21 de setembro de 2009

Escuridão

Dormia.

Acordou com o barulho da porta se abrindo. Na escuridão, conseguiu apenas avistar um vulto, sem identificar o rosto. Uma voz feminina perguntou se ele estava dormindo e ele, ainda confuso de sono, respondeu que não sabia. Ela se deitou ao seu lado e o abraçou.

Ainda com os olhos abertos, passou a mão pelo rosto dela, pelos cabelos. Eram longos. O cheiro dela era doce, doce como nunca havia sentindo antes. Mesmo em meio à escuridão, percebeu que ela tirou a blusa. Fez o mesmo e a beijou.

Não sabe se o beijo durou alguns segundos ou dias inteiros. Lembra apenas do cheiro doce e do som da respiração dela. Fizeram amor ali mesmo, não na cama, mas na escuridão. Ele bêbado de sono. Ela, bêbada dele.

Pássaros começaram a cantar na rua, ao mesmo tempo em que os primeiros raios de Sol entraram pelas frestas da janela. Mas ainda era impossível ver o rosto dela, apenas as feições se mexendo para acomodar os sorrisos que deixava escapar.

Ainda suado, ainda ofegante, deitou-se ao lado dela. Ela acomodou o rosto em seu ombro. A luz já fazia com que seu corpo ganhasse formas mais definidas. Deslizou o dedo pelas costas dela e sentiu sua pele quente.

Conversaram sobre a vida. Conversaram sobre diferenças. A diferença entre amor e paixão, a diferença entre realidade e fantasia, a diferença entre Beatles e MPB e a diferença entre o que eles eram hoje e o que eram anos atrás.

E, com o Sol já iluminando totalmente o mundo lá fora, fizeram amor mais uma vez, desta vez em silêncio, sem pressa, pois sabiam que o dia estava apenas nascendo.

Novamente sem ar, largou-se na cama, exausto, e adormeceu. As últimas coisas que se lembra eram o cheiro de tabaco nas mãos e o gosto dela nos lábios.

Percebeu, então, que tinha sorte. Era uma das únicas pessoas que conseguia viver de verdade mesmo dormindo. Nada mais justo, já que havia passado a vida inteira sonhando acordado.

E, com um sorriso nos lábios, dormiu.

E viveu.

11 leitores:

Otavio Cohen disse...

Quanta sorte, hem. Alguns têm sorte por sonhar acordados. Foi um certo pesadelo, afinal, que inspirou? ou um outro sonho?

MaxReinert disse...

Rob lírico?
Coisa boa!

Mayra Prata, May, 19. disse...

Agora fodeu (com o perdão da palavra, claro). Porque eu estava tentando não vir aqui antes de ler o Vinyl inteiro (é, eu sempre leio os arquivos de blogs que eu gosto) porque sabia que eu ia gostar também. Mas não aguentei e vim ler o texto novo. Agora, tenho uma janela com duas abas abertas pros Champs e vou revezando a leitura. E eu quero ver COMO eu vou fazer pra parar de ler e ir dormir.

Bruno Portella disse...

Não me empolga muito. Descreve bem as situações, mas algumas delas simplesmente não brilham eu acho.

Mas pode ser questão de gosto.

Ana disse...

Que lindo, chorei.

Anepigrafia disse...

Obrigada por se encantar, é real! Presença diária, eventuais comentários.
#beijojávou

Anepigrafia disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Jullia A. disse...

Eu tento achar alguma palavra que descreva o que o seu texto me desperta, mas não dá. Não é tristeza, nao é emoçao, nao é alegria.
só sei que é bonito. Muito bonito.

Marcos Pinheiro disse...

Você devia dar uma conferida neste blog de uma amiga minha: http://soirild.blogspot.com/ - super haver com esse teu texto!

Melinda Bauer disse...

Muito intenso este sentir hein! Se captou é porque já viveu!
bjito

Daniela disse...

Depois do Champ, tinha que arrasar aqui também...parece que o tema do fim de semana foi amor..

 

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