16 de julho de 2007

Isadora

– Eu não sei se vou conseguir ir. Estou começando a ficar gripado e estou preso no trabalho, não tenho hora para sair daqui.

Ficou pensando o dia inteiro em como falar isso, e agora tinha falado. Ele sabia que era o aniversário da namorada do melhor amigo, mas não estava com a menor vontade de ir e passou o dia inteiro pensando numa desculpa. Na falta de coisa melhor, apelou para a velha dupla gripe-trabalho, que nunca havia falhado. Até agora.

– Você sabe que a Daniela não vai te perdoar, disse o amigo, jogando todo seu argumento por terra.

– Eu sei, mas explica para ela que hoje, aqui no trabalho...

– Ela está aqui comigo, você fala com ela.

Antes que ele pudesse dizer “não, espera”, uma voz feminina atendeu o telefone.

– Você vai, né?

– Então, Dani, como eu estava falando para o Reinaldo, estou muito ferrado aqui hoje.

– Não tem problema, você chega mais tarde. A gente espera você.

– E eu não estou legal também, Dani. Acho que estou ficando com febre.

– Não tem problema, porque eu não consegui reservar uma mesa na parte de fora do bar, teremos que sentar dentro. Melhor ainda, já que você não está bem.

– Dani...

– Não, não. Você vai de qualquer maneira. Faço questão.

– Além disso, lembra da Beatriz, aquela menina que estava no aniversário do Reinaldo, e que você ficou todo interessado?

– Sim... Ela vai?

– Não só vai como perguntou se você iria.

– Sério? Perguntou?

Ele começou a odiar os traços de empolgação que apareceram na sua voz. Sentia que a sua tão sonhada noite com pizza e dois filmes alugados, embaixo do cobertor, estava indo por águia abaixo.

– Perguntou. E eu disse que você iria. Você não vai perder essa chance, vai?

– Ah, Dani...

– Ah, nada. Faço questão que você vá. Além disso, eu ainda não decidi quem serão os padrinhos do meu casamento com o Reinaldo, então, os nomes estão em aberto ainda. E claro que eu jamais o deixaria convidar alguém que não foi ao meu aniversário para ser padrinho.

“Golpe baixo”, pensou. Fechou os olhos e viu os almejados sofá-cobertor-pizza afastarem-se lentamente, rindo da sua cara. Desde quarta-feira estava sonhando com isso. Com isso, ou em começar o livro novo que havia comprado fazia duas semanas e que não havia conseguido encostar ainda. Desde quarta-feira tinha jurado que passaria a noite de sexta-feira em casa, descansando. E, quando acordou na sexta-feira e viu que estava chovendo, ficou mais feliz ainda. E agora, todos seus planos iam se desintegrando por causa de uma merda de uma festa de aniversário.

Suspirou.

– OK, eu vou. Mas não sei a que horas chego.

– Você é o máximo! E quanto ao horário, não se preocupe. A gente espera você. Beijos, até a noite. Quer falar com o Rê?

– Não... falo com ele a noite. Beijo.

Suspirou novamente e desligou o fone. Olhou novamente pela janela. Ainda chovia. Olhou no relógio. Quase seis da tarde.

Desligou o computador e decidiu ir para casa. Como morava perto do trabalho, fazia o percurso a pé, todo dia. Foi até a recepção da empresa e descobriu que alguém havia levado seu guarda-chuvas por engano. Ou de propósito, tanto faz. O que importa é que teria que sair na chuva. Xingou baixinho e colocou o pé na rua.

A garoa fina e gelada no seu rosto fazia seu humor piorar a cada passo. Definitivamente, não iria naquele aniversário. Não depois de tomar chuva porque alguém havia roubado seu guarda-chuvas. Quando quase foi atropelado por uma Kombi – que ainda passou em cima de uma enorme poça, deixando-o mais encharcado do que já estava – decidiu que assim que colocasse os pés em casa, iria ligar para o amigo e inventar uma desculpa. Não iria de jeito nenhum naquela festa. Não hoje. Não com frio, chuva, livro novo, filmes alugados e pizza.

Chegou em casa e colocou o carnê do condomínio – que esperava pacientemente próxima à porta sabe-se lá desde que horas – sobre a mesa, ao lado da carteira e do maço de cigarros. Pegou o celular e ligou para o celular do amigo. Fora de área. Ligou para a casa dele. Ninguém atendeu. Ligou novamente para o celular. Ainda fora de área. Mandou uma mensagem de texto pedindo a ele que o ligasse e foi para o chuveiro.

Ficou cerca de dez minutos no banho quente e foi para o quarto, onde colocou uma calça de moletom e uma camiseta velha. Ligou novamente para o amigo. Fora de área. Merda de celular. Sentou no sofá e ligou a TV, encostando a cabeça numa almofada.

Acordou assustado. Olhou no relógio, quase dez da noite. Pegou o celular. Nenhuma chamada. Nenhuma mensagem de texto. Ligou para o amigo. A namorada dele atendeu, sem nem dizer alô:

– Você já está vindo?

– Oi, Dani...

– Você já está vindo, né?

– Então, Dani, eu...

– O Reinaldo está aqui esperando você. E eu também. Queremos muito ver você hoje. E a Beatriz também, mas ela ainda não chegou, falou rindo.

– Olhe, Dani...

– Não demora, ok? Vamos esperar você, mas não abusa!, riu novamente

– Dani...

– Beijos!, disse, antes de desligar.

Suspirou, desanimado. Não ia ter jeito, teria que ir nessa merda dessa festa. Foi ao quarto e começou a se trocar, fazendo força para demorar o máximo possível. Torcia para o telefone tocar e receber a notícia de que a festa havia sido cancelada. Calçou os sapatos, pegou o ceular, os cigarros e carteira e saiu de casa. E o telefone não tocou. Pegou um táxi e foi até o bar. No meio do caminho, ia olhando a chuva batendo na rua e começou a se perguntar se não valeria a pena dar meia-volta, ir para casa e não avisar ninguém. Afinal, haveria outros aniversários e daqui a alguns anos ninguém se lembraria que ele não tinha faltado nesse.

O telefone tocou.

Era engano.

Ficou mais puto ainda. Olhou para o motorista, que dirigia em silencio, ouvido uma estação de radio evangélica e sentiu um “meu amigo, mudei de idéia, me leva de volta para o lugar que você me pegou” querendo sair pela garganta. No dia seguinte, ligaria para ela, se desculpando, dizendo que o táxi bateu em outro carro, mas estou bem, obrigado, foi uma batida leve. Iremos jantar essa semana, eu você e o Reinaldo, para seu aniversário não passar em branco, não precisa se preocupar. Seus pensamentos foram interrompidos pelo taxista, que parou o carro e disse, sem esboçar nenhuma simpatia pela situação dele.

– Chegamos.

Então, é isso, pensou. Lá se vai minha sexta-feira. Pagou o homem e entrou no bar, correndo para escapar da chuva.

A Dani veio correndo dar um beijo e um abraço nele. Cumprimentou o Reinaldo, e a aniversariante – fazendo o papel de anfitriã – começou a apresentá-lo às suas amigas.

Ao ir embora para casa, no meio da madrugada – a chuva havia parado – concluiu que a festa havia sido boa. Ao menos, mais divertida do que ele imaginava. Havia dado boas risadas, colocado o papo em dia com o amigo e lembrado o tempo de colegial, quando se conheceram. E, de quebra, havia recebido a promessa da Dani que “é claro que você vai ser padrinho, eu estava brincando!”.

A Beatriz? A Beatriz não foi. “Parece que um tio dela sofreu um acidente”, explicou a Dani.

Mas acabou conhecendo a Isadora, amiga de faculdade da Dani, que seria madrinha de casamento ao lado do primo da noiva.

E, naquela noite, ao voltar para casa, ele nem desconfiava começariam a namorar na festa após a cerimônia, se casariam dois anos depois e teriam três filhos e cinco netos. Mesmo com a doença da sua mãe, que interromperia sua lua-de-mel – não era nada sério, graças a Deus -, com o caçula que incendiaria um dos sofás aos quatro anos de idade e com aquela briga boba que acabou virando uma tempestade num copo d’água e quase acabou com seu casamento, nem fazia idéia de que sua vida já estava toda planejada. E que seria uma boa vida.

Já deitado, no quarto escuro, quase adormecendo, lembrou-se do rosto da Isadora e sorriu sozinho. Mas adormeceu logo em seguida, e nunca mais – nem quando levantou para tomar água de madrugada – se lembrou desse sorriso.

Sim, seria uma vida maravilhosa. E ele nem desconfiava disso.

3 leitores:

L. Inafuko disse...

Isso me lembra muito a musica "O meu mundo ficaria completo (com você)" - Nando Reis e Cássia Eller.


Adorei!

Terá continuação?

Nash disse...

E eu pensando que quando encontrei o Champ-Vinyl eu tinha achado o pote de ouro no fim do arco íris. Não sabia que eram 2!

Grata surpresa conhecer o Chronicles!

Pâmela disse...

Aaah, que liiindo. E eu torçendo pra ele ficar em casa. --'

 

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