19 de abril de 2017

O Pedido do Cliente

O redator bebeu um gole de café e olhou pela janela, vendo os painéis estampados com o rosto do Líder Supremo na rua. Tudo indicava que seria um dia normal na agência. Todos os trabalhos estavam entregues de acordo com o briefing e ele poderia passar o dia colocando os e-mails em dia.

Ele ainda não havia terminado seu café quando viu a executiva de atendimento entrando na sala e caminhando apressada em sua direção. O redator sabia que isso significava problemas. Mas decidiu não tentar adivinhar qual seria o assunto e esperou que ela falasse.

– O cliente pediu algumas refações.

O redator suspirou e olhou pela janela. Pelo menos nos painéis, o cliente não parecia estar preocupado com refações. Estava olhando para o alto, como quem olha para o futuro, de forma grandiosa e sorridente. Um sujeito com um sorriso daqueles jamais pediria refações.

Por outro lado, um sujeito que sorria assim jamais pediria aquele tipo de trabalho.

– Quais refações?

– A maior delas é no vídeo. O cliente adorou a peça, mas acha que falta algo.

– Não falta nada. O briefing era mostrar os Estados Unidos destruídos. Isso está no vídeo.

– Que tal a Casa Branca?

– Nós conversamos sobre isso. Isso ia ficar parecido com Independence Day. As pessoas iam fazer piadas e a ideia é fazer com que elas sintam medo.

– Fale mais baixo. Ninguém pode saber que a gente viu esse filme para fazer a pesquisa. A amiga da minha irmã que conseguiu o DVD está desaparecida faz uma semana.

– Mesmo?

– Sim. Olha, não precisa ser a Casa Branca, mas algum monumento. Algo que as pessoas conheçam.

– Tem a bandeira pegando fogo. As pessoas não conhecem a bandeira?

– Mas ele quer mais destruição. Disse que pode aumentar o orçamento, desde que tenha algo famoso sendo destruído.

– Bom... A Casa Branca não ia funcionar.

– E Nova York?

– O que tem Nova York?

– Nova York não é conhecida?

– Acho que sim. Mas Nova York não foi explodida pelo pessoal do Oriente Médio?

– Eu acho que não explodiram a cidade inteira. Só um bairro.

– Olha, assim fica difícil. Eu posso mostrar o que o cliente quiser, mas eu preciso entrar na internet para pesquisar as coisas.

– Não. Nós não temos autorização.

– Eu não posso explodir um país sem saber o que tem no país. Imagine que vergonha seria se o vídeo mostrasse os Estados Unidos sendo destruídos, e aí tem uma imagem daquela torre na Itália.

– A torre fica na Itália? Eu achei que ficasse na França.

– Eu não sei. E se eu abrir a internet para procurar isso, eu sou morto. Ele não pode dizer especificamente o que ele quer que a gente exploda no vídeo?

– Não. Ele disse só “uma cidade americana”. E se você procurar algo no banco de imagens?

– O banco de imagens só tem foto do Líder Supremo e da sua família!

– Bom, eu vou ver o que eu faço aqui.

– Certo. Ah, ele também quer bombas maiores.

– Maiores? Mas as que eu coloquei têm quase cinquenta metros!

– Ele quer uma de trezentos metros.

– Trezentos metros?!

– Isso.

– Mas isso existe?

– Bom, vai estar no vídeo. E se vai estar no vídeo, é porque existe. Ou, pelo menos, o mundo vai achar que existe.

– Certo. Mas, e olha, desculpe eu ser chato, mas não adianta nada a gente ter uma bomba desse tamanho no vídeo e mostrar a cidade errada.

– Sim. Eu concordo. Confio em você.

– Acho que a estátua da Liberdade fica lá.

– Nos Estados Unidos?

– Isso. Ela fica perto de uma praia, mas acho que é ali.

– Uma estátua perto da praia? Isso não é o Cristo?

– Que Cristo?

– Aquele Jesus com os braços abertos. Isso fica perto da praia também.

– Não conheço isso. Mas, se é Jesus, deve ficar no Vaticano, ali na França.

– Na Itália.

– Pode ser. Bom, vamos lá. Mostrar uma cidade. Bombas maiores. Que mais?

– Acho que é só. Ah! Ele quer uma família sul-coreana.

– Oi?

– É. No meio da explosão. Ele quer uma família sul-coreana ali no meio da destruição.

– Mas fazendo o quê?

– Sei lá. Pegando fogo. Morrendo. Essas coisas que as pessoas fazem quando bombas caem em cima delas.

– Mas como eu vou colocar uma família sul-coreana no meio dos Estados Unidos? Como as pessoas vão saber que eles são sul-coreanos? Isso não tem como ser feito.

– Bom, se você não colocar um vídeo com os sul-coreanos, é bem capaz de sermos eu e você vestidos como sul-coreanos no lugar que a bomba explodir.

– Mas o problema é que... Espere! A bomba vai explodir mesmo?

– A bomba vai explodir no vídeo. E se ela vai explodir no vídeo...

– É porque vai explodir de verdade. Eu sei.

– Então é bom você colocar alguns sul-coreanos ali.

– Certo. Vou ver o que eu faço.

– Consegue o novo roteiro até a hora do almoço?

– Acho que sim.

O redator jogou o copo de café no cesto do lixo ao lado da mesa. Abriu o roteiro, pensando qual pedaço dos Estados Unidos poderia explodir quando a Executiva de Atendimento, já perto da porta, olhou de volta para ele e gritou.

– Ah, quase esqueci! Ele quer encerrar mostrando as nossas tropas marchando numa cidade americana! Mostrando as ruas e o povo americano completamente entregue!

O redator olhou de volta para ela.

– Eu não sei nem o lugar que vou explodir! Como eu vou arrumar uma cidade inteira? Que cidade ele quer?

– Vê se consegue algo até a hora do almoço?

O redator suspirou. Pensou em arrumar as coisas e ir embora, mas mudou de ideia quando olhou para o lado e viu a cadeira vazia. Lembrou-se do diretor de arte que se sentava ali. Havia desaparecido há dois anos, depois de ter afirmado que um briefing do cliente era irrealizável. A cadeira continuava ali, na agência, como exemplo.

Respirou fundo e olhou pela janela, em busca de inspiração. O Líder Supremo continua ali, olhando para o futuro. E sorrindo.

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1 leitores:

Varotto disse...

Se dá para tirar alguma coisa dessa desgraça é que já rendeu um roteiro e um belo conto.

 

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