25 de fevereiro de 2008

Dr. Couto e a Morena do Sorriso Largo - Parte Final

(leia a primeira parte aqui)


– Que morena do sorriso largo?

– Eu estava numa estalagem italiana, bebendo vinho, o dia em que ela entrou. Morava numa vila ali perto, e entrou para comprar algo. Nunca mais esqueci, ela andava descalça e usava um vestido simples. No momento em que ela olhou para mim e sorriu, eu finalmente percebi o sabor do vinho que eu estava bebendo. Pela primeira vez na vida, me apaixonei.

– Espere... Essa morena nunca existiu?

– Ela sempre existiu. Só que você irá torná-la real no seu livro. Não, no nosso livro. Eu sempre imaginei essa mulher. Sou amante dela há mais de dez anos. Posso descrevê-la como se ela estivesse aqui. Você apenas irá consumar o fato.

– Dr. Couto, isso não é exatamente uma biografia.

– Espere, ouça sobre a morena. Sorriso largo, olhos grandes. Faço questão que você use, em algum momento, uma frase dizendo “que o hálito dela tinha o perfume de maçãs”. Isso está no Cântico dos Cânticos, mas ninguém vai reparar. E fale bastante sobre a inconstância dela.

– Inconstância?

– Sim. Às vezes, ela era toda minha. Fazíamos amor num celeiro lá perto, e esse celeiro virava nosso universo. Às vezes, ela não era minha, mas do mundo e ficava sentada no campo, ao meu lado, horas e horas, olhando as estrelas. De vez em quando, falava o meu nome, baixinho, com sotaque italiano. “Colto, Colto”, carregando o “l”. Isso é um bom começo, não acha? Vamos dos Alpes para o Tibet, do Tibet para a Itália, da Itália para a morena.

– Mas como chama a morena?

– Nunca pensei nisso. Sempre pensei nela como “Ela”.

– Mas nada disso aconteceu!

– Ainda não aconteceu, meu rapaz! Ainda! Você irá tornar tudo realidade. Eu já tentei escrever, mas ficou chato demais, só sei escrever petição. Minha vida está em suas mãos. Torne-a emocionante. Quero que os homens me invejem e as mulheres me desejem. Cansei de ser um advogado. Quero viver de novo, quero outra vida. Mas não dá mais tempo. Então, vou ter que criar uma. A partir do momento que minhas memórias forem publicadas, elas se tornarão as minhas memórias também.

– Mas como o senhor vai da morena para um escritório aqui no Arouche? Por que hoje o senhor está aqui.

– É aí que você entra. Eu sempre paro na morena. “Colto, Colto”. Hum... Quem sabe eu perdi tudo no jogo? Em Las Vegas? Eu estava lá numa missão de espionagem para algum governo do leste europeu, nos anos 80, e, para disfarçar, precisei entrar num cassino. Acabei perdendo tudo para um sheik árabe. Hoje, ganho a vida aqui, neste escritório, defendendo os direitos da classe trabalhista. Que tal? Aliás, isso pode ser o foco central. Algo como “As aventuras de um advogado do Arouche”. E, embaixo, “sexo, espionagem, aventura e esportes radicais ao redor do mundo”. Em letras vermelhas, bem chamativo!

– Mas e a morena? O que aconteceu com ela?

– Nunca mais vi.

– Bem, faz sentido. Afinal, ela não existe.

– Detalhes, meu rapaz. Apenas detalhes perto do que eu e ela tivemos. E está na hora do mundo conhecer nossa história. Minha história, na verdade. Ela é parte importante, mas a história é minha. Mas, a morena... Hum... Podemos dizer que o namorado dela jurou que iria me matar e tive que fugir da Itália. Ela queria ir comigo, mas eu, num ato de nobreza, disse que o lugar dela era ali, com a família. Ainda me lembro dela, no aeroporto, chorando... “Colto, Colto”, ela dizia. Eu quis ficar, mas criei coragem e vim embora. Nunca mais tive notícias dela. Mas nunca a esqueci. E vou dedicar o livro a ela.

– Dr. Colto... Couto, perdão. Eu não sei se posso aceitar esse trabalho. É diferente demais de tudo o que eu fiz.

– São apenas crônicas, rapaz. Mas o personagem de todas elas sou eu.

– Mas o senhor vai vender isso como verdade!

– Não, as pessoas vão comprar achando que é verdade. É diferente!

– Olhe, Dr. Couto, eu acho que vou ter que recusar. Não sou a pessoa mais indicada para esse trabalho.

– Bobagem!, gritou o homem, socando a mesa. É fácil! Basta apenas escrever e preencher as lacunas!

– Bem, entre Alpes e Arouche há uma lacuna bem grande.

– Paolla.

– Quê?

– Paolla. O nome dela. Paolla. O que você acha? Mas com dois “l”. Paolla. Pa-o-lla, ele disse, mexendo a língua no “olla”, como se estivesse saboreando o nome.

– Eu não sei. Eu preciso pensar. Até quando eu posso responder para o senhor?

– O mais rápido possível! Minha história tem que ser escrita rapidamente. Porque, depois, eu vou lançar a versão não-autorizada, com detalhes sórdidos sobre minha passagem pela Austrália e minhas caçadas no Canadá, quando tive que fugir da Polícia Montada.

– De lá para o Arouche?

– Depois pensamos nisso! Quando começamos?

– Eu ligo para o senhor até o final da semana. Fechado?

– Muito bem, meu rapaz. Já vá rabiscando algumas coisas para o nosso próximo encontro.

– Sim, senhor. Eu mando uma amostra para o senhor por e-mail.

– Ótimo. Fico aguardando.

Rafael se levantou, apertou a mão do advogado, que sorria, despedindo-se. Girou nos calcanhares e saiu apressado do escritório, apertando o passo conforme descia as escadas. Quando Couto percebeu que o rapaz não havia seu e-mail, era tarde demais. Ele já havia desaparecido na rua. O advogado voltou para sua sala e deixou-se afundar na cadeira de couro envelhecido. Era o terceiro escritor que recusava sua proposta.

Pegou o porta-retratos e olhou para a foto. Ou para o espaço da foto, já que não tinha retrato nenhum ali, apenas um restinho da cola da etiqueta do preço, arrancada na unha.

– Colto, Colto... disse o homem em voz baixa.

Recolocou o porta-retratos na mesa e pegou o paletó para ir almoçar. Ao menos, o sujeito do bar da esquina acreditava nele. Ou, ao menos, parecia acreditar, já que pedia sempre para ele falar da Itália. Já era um começo, pensou o Dr. Couto, apagando a luz e fechando a porta do escritório.

2 leitores:

Tyler Bazz disse...

O Rafael faz o serviço e o Couto, como bom advogado, processa ele por calúnia! Fez bem em recusar... hehehehehe

Muuuuito bom o conto!

o/

Danielle Ribeiro disse...

Juro.Pensei que você fosse dizer,que o rapaz ía pegar a idéia,fazer um conto e ganhar muito dinheiro com isso!kkkkk
Muito bom!rs

 

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