1 de dezembro de 2014

Nelson Rodrigues 2.0

Para todo mundo, cartório significa fila. Mas não para Antônio. Para ele, o cartório era sua vida.

Andava pelas salas e corredores desde quando o pai, Dr. Freitas – fazia questão de ser chamado de doutor, alegava que era atestado de seriedade e correção – era o dono do negócio. Cresceu lá dentro, entre documentos e cópias autenticadas e aprendeu todos os macetes da coisa. Parece que foi calculado. Quando sabia tudo, o pai morreu. E já no velório sua mãe avisou:

- O negócio agora é seu.

Antônio abriu a boca, não de espanto, mas porque ainda não havia pensado nisso.

- O cartório do seu pai agora é seu.

Voltou para casa e se pôs a pensar. Agora era dono de um cartório. Chamou a esposa, Veridiana, mulher correta, mãe e dona de casa por vocação e disse que as coisas agora iam melhorar. Ela podia até mesmo fazer aquela reforminha na área de serviço. Sentia saudade do pai, mas agora o cartório, era dele e agora era hora de trabalhar e ia ficar muito pouco tempo em casa nas próximas semanas.

- Mas não vai te faltar nada, minha filha. Isso eu garanto!

Veridiana queria a reforma, mas não queria ficar sozinha em casa. Pediu:

- Posso chamar minha irmã?

- Que irmã?

- Minha irmã Rute. Para passar uns dias aqui comigo. Não gosto de ficar sozinha em casa. O tempo não passa.

Antônio nem ouviu direito. Disse que sim, que tudo bem, que era bom ela ter companhia.


No Cartório

Alguns dias depois, quem apareceu no cartório foi o Dr. Vargas, deputado eleito no terceiro mandato. Pilar da comunidade, Dr. Vargas havia desviado as linhas de ônibus para o bairro e prometia demolir um prédio abandonado ali perto da praça até o final do ano. Antônio ouviu a multidão antes que o político chegasse ao cartório, e só entendeu o barulho quando o Jonas, menino negro que trabalhava na recepção, apareceu em sua sala:

- Doutor Antônio, o deputado está aí para te ver!

Antônio levantou arrumando a gravata e colocando o terno. Foi recebido com abraços pelo Doutor Vargas, que queria uma palavrinha com ele.

- O senhor aceita um café?

- Aceito, meu filho. Café sempre diz que tem papo bom vindo aí.

Com duas xicarazinhas delicadas nas mãos, conversaram. Vargas quis saber como estavam as coisas, prestou respeito ao pai Dr. Freitas – homem corretíssimo, exemplo de cidadão! – e se o movimento do cartório estava bom. Antônio fez que sim.

- Muita gente tirando documento esses dias.

Depois do café, o deputado colocou um envelope amarelado na mesa.

- Preciso que você lavre esses documentos todos.

Antônio não se fez de rogado e apanhou o envelope, tudo para agradar o ilustre. Mas antes que desse uma olhadela nos papeis, o Vargas já avisou que seu nome não podia aparecer em nada ali.

- É tudo coisa do prédio da esquina. Vou demolir aquela bomba, e esses são os documentos do terreno. Mas está tudo no nome de um amigo. Preciso que você ateste tudo aí. O carimbinho, sabe?

Antônio fez que sim com a cabeça, mas pareceu titubear.

- Vai ter um centro de compras ali. Vai ser coisa grande, mas para isso preciso dos documentos carimbados. Assim já vai estar tudo vistoriado.

- Como assim vistoriado?

- Tudo, meu filho. Se você carimbar esses papéis aí, meu amigo já pode começar a tocar a obra.

Antônio fez menção de puxar os papeis, mas Vargas foi mais rápido.

- Meu filho, não perde tempo lendo. Deixa eu te falar. O térreo vai ter uma loja gigante que ainda está vazia. O que você acha do seu cartório ir para lá?

- Quem dera, doutor! Acabei de assumir o negócio, nem tenho como mudar agora.

Mas é para isso que servem os amigos, disse o deputado. Bastava assinar, o prédio era demolido e a obra começava. E o cartório podia mudar. Um lugar mais bonito, com um ponto de ônibus na frente. Tinha até mesmo garagem pro carro de Antônio, que assim não precisava mais parar no prédio do lado e se molhar todo quando estava chovendo.

- Mas esses documentos...

- Tudo legal, meu filho. Tudo nos conformes. Fiz isso muitas vezes com seu pai. Homem corretíssimo!

Antônio nem leu nada. O deputado foi embora com os documentos assinados, e pediu que mandasse lembranças à senhora sua mãe.

Poucos meses depois, o cartório havia se mudado. Um lugar mais elegante e arejado. Tinha até ar condicionado! E os negócios iam cada dia melhor para Antônio. De vez em quando, o deputado aparecia para um café, com uns documentos embaixo do braço. Antônio carimbava tudo.

Em sua casa, a reforma da área de serviço estava acontecendo. Veridiana parecia cada dia mais feliz, escolhendo os azulejos e as torneiras ao lado da irmã, que havia ficado de vez em sua casa.


Na Sala

Foi numa noite de chuva que Antônio chegou e encontrou a mulher dormindo. Era tarde e por causa do trabalho Antônio chegava tarde todas as noites. Mas aquele dia Veridiana estava com dor de cabeça e foi deitar mais cedo, deixando o jantar do marido no forno, com o arroz por cima do feijão, como ele gostava desde menino. Dona de casa exemplar.

Quem estava acordada era a cunhada. De camisola vendo TV na sala escura. Antônio esquentou o jantar e começou a comer na mesa da cozinha.

- Quer companhia no jantar?

Era Rute parada na porta. Sua camisola mostrava mais que escondia. Rute era mais nova que Veridiana e estava com os cabelos negros soltos pela primeira vez. Sua pele era branca, suas coxas roliças e seus seios mexiam conforme ela se respirava.

Antônio nem respondeu e Rute estava sentada ao seu lado.

- Está com fome?

- Sim, ele disse, arrumando o feijão no prato.

- Homem casado não deve jantar sozinho.

Ele não respondeu. Estava com a boca cheia de arroz. E sentiu o pé de Rute em sua perna. Ela levantou os cabelos se espreguiçando, mostrando um pedaço da nuca que Antônio achou melhor nem ver.

- Está calor. Detesto calor. Fico mole.

- Esquentou mesmo, disse Antônio, passando um pãozinho no prato.

- Fico sem defesa. Ainda mais quando estou sozinha.

- Acabei de jantar, Antônio respondeu.

- Eu continuo com fome, Rute devolve. Faz tempo que estou com fome.

- Minha filha...

Rute coloca o dedo na boca de Antônio pedindo silêncio. O corpo de Antônio treme. Levanta e apaga a luz da cozinha. Antônio vê a silhueta da cunhada andando pela cozinha.

- Estamos sozinhos, ela diz.

Antônio não sabe o que falar. Na verdade, nem sabe se quer falar algo.

- E você não me vê. Pode fingir que sou quem você quiser. Até a Veridiana. Eu sei que você sente falta dela por causa do seu trabalho. Quer que eu seja minha irmã?

A voz dela era um sussurro, como se estivesse contando um segredo.

- Não precisa ser minha irmã. Pode ser alguém do seu trabalho. E esta mesa pode ser sua mesa. Ninguém vai saber.

Ele se levanta. Ela diz:

- É tudo em família.

Antônio esbarra no prato.

- Tudo aqui na cozinha. Tudo aqui dentro de casa.


No quarto

Antônio fumou três cigarros na janela. Acendeu o segundo na brasa do primeiro, e jogou o terceiro pela metade janela afora. Mas não conseguia dormir. Assim, se levantou e foi para o computador, tomando cuidado para não acordar Veridiana.

Na sala, Rute também estava no computador. Estava nas redes sociais reclamando do homem que mexeu com ela na rua, esbravejando que havia se sentido como um pedaço de carne, e que ninguém respeitava mais nada seu corpo não era um pedaço de carne. Antônio também estava nas redes sociais, reclamando do novo imposto do governo corrupto que prejudicava as pessoas de bem que queriam apenas trabalhar.

E Veridiana ali, dormindo e sonhando com a reforminha.

3 leitores:

Adriano T. disse...

Batata!

Cesar da Mota Marcondes Pereira disse...

Sensacional!
Homenagem máxima ao mestre!

Grande abraço!

Varotto disse...

Putz!

 

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