazer outro dilúvio, alegando que o barco não ficou pronto. A diretoria nunca iria aprovar isso.

– Eu sei, mas é difícil demais trabalhar naquela cidade. Não tem árvores ali, é impossível fazer um barco daquele tamanho.

– Como não tem árvores? O planeta inteiro tem árvores, eu mesmo que desenhei.

– Então, acho que faz tempo que o Senhor não vai até São Paulo. Tem algumas árvores sim, ali perto da Oscar Freire, sabe? Mas não dá para pegar, é cheio de segurança por ali. Um dos meninos estava quase derrubando uma cerejeira, mas a polícia apareceu e ele teve que fugir.

– E fora da cidade?

– Pensamos nisso também, em pegar as árvores ali da Serra do Mar. Mas para chegar lá tem que pegar a Bandeirantes, e não dá. É impossível. Fiquei quase três horas parado na frente do aeroporto. Ah, aliás, lembra dos vendedores que Jesus expulsou da porta do templo?

– Sim.

– Acho que eles foram ali para a Bandeirantes. Naquele cruzamento ali na frente do Mc Donald's, sabe? Vende de tudo ali, amendoim, flores, mapas, bonecos do Bob Esponja, tudo. Se eu fosse o Senhor, daria uma olhada nisso.

– Não vou olhar nada, é por isso que estou fazendo o dilúvio. Vamos começar tudo de novo.

– Tudo bem. Mas agora tem outro problema que é o barco. Com ou sem madeira, não conseguimos mais chegar até ele.

– Como assim?

– Nós estávamos construindo a Arca num galpão ali na Marginal, mas o local agora está ocupado por uma escola de samba, que resolveu montar os carros alegóricos lá dentro. Fica cheio de gente ali o dia inteiro. E, cá entre nós, é meio difícil construir um barco desse tamanho sem chamar a atenção. Então, cobrimos tudo com uma lona e deixamos lá.

– Mas falta muito?

– Ah, todo o convés e os mastros. Não é muito, mas não é pouco também.

– Bem, você acha que em uma semana consegue terminar a Arca?

– Talvez se trabalharmos de madrugada... Meu medo são os vizinhos chamarem a polícia por causa do barulho, mas... Não sei, podemos tentar. É que tem uma velha ali que já ameaçou arrumar confusão. Não tem como transformar ela numa estátua de sal, não?

– Você sabe que não é assim que funciona, Noé. Vamos fazer o seguinte. Eu seguro a chuva definitiva por mais três dias. Isso dá dez dias para você. Posso ser direto?

– Sim, senhor.

– Se vire! Eu não estou com tempo para isso, tenho uma tonelada de coisas para resolver antes da chuva. E você recebeu o cronograma há anos.

– Eu sei, sinto muito.

– E os animais, Noé? Já Começou a coletar um casal de cada espécie?

– Ah sim, já temos alguns.

– Quantos?

– Dois cachorros, dois gatos e um pombo.

– Só isso?!

– Não, não. Parece que vão chegar dois elefantes hoje também. Mas esses nós compramos de um circo que estava falindo. Já até deixei a nota lá no financeiro.

– Noé, você faz ideia de quantas espécies de animais existem no mundo?

– Bastante, né?

– Bastante. Bem mais que dois cachorros, dois gatos e um pombo.

– E dois elefantes.

– Esqueça os elefantes! Eu preciso de todos os animais do planeta! Um casal de cada!

– Então, mas da mesma forma que a cidade não tem árvores, ela também não tem bichos. É bem difícil. Tem aquelas capivaras que moram ali na Marginal, mas não dá nem para chegar perto, por causa do cheiro do rio. Quase pegamos uma delas, um dia, mas ela mordeu um dos meninos. Machucou toda a mão, você precisava ver que bicho bravo.

– O projeto está totalmente atrasado! Eu preciso de uma solução em dez dias! Coloque metade do seu pessoal para construir o barco, e a outra metade atrás dos animais! Vá a uma feira de filhotes, a um pet shop, se vire!

– Bem, vou tentar. Você não tem uns anjos aí para ajudar não, né?

– Não, estão todos empenhados em outras tarefas. O problema é do seu departamento, Noé. Você que resolva isso. O dilúvio começa em dez dias, com ou sem Arca.

– Bom, tudo bem... Vou dar um jeito. Pode ficar tranqüilo.

– Faça o seguinte. Assim que você voltar para a Terra, me mande um e-mail detalhado do que falta exatamente para completar a Arca. E eu vejo no que posso ajudá-lo.

– Sim, senhor.

– Mas eu quero este e-mail ainda hoje!

– Tudo bem, eu mando... Ah não! Hoje não vai dar.

– Por quê?

– Já são 16 horas em São Paulo, já começou a chover. A Rebouças deve estar toda parada, eu não vou conseguir chegar antes das 10 da noite. A cidade inteira deve estar inundada, já. Não tem como me emprestar aquele cajado do Moisés?

– Impossível.

– E capaz de eu chegar ao escritório e não ter luz. É todo dia assim, agora.

– Noé...

– Já sei, já sei. “Se vire”. Vou tentar. Só um minuto.

Tirou um celular que vibrava em seu bolso e conferiu suas mensagens.

– Preciso ir, tenho um problema.

– O que aconteceu?

– Os elefantes chegaram, mas o pessoal do circo entregou dois machos. Não serve, né?

– Não, Noé. Não serve.

– Eu vou lá resolver. A gente se fala.

Levantou-se e saiu arrastando suas sandálias de couro – eram novas, compradas ali na Benedito Calixto de um hippie. Talvez poderia passar na Bandeirantes e comprar um boneco do Bob Esponja. Poderia arrancar os braços dele, colar numa gaiola e dizer que eram canários. Seriam dois animais a menos para conseguir. Se ninguém olhasse de perto...

Assim que fechou a porta, Deus suspirou e esfregou os olhos. Acionou o interfone e chamou sua secretária.

– Madalena, tem uma aspirina aí?

– Acabaram, Senhor. Vou mandar buscar.

Suspirou, sentindo saudade de uma época na qual Ele podia mandar meia dúzia de anjos descerem com espadas de fogo para arrasar com tudo. As coisas eram mais fáceis.


4 leitores:

Amanda Guerra disse...

Olá, Rob.

Tentei achar um contato seu mas não consegui, então, vamos por aqui mesmo. Eu gostaria da sua autorização para usar algum trecho de seu blog na minha monografia. Desculpe por não dar mais detalhes, mas infelizmente não posso neste espaço público.

Será que você pode entrar em contato comigo, se não for abusar muito?

Meu e mail é amanda.villar@yahoo.com.br

Obrigada e um abraço!

Sil disse...

Acho que o barco não vai ficar pronto mesmo :D

disse...

Eu ri do começo ao fim,kkk

Mari Hauer disse...

Não tá fácil pra ninguém, Rob! Que Noé incompetente! Eu ri muito na parte da Bandeirantes parada e da chinela comprada na Benedito Calixto! Ô, fase!

 

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