22 de setembro de 2015

Avisos na Estrada

Era um grupo de amigos que se conheceu na faculdade. E, como muitas amizades que valem a pena ser escritas, aquela foi para sempre desde o primeiro dia. E, como poucas amizades que valem a pena ser escritas, o “para sempre” nunca foi combinado entre os amigos. Eles apenas eram para sempre.

Mas o problema é que o Tempo nunca gostou de coisas que “são para sempre”. E, cá entre nós, isso é compreensível. Afinal, quando as coisas parecem ser eternas, a passagem dos anos deixa de fazer diferença, e isso certamente reduz bastante o índice de realização profissional na vida do Tempo, que sabe que o ponto alto do seu trabalho é assustar as pessoas com a sua velocidade. Então, antes de julgá-lo, pense que você provavelmente pensaria como ele.

Conforme os anos se passaram, os amigos continuaram amigos e o Tempo percebeu que devia fazer algo a respeito. Afinal, cada novo encontro tinha menos cabelo e mais barriga, mas eles pareciam não se importar muito com isso, já que as risadas continuavam as mesmas. E, a cada novo encontro, o Tempo se irritava com aqueles homens que se davam ao direito de ter preocupações de meninos sempre que estavam juntos.

Não demorou até que o Tempo levasse isso para o lado pessoal. Estava na hora daqueles amigos começarem a temer a passagem dos anos, e o Tempo sabia que o melhor caminho para isso seria separá-los, pois ninguém tem tanto medo do futuro quanto uma pessoa solitária. Assim, jogou sujo e apelou para a Geografia. Decidiu que jogar um em cada cidade faria com que esquecessem uns dos outros, e encerraria aquele desaforo.

Deu certo e não deu. Deu certo porque passaram a se ver muito menos (e o Tempo ficou satisfeito com isso). Mas o problema é que sempre que se encontravam, todos voltavam aos dezoito anos, como se os anos não tivessem passado – numa atitude que o Tempo já encarava como clara provocação pessoal. E as coisas pioraram ainda mais quando o homem inventou a internet e todas aquelas maneiras de encurtar a distância entre amigos.

E foi justamente graças à internet que o primeiro deles, ao completar quarenta anos, fez uma promessa aos amigos.

– Já que estou andando na frente, vou avisando vocês sobre a vida depois dos quarenta.

Foi assim que nasceu um novo costume entre os amigos. Toda primeira segunda-feira de cada mês, o mais velho, como um batedor que vai à frente deixando cartazes em árvores ao lado da estrada, enviava um e-mail para os amigos, com dicas e observações sobre a vida depois dos quarenta. No começo, eram recados bem humorados com pequenas observações.


Gordura de carne faz mal, mas faz mais mal ainda se você comer na frente da esposa. Criem coragem e tirem a gordura da carne se não estiverem sozinhos.


Evitem camas com colchões muito moles. Isso, claro, para dormir, porque se algum de vocês ainda pensa em deitar para fazer qualquer outra coisa, é porque o colchão ainda não vai fazer diferença.


Idade limite para tomar uísque nacional: 46 anos. Com 47 os efeitos no dia seguinte parecem ser irreversíveis. Com 48, é quase um suicídio assistido pelo garçom.


Acabou se tornando a principal fonte de comunicação entre os amigos. Ou, ao menos, a mais frequente. Claro, os amigos ainda se encontravam sempre que podiam. Mas os encontros começaram a se tornar cada vez mais raros. O Tempo poderia até ter se orgulhado de finalmente ter separado os amigos... Se não fossem os malditos e-mails do começo do mês.

Sim, porque eles nunca pararam de chegar. O mais velho já estava desbravando os anos cinquenta, e os amigos seguindo atrás, aprendendo com suas dicas.


Depois de tantos anos, finalmente entendi o significado de desespero: é quando você não consegue dar a segunda pela primeira vez.


 “Eu sempre li que uma taça de vinho por noite ajuda a manter a lucidez. Mês passado eu descobri que uma garrafa não multiplica esse efeito. Pelo contrário.


Brincar com o neto é a segunda coisa mais legal do mundo. A primeira é quando o neto dorme.


Lembram quando eu disse que desespero é não conseguir dar a segunda pela primeira vez? Eu estava errado. Desespero é não conseguir dar a primeira pela segunda vez.


Entre um e-mail e outro, o Tempo fazia aquilo que ele faz como ninguém e passava rápido demais. Logo, não se viam mais. Falavam esporadicamente por telefone, mas os encontros pessoais começaram a rarear até desaparecer por completo. Os anos foram pesando nas costas de todos...

Mas nenhum deles parecia se preocupar muito com isso. Afinal, por que temeriam o futuro se eles tinham um amigo que andava alguns metros à frente, mapeando o caminho e os prevenindo sobre qualquer surpresa?

Sim, estavam seguros. Sabiam que o caminho era escuro (e, muitas vezes, frio, como o crescente número de meias de lã nas gavetas de todos comprovava) – mas não tinham porque temer. Todas as pessoas da mesma idade não sabiam direito o que esperar da velhice e morriam de medo do amanhã, mas eles não. Sempre que a idade cobrava seu preço, não se mostravam surpresos, afinal, já sabiam o que ia acontecer.

Até que um dia os e-mails pararam de chegar. A primeira segunda-feira do mês chegou e, pela primeira vez em décadas, não trouxe o e-mail. Curiosamente, nenhum deles se perguntou o que teria acontecido. Estava claro que existia alguma coisa perigosa na estrada, bem perto de onde estavam. Não fazia ideia de como era o monstro, mas sabiam que ele estava coisa de dois anos, talvez três, à frente. E havia pegado o batedor.

Foi o primeiro dia que se preocuparam com o futuro. E foi o primeiro dia, desde a época que os amigos se conheceram na faculdade, que o Tempo sorriu, vitorioso. No final das contas, a vitória era sua. Pois era assim que a coisa devia ser.

Mas a preocupação dos amigos e o sorriso do Tempo duraram apenas alguns minutos. Afinal, quando o mais velho morre, esse posto automaticamente passa para outra pessoa. E foi assim que o segundo mais velho deles mandou um e-mail para todos.

Não dizia nada sobre o que havia acontecido com o mais velho – nem mesmo sobre o fato dos e-mails terem parado. Na verdade, era apenas uma linha.


Eu assumo daqui em diante”.


Foi nesse momento que o Tempo esfregou o rosto com as mãos, sentindo um profundo cansaço mental. Suspirou, e resmungando foi até a sala e ligou a TV. Pela primeira vez na história, tudo o que o Tempo queria era que o dia acabasse.

Malditos moleques que não levavam nada a sério.

7 leitores:

Marina disse...

Chorei. Lindo, Rob.

Anônimo disse...

Absurdamente bom!
Um dia escrevi que "a felicidade se assusta com essa coisa de contar calendários".
Às vezes é bom fingir que o tempo não é implacável...

Juliana disse...

rob... <3

Igor Lemes disse...

Ótimo texto, lágrimas brotaram dos meus olhos.

Fábio Panzoldo disse...

Muito inteligente trazer o ponto de vista de algo que é inexorável e que, a princípio, não se incomoda ou tem preocupações. Fiquei imaginando como seria o tempo puto da vida indo assistir TV kkkkk

Leonardo Gouvea disse...

Bom demais Rob! Ainda mais sabendo a origem da história (ouvi no podcast). Dá um bom filme!!

Diachinni disse...

Muito, muito bom!

Espero consguir um dia passar tanta emoção nos meus textos.

 

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