21 de janeiro de 2010

Carta de Amor

Olhou para a tela em branco por alguns minutos.

Não sabia ao certo como começar a escrever. Sabia tudo aquilo que queria dizer, sabia tudo o que sentia, mas não sabia quais palavras usar. Afinal, não se tratava de um simples texto. Deveria ser inesquecível. Afinal, estava escrevendo para ela. E ela não merecia menos que isso.

Rabiscou algumas frases, mas apagou tudo em seguida, apertando os lábios e a tela em branco surgiu novamente. Detestava quando as palavras se recusavam a obedecê-lo, especialmente quando elas teimavam em não aparecer num momento em que ele sabia exatamente o que queria dizer.

Foi até a janela e acendeu um cigarro. Decidiu que, antes de tudo, deveria se concentrar no formato do que iria fazer. Um poema, uma crônica, ou apenas uma carta. Abandonou a idéia do poema quase imediatamente. Detestava tudo o que fazia nesse sentido, e se sentia um idiota a cada rima que descobria.

Ainda indeciso entre a carta e o a crônica, percebeu que o grande problema é que tudo já havia sido feito antes. Queria escrever a carta de amor definitiva, aquela que seria lembrada para sempre. E não por vaidade, por ser reconhecido como um grande autor. Sua vontade era saber que o texto que faria pessoas do mundo inteiro se emocionarem, se apaixonarem, teria sido escrito para ela. E isso não tinha preço.

Mas foi aí que percebeu que tudo já havia sido feito antes. As músicas, as cartas de amor, os poemas... As mais belas declarações de amor já haviam sido escritas e compostas. Não haveria espaço para uma nova. Tudo já fora dito, de todas as formas possíveis.

Brincando com o cigarro nos dedos, fantasiou voltar no tempo e escrever, antes dos outros, aquela música que ela adorava. E, dentro da sua imaginação, brincou cantá-la em estádios lotados, sendo aclamado por multidões, imaginando dedicar à música a ela em todos os concertos. E imaginou recebendo prêmios pela carta de amor que escreveria, discursando emocionado que havia escrito aquele texto somente para ela.

Sorriu, apagou o cigarro e retornou para a realidade.

A tela continuava em branco, atrás dele.

Caminhou silenciosamente até a mesa e olhou a foto dela. Fazia meses que ela sorria ali, ao lado do monitor, o inspirando. Pegou o porta-retratos e o olhou mais de perto. Não entendia como podia amar tanto alguém e não saber colocar isso no papel.

Sentou-se na cadeira e digitou o nome dela, vendo se conseguia continuar o texto. Não continuou. Passou alguns momentos olhando o nome dela. E foi aí que entendeu tudo.

Qualquer carta de amor que escrevesse seria a melhor do mundo. Pois qualquer carta de amor que ele escrevesse começaria com o nome dela, e isso tornaria o texto o mais belo e intenso que qualquer outro escrito, cantado ou recitado.

A palavra chave não era “amor”, a palavra chave era o nome dela.

Ela não era o destinatário. Ela era o texto.

Com os olhos cheios de lágrimas, percebeu, então, que era o maior poeta de todos os tempos e que todos os dias que vivia eram poesias e todas as suas noites eram declarações de amor.

Pois todos os seus dias e todas as suas noites continham o nome dela.

Ela era o amor.

Assim, com o rosto ainda molhado, digitou duas linhas, imprimiu e dobrou o papel, com cuidado. Caminhou silenciosamente até o quarto, onde ela dormia e o escondeu dentro da bolsa dela.

E, com cuidado, deitou-se ao lado dela, beijou sua cabeça com delicadeza e medo de acordá-la, e sussurrou:

– Obrigado.

E, virando-se de lado, sorriu, antes de adormecer.

Ainda se passariam horas até que ela encontrasse o bilhete. Foi no meio da tarde, quando ela procurava o celular na bolsa após sair de uma reunião. Ninguém reparou quando ela encontrou aquele pedacinho de papel dobrado cuidadosamente, e com o nome dela escrito, na verdade, quase desenhado, na letra mais caprichada que ele havia conseguido.

Eu amo você. Talvez isso não seja suficiente para escrever uma carta de amor, mas é suficiente para escrever minha vida inteira.

Naquele exato momento, namorados do mundo inteiro juravam amor eterno; amantes sonhavam olhando a Lua. Beijos eram roubados, loucuras eram feitas, perdões eram implorados, corações conquistados.

Mas nenhuma outra pessoa seria amada como ela.

9 leitores:

disse...

Eu acompanho seus dois blogs há, pelo menos, um ano e meio. Todos os dias visitando para ver se tem textos novos. Hoje resolvi deixar a timidez/preguiça/vergonha de lado porque este texto descreve exatamente o que vivi nesta manhã. Queria escrever algo para ele, mas não sabia o que dizer, embora soubesse exatamente o que sinto...
Mais uma vez, como em tantas outras, vc escreveu o que eu não consegui.
Muito obrigada!!

disse...

Ai, moço, você se superou. Me encheu os olhos d´água ;-)

Tyler Bazz disse...

idiota. sai daqui.

hehehehehe


(escrevi um texto essa semana que me lembra esse, em um momento ou outro..)

Bia disse...

Eu já quis encontrar um bilhetinho desses na minha bolsa...

Dama do Lago disse...

Lindo, emocionante,você escreveu exatamente o que nós mulheres adoramos ler : o amor puro e real, que se torna o maior do mundo, simplesmente porque é dedicado a nós.
Minha sexta feira ficou ainda mais bonita, obrigada ^_^
Beijo
Sil

Bia Nascimento disse...

Torço para encontrar um namorado que tenha metade da sua sensibilidade e amor. Serei a garota mais feliz desse mundo!

Um beijo,
Bia

Leonardo Marcondes disse...

Desculpe se pareço inconveniente, mas em uma parte do texto você diz: "(...) digitou duas linhas, imprimiu e dobrou o papel, com cuidado. Caminhou silenciosamente até o quarto, onde ela dormia e o escondeu dentro da bolsa dela.", mas, depois, "(...)com o nome dela escrito, na verdade, quase desenhado, na letra mais caprichada que ele havia conseguido". Acho que ocorreu um engano aqui, hein? hehe!
Gostei muito!

Rob Gordon disse...

Leonardo

Na verdade, não há engano algum. Imaginei o papel digitado, e, na parte de fora, com o nome dela manuscrito. Com letra caprichada. :-)

Valeu pelos elogios, volte sempre!

Abraços

Nadia disse...

Arrepiei com esse.
Deu até inveja dela agora.

Odeio você.

 

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