26 de junho de 2007

Minhas Mulheres de A a Z - Parte III

Gabriela, a Metaleira
Quando a conheci me chamou a atenção que usava apenas preto. Calça, jaqueta, botas. Tudo preto. Mas o mais engraçado era sua camiseta, com a estampa que lembrava uma legião de mortos vivos marchando e o nome de uma banda completamente ilegível. Perguntei o que era aquilo e ela respondeu: “é a nova sensação do black metal alternativo da Escandinávia”, e me mostrou uma fita cassete com as únicas três músicas que a banda havia gravado antes do vocalista ser preso por assassinato (ou por queimar uma igreja, não me lembro direito). Metaleira dos pés à cabeça. Ou melhor, dos coturnos à cabeça, já que ela só tirava as botas para tomar banho e dormir. Ficávamos a maior parte do tempo no quarto dela – que, na verdade, era o porão da sua casa, mobiliado apenas com uma cama, CDs espalhados pelo quarto e garrafas de vodka jogadas no chão. E ela me contava (quando o volume do som permitia uma conversa) sobre as bandas, os solos, os bateristas, a situação do cenário metálico no Brasil e a força do movimento metal, dizendo sempre que tudo era “bem lôco”. Eu, claro, nunca disse a ela que adorava Chico Buarque, com medo dela enfiar aquele bracelete de pregos no meu olho e me chamar de herege. Tudo acabou na noite em que fomos para um show de uma banda obscura, num bar obscuro no centro da cidade e, na saída, fomos cercados por um exército de punks procurando briga. No meio da confusão, ela desapareceu, segundos antes de eu tomar uma porrada no olho e cair na calçada. Nunca mais a vi. Não se ela foi massacrada pelos punks ou se fugiu com um deles. Ou se até mesmo foi ela quem me deu a porrada. Mas tenho certeza de que ela deve ter achado tudo aquilo “bem lôco”.

Heloísa, a Enroladora
À primeira vista, Heloísa era a mulher ideal. Doce, bonita, meiga, sensual. O único problema era sua tara incontrolável por enrolar os outros. E ela não precisava de dinheiro, fazia aquilo por diversão mesmo. Conheci-a num bar, no momento em que ela convencia três caras a pagar uma cerveja para ela, porque “tinha esquecido a carteira em casa e estava morrendo de sede”. Tinha talento, pelo jeito: conseguiu três cervejas e uma porção de amendoins. Horas depois, me contou que não só estava com a carteira como devia ter dentro dela uma pequena fortuna em notas de 1 real, que ela havia acumulado ao longo da semana enganando parentes, amigos e desconhecidos. O pior é que era divertido. Ela conseguia fazer gente entrar no cinema de graça alegando ser jornalista e, muitas vezes saímos de restaurantes sem pagar a conta, quando ela fingia ser amiga da filha do garçom (“Perdi o contato com sua filha quando larguei a escola, por causa da doença de mamãe”, ela dizia, com os olhos marejados). Um dia, entrei em casa e ela tinha alugado dezenas de DVDs, como Nove Rainhas, Golpe de Mestre e Onze Homens e Um Segredo. “Estou estudando. Quero me aprimorar”, ela disse. Foi a última vez que a vi. Semanas depois, recebi uma ligação da locadora me cobrando os DVDs. Ela havia falsificado minha assinatura e locado os filmes no meu nome. Nunca mais tive notícias dela. Outro dia, comentaram comigo que ela é deputada estadual ou algo parecido.

Inês, a Hitchcockiana
Conheci Inês numa festa na casa de amigos e acabamos nos aproximando porque ela era fã de Alfred Hitchcock. Tanto que havia pintado os cabelos de loiro platinado. Às vezes, ficava ausente, com o olhar perdido, olhando para o infinito (“é o meu momento Um Corpo que Cai”, ela me confessaria, semanas depois). O problema é que ela não gostava de Alfred Hitchcock, ela realmente vivia dentro de um de seus filmes. Tinha certeza de que estava sendo seguida, e que seria vítima de uma conspiração ou de uma tentativa de assassinato. Quando nos encontrávamos, ela aparecia sempre vestindo um sobretudo e usando lenço na cabeça e óculos escuros. Andávamos na rua e ela ficava olhando para trás, certa de que estava sendo seguida. Quando íamos a um hotel, se registrava sempre com os mesmos nomes das personagens dos filmes de Hitchcock. Madeleine Elster, Lisa C. Fremont, Margot Mary Wendice, Melanie Daniels. E não adiantava eu explicar a ela que dificilmente uma mulher chamada Madeleine Elster se registraria num hotelzinho na Barra Funda, ela não estava nem aí. Sua vida era citação atrás de citação. Eu não podia usar gravata (por causa de Frenesi) e tive que jogar fora um baú que tinha em casa, pois ela estava certa de que eu tinha um corpo escondido ali, como em Festim Diabólico. Eu agüentava tudo, mas a gota d’água foi quando após reassistir Psicose pela décima nona vez, ela me deu de presente uma águia empalhada e começou a insinuar que era hora de conhecer minha mãe. Arrumei minhas coisas e fui embora, certo de que ela faria com que eu fosse preso por homicídio em menos de uma semana.

6 leitores:

Frederico disse...

cara ... eu fiquei surpreso também.. e parece que a galera gosta do meu blog.. dos meus textos sei lá.. eu não gosto mais se a galera gostoa e eu fico com a galera... esse texto seu é bacana.. mais tipo vc tem meuio que um dedo podre pra mulheres né srsrsr mais super criativo esses textos.. abraçoss

animal juice here. disse...

haha se todas essas mulheres foram realmente verdades,meu amigo voce viveu cada coisa com elas haha
:*

Pyro Non-Sense disse...

3 leitores.

vera maya disse...

Ihh...agora nem sei qual dos dois blogs eu gosto mais...rsrsrsr

A verdade é que voce escreve muito bem!

Bjos

Srtª Amora disse...

SUA INtimidade com as palavras, é admirável... talvez pela experiência como jornalista. Tens o texto comercial, que discorre naturalmente, leve e divertido.

é...dúvida, se é conto ou não. Mas tive um "heloísa" na minha vida, mas tão enrolador que chegava a ser encantador, só perdeu a graça quando achou que seria interessante enrolar minha amiga tbm e assim faríamos um ménage.

Srtª Amora disse...

SUA INtimidade com as palavras, é admirável... talvez pela experiência como jornalista. Tens o texto comercial, que discorre naturalmente, leve e divertido.

é...dúvida, se é conto ou não. Mas tive um "heloísa" na minha vida, mas tão enrolador que chegava a ser encantador, só perdeu a graça quando achou que seria interessante enrolar minha amiga tbm e assim faríamos um ménage.

 

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