4 de julho de 2015

A Menininha que Voou No Meio das Estrelas

Teve um sábado em que a Menininha percebeu que havia uma toalha esquecida em cima de sua cama.

Levantou-se e aproximou-se do pano, estudando-o com cuidado. Não. Não conhecia aquela toalha. Talvez fosse da sua mãe ou do seu pai, mas definitivamente não era sua. Era preta e todas suas toalhas tinham bichinhos. Era grande demais para ela. Apanhou a toalha e sentiu o tecido felpudo em suas mãos.

Mas também sentiu algo mais. Algo que nunca havia sentido antes. E foi assim que ela amarrou a toalha em seu pescoço, deixando a toalha cobrir suas costas inteiras e indo até o meio das suas pernas.

Agora ela era uma Menininha com uma Capa.

E, com sua capa tremendo ao vento, saiu voando de seu quarto para testar seus poderes. Flutuou até a cozinha onde viu o papai lavando a louça. Voou ao redor dele e voltou para a sala, onde a mamãe assistia a um programa na televisão ao lado da vovó.

Seus poderes não eram necessários ali, então decidiu patrulhar o resto da casa. Voou pelos corredores, entrou no quarto do papai e da mamãe, no escritório onde o papai trabalhava e vasculhou também os banheiros, procurando algum sinal de perigo em todos os cantinhos, até mesmo dentro dos armários. Não encontrou nada, então voou para a lavanderia.

Estava voando por cima da máquina de lavar quando ouviu um latido vindo de baixo.

Seu cachorro estava latindo para chamar sua atenção. A Menininha deslizou pelo ar e pousou suavemente ao lado do cãozinho que pulava ao seu redor, fazendo festa. Foi quando teve uma ideia. Deixou o bichinho cheirar sua toalha, sabendo que assim um pouco do poder passaria para ele. Dito e feito. Assim que o cachorrinho cheirou a toalha, ele também começou a voar. E decolaram juntos.

Agora, ela era uma Menininha com uma Capa e um Parceiro.

Juntos patrulharam a casa mais uma vez. Ela voando com o punho apontado para frente, e seu parceiro – que agora também tinha uma pequena capa – seguindo-a de perto. A Menininha e o Cãozinho estavam juntos, prontos para enfrentar todos os perigos, derrotar todos os vilões e combater as injustiças.

E foi assim com sua Capa e seu Parceiro que a Menininha atravessou a sala voando e entrou no corredor.

E logo estava flutuando sobre a cidade usando sua velocidade incrível. Passou por cima de casas e prédios sempre seguida pelo Parceiro. E subiu para sempre, subiu até o infinito, furando as nuvens de algodão e chegando perto das estrelas que ela sempre pensou que eram pedacinhos pequenos de cristal.

E encontrou o Perigo.

Era uma revoada de naves espaciais que vinham até a Terra raptar o papai, a mamãe e a vovó. Todas elas eram pilotadas por grilos iguais aqueles que do jardim da sua casa. Eram grilos verdes que cantavam e esfregavam as patas umas nas outras, como se estivessem sempre planejando algo.

Mas havia uma nave maior. Uma nave grande e pilotada por aquele Homem Mau do programa de TV que o papai assistia. E o Homem Mau percebeu que ela estava ali com o Cãozinho, e começou a rosnar de raiva porque homens maus estão sempre com raiva de tudo. E ordenou que as naves-grilo a atacassem.

Foi uma batalha difícil. As naves a cercaram, mas ela tinha super velocidade e hiper força e ultra resistência. Socou as naves que estavam mais próximas, enquanto o Cãozinho atacou as outras. O Homem Mau pareceu ficar ainda mais bravo, e ela pegou uma das naves grilo e girou com força e a atirou para longe, enquanto o Cãozinho latia para espantar os outros grilos.

O Homem Mau estava cada vez mais zangado. Ele xingava e socava os controles da nave e decidiu atacar por conta própria. Sua nave virou um tesourão assustador, igual ao que a mamãe usava para cortar o frango e não deixava a Menininha encostar para não cortar o dedo, e se aproximou disparando raios na direção do Cãozinho.

A Menininha sabia que precisava proteger o Cãozinho. Juntou sua força e respirou fundo e assoprou com força, fazendo com que a nave tesourão do Homem Mau voasse para longe, se perdendo no meio dos pedacinhos de cristal e indo muito longe, mas assim muito longe mesmo, indo até Lua que estava redonda e grande e que o titio tinha falado uma vez que era feita de queijo.

Ouviu o Homem Mau gritando de raiva enquanto ela comemorava e o Cãozinho dançava e latia ao seu redor. O Homem Mau agora estava preso na Lua Feita de Queijo e nunca mais ia incomodar o papai ou a mamãe ou a vovó. Ela havia vencido com seus poderes e todo mundo na escola ia morrer de inveja dela por causa disso.

E ela também não via a hora de contar isso para o papai e a mamãe e a vovó.

Mas assim que pensou isso começou a sentir fraca. Era como se estivesse perdendo seus poderes. Tentou continuar flutuando, mas não conseguiu e começou a cair, junto com o Cãozinho. Sabia que estava caindo por algum motivo que estava dentro dela, mas não sabia o que era.

E girou e girou e girou no meio dos pedacinhos de cristal, vendo a bolinha azul que ela conhecia de desenhos animados ficar cada vez maior até ficar uma bola azul que dava para ver a praia e a terra e os prédios e girou e girou e girou até a bola azul virar uma enorme bolona azul, caindo ao lado do Cãozinho que latia assustado e sentindo aquela coisa estranha que parecia um vazio e que impedia a Menininha de voar e passou descendo feito um raio pelas nuvens de algodão e logo estava caindo no meio dos prédios, vendo as janelas passando em raios de cores ao seu redor. Tentou voar mais uma vez, mas não consegu...

Aterrissou em algo macio.

Macio e firme.

Abriu os olhos e viu que estava nos braços do papai, que a colocava com cuidado na cama. A mamãe estava ao lado dele, e a Menininha tentou falar que tinha vencido o Homem Mau e que agora tudo estava bem e que nem ele nem os grilos iam voltar... Mas não conseguiu falar. Estava cansada demais.

Tudo o que ouviu foi o papai dizer baixinho para a mamãe que ela brincou tanto hoje que pegou no sono ali mesmo no corredor, brincando com aquela toalha. E voltou a dormir sentindo sua mãe beijando sua testa e suspirando um “dorme bem, meu amor”.

Naquela noite, a Menininha sonhou que estava de volta ao espaço lutando contra o Homem Mau e sua nave tesourão e os grilos. E ela fazia a mesma coisa, voava e socava, lutava e assoprava e derrotava todo mundo.

Mas desta vez o papai e a mamãe e a vovó estavam ali com ela, voando no espaço.

E desta vez ela não caía.

Ela continuava dançando e girando e flutuando no meio dos pedacinhos de cristal junto com o Cãozinho, com o papai, com a mamãe, com a vovó. E de repente todo mundo que ela gostava estava ali. E ela não caía. Ela apenas ria e sorria e ria mais um pouco, feliz da vida.

Pois seus poderes não vinham da toalha amarrada no pescoço, mas sim do amor que sentia. Foi por isso que ela caiu na primeira vez, pois estava sozinha. Quando ela ficou sozinha, seus poderes acabaram. Seus poderes vinham do amor. Não era a toalha. Era o amor, mas então seu ponto fraco – porque todo herói tem um ponto fraco – era a saudade.

Foi nesse dia que a Menininha percebeu que o amor lhe permitia voar, mas a saudade poderia fazer com que ela caísse. E, para nunca mais cair, jurou ainda dançando no meio dos pedacinhos de cristal, junto com o papai e a mamãe e a vovó que nunca ficaria longe de quem ela gostava.

Deitado aos pés da sua cama, o Cãozinho cuidava para que isso fosse verdade. Ela jamais ficaria sozinha, mesmo que não soubesse disso. Pois é isso que parceiros fazem: eles não nos deixam sozinhos.

E, respirando fundo, o Cãozinho continuou observando a Menininha dormir.

E sorriu vendo que ela estava em paz. Em paz e voando.

1 leitores:

Juba disse...

Lindo. Lindo. Li com o coração na mão, tive tanto medo... Que bom que o final foi feliz. Essa crônica fez meu dia.

 

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