24 de agosto de 2009

Cães e Amendoins Japoneses

(Crônica feita sob encomenda para
o casamento de dois amigos inesquecíveis)



É impressionante como algumas das melhores coisas do mundo não possuem explicação. Acordar no meio da madrugada com o barulho de tempestade; olhar para uma pessoa na rua e sentir que a conhece de algum lugar – mesmo tendo certeza de que nunca a viu na vida –, ou a sensação que uma determinada música faz com a gente, sem motivo algum.

Algumas das melhores coisas do mundo não possuem explicação. A Renata e o Otávio também não têm explicação. E eu garanto que a Renata e o Otávio são a melhor coisa que aconteceu na vida deles.

Conheceram-se com dez anos de idade. Eram colegas, e continuaram sendo apenas colegas. Afinal, sejamos honestos: uma menina estudiosa, que tirava notas excelentes na escola e que, às vezes gostava de sair com as amigas e dançar, não teria mesmo muito assunto para conversar com um sujeito cujo mundo se resumia a consumir filmes de kung fu dos anos 70 e amendoim japonês – ambos em quantidades assustadoras.

Num mundo normal, a Renata e Otávio não teriam passado disso. E hoje, cada um deles estaria vivendo sua vida, mal se lembrando da existência do outro. Ela estaria cada vez mais apaixonada pelos seus cachorros; ele estaria jogando World of Warcraft sozinho de madrugada.

Cada um deles estaria andando por caminhos separados, e provavelmente só se encontrariam por acidente, naquelas breves conversas em corredores de shopping que terminam sempre com “vamos marcar algo”, e nunca mais se encontrariam.

Mas, felizmente, uns anos atrás, o mundo resolveu pregar uma peça nos dois. O menino que gosta de filmes de kung fu e a garota que deixou de tirar notas altas para correr e cuidar de cães acabaram se aproximando.

E se apaixonaram. Apaixonaram-se e, como deveria acontecer sempre que a paixão existe, foram felizes para sempre.

Mas a vida não é um conto de fadas. Nunca foi.

Assim, antes de serem felizes para sempre, tiveram que lutar muito. Tiveram muitas brigas, muitos desencontros.

Um momento foi marcante: uma viagem dele para São Paulo, que por pouco não mudou definitivamente a vida dos dois.

Enquanto ele estava em São Paulo, a menina das notas altas, que agora era a menina dos cães, quase desmaiava de saudade todos os dias; e o menino dos pacotes de amendoim japonês, que estava correndo atrás de um sonho antigo, teve certeza de que estava fazendo aquilo tudo também em nome dela.

Foi nessa época que eu tive a sorte de me aproximei dos dois. E aprendi muito com isso. Aprendi que existem filmes chineses dos anos 70 que são melhores que muita coisa feita hoje e que existe chocolate dietético – até então, isso era, para mim, uma lenda urbana.

Por outro lado, observando os dois, aprendi que o amor, quando é verdadeiro, não tem tempo nem distância.

E nem diferenças. Sim, porque eles são – e sempre serão – pessoas totalmente diferentes.

Enquanto a menina dos cães contava da saudade para mim, pela internet, e pedia para eu cuidar dele; o menino dos amendoins japoneses mergulhava em churrascarias comigo e ficava discutindo quadrinhos até altas horas da madrugada. Enquanto ela comprava aquecedor para ele escapar do frio de madrugada, ele escapava do frio de madrugada jogando videogame (mas usava o aquecedor).

Ok. De um lado temos aquecedor e saudade. Do outro, picanha e quadrinhos.

Você que está lendo pode pensar que ela se importava mais com ele do que o contrário. Eu, no seu lugar, pensaria isso também. Mas eu não estou no seu lugar. Eu estava justamente no meio deles. E as coisas que você vê de perto, são aquelas que realmente contam.

E o que eu vi de perto, nesse tempo em São Paulo, foi o olhar dele. No meio de uma conversa sobre qual fase dos X-Men é a melhor, ou quando ele passava horas falando sobre um filme C de ação que somente ele conhece, você via, por alguns minutos, ali, no canto do olho, a saudade incomodando.

Doendo mesmo.

E aí eu percebia que ele estava morrendo de saudade dela, e que, provavelmente, acordava todo dia de manhã cada dia mais convencido de que não estava fazendo aquilo por ele, estava fazendo aquilo por eles. Era apenas uma letra a mais, mas era um “s” que fazia toda a diferença. Da mesma forma que ela estava, do outro lado do Messenger, agüentando aquilo por eles.

Tudo bem, em algumas noites ele não morria de saudade, mas apenas porque morria de frio, já que deu azar de vir passar uma temporada aqui num inverno glacial. Mas o que estava matando ele, ao menos por dentro, era a saudade. Eu sei, eu vi de perto.

E foi no momento que percebi isso que descobri que a menina dos cães e o menino dos amendoins japoneses eram mais parecidos entre si do que eu pensava. Esqueça o fato de ele ler histórias do Justiceiro e ela gostar do Elton John (apenas para citar uma diferença gritante entre eles).

Eles eram iguais na essência. E a essência deles é que cada um possui um sentimento que domina suas vidas de forma completa: o amor que sente pelo outro.

Justamente por isso estavam morrendo de saudade um do outro.

E não apenas pelo hábito de ficarem juntos, mas principalmente porque tiveram a inteligência de aprender a ter o outro, de verdade, ao seu lado.

Se apaixonar é fácil, todo mundo já fez isso um dia. A Renata e o Otávio se apaixonaram, sim, mas foram além. Eles souberam como se apaixonar.

Afinal, eles não apenas se apaixonaram, mas se apaixonaram pelas paixões dos outros. A menina dos cães começou a matar dragões imaginários na tela do computador junto com o menino dos amendoins japoneses. O menino dos amendoins japoneses aprendeu a acompanhar a menina dos cães nas corridas.

E se apaixonaram pelos defeitos do outro. Ele aprendeu a se apaixonar pelo gênio difícil dela; ela aprendeu a... Bem, deve ter alguma coisa que você possa aprender ao lado de uma pessoa que quando olha um filme de ação, pensa imediatamente “será que tem alguma cena com bazuca?”. E ela aprendeu.

Mas, alguns meses atrás, ele arrumou as malas e voltou, por causa de uma daquelas voltas que a vida dá.

E, assim, ele voltou para o seu lar.

E ela ficou feliz porque o seu lar havia voltado.

De lá para cá, eu continuei acompanhando a vida dos dois, não como um nome no Messenger, mas, com a honra de ser amigo, dos dois lados. E se eu tenho uma certeza na vida, é que eles vão sempre estar ali. Toda vez que eu preciso, ela me ajuda. Toda vez que eu preciso, ele me ignora. Aí eu mando uma mensagem no celular dele, pedindo “fecha esta merda de jogo e vem pro Messenger”, e ele me ajuda.

Eu? Mesmo aqui de São Paulo, me sinto cada dia mais próximo dos dois. Porque eles são irresistíveis, especialmente quando estão juntos.

E, num mundo cada vez com relacionamentos cada vez mais caóticos, com casamentos começando e terminando por nada, a Renata e Otávio são um símbolo que, antes de tudo, está o amor.

Seja enfrentando hordas de monstros no mundo virtual, seja enfrentando as contas no final do mês, eles estão sempre juntos. E eles sempre vão estar juntos.

Porque algumas das melhores coisas do mundo não possuem explicação. A Renata e o Otávio são uma delas. E, a partir de 31 de outubro, eles vão começar a provar, de verdade, aquilo que todo mundo – especialmente eles – sempre soube: A Renata e o Otávio nunca precisaram de explicação. Eles sempre foram sua própria explicação.

Eles se bastam. Eles se completam. E eles se amam.

E se amam mais do que qualquer um de nós pode compreender.

7 leitores:

Ana disse...

Eu conheço amores assim. Daqueles tipos de amigos que a gente vê junto um do outro e dá um sorriso sem mostrar os dentes, que sai involuntariamente, somente pela certeza de que aquela é a imagem perfeita.

As vezes, fica difícil de acreditar que exista isso, mas eu, particularmente sempre acreditei. Não é q os opostos se atraem: Os opostos aprendem a se apaixonar da forma certa. Aprendendo tambem a se apaixonar pelas diferenças que os fazem tão interessantes um para o outro.

Tomara que o Mr. Otavio e a Mrs. Renata sejam felizes. Ainda mais felizes do que já são. E tomara mesmo q ele nunca dê amendoim japonês para os cães dela.

Jullia A. disse...

Deve ser demais amar alguém assim.Ser amado assim.
é Puro.

Layla Barlavento disse...

Só há uma definição, ao me ver, para um amor como o deles: sublime.

Layla Barlavento
http://culpadowalter.blogspot.com

Melinda Bauer disse...

Talvez nem todos estejamos prontos para soltar os Otávios e Renatas que existem dentro de nós! Amar é assim uma entrega e uma escolha de coragem. Pode ser que a Marta Medeiros esteja certa quando afirma ( no livro) que nos apaixonamos pelas situações e sentimentos que as pessoas desencadeiam em nós.....daí temos que ser apaixonados pela vida e ponto....
Que delírio hein.....acho que fiquei emocionada com o post.......

Varotto disse...

Eduardo e Mônica Redux.

Muito bom mesmo...

Daniela disse...

Eduardo e Mônica? Acho mais Paula e Bebeto, mas perfeito também.

Matheus Silva disse...

porra, esse texto me deixou pensativo

quase chorei nessa droga =|

 

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