23 de fevereiro de 2014

Identidade



Vivia confortável no meio da multidão.

E ia pulando de assunto em assunto, mudando seu estilo de vida e acompanhando o mundo ao seu redor.

Quando escrever se tornou moda, ele não contou para ninguém que sempre havia detestado ler e criou um blog. Quando todos começaram a ouvir aquela banda antiga, ele não contou para ninguém que sempre achara a música ruim, abandonou o blog e comprou todos os discos. Quando aquela raça de cachorros peludinhos entrou na moda, ele não contou para ninguém que nunca soube cuidar de cachorros deixou os CDs de lado e comprou um filhote. Quando todos começaram a fotografar, ele não contou para ninguém que nunca havia sentido vontade nem de segurar uma câmera e deixou de cuidar direito do cãozinho porque se matriculou num curso. Quando o assunto do momento se tornou hambúrguer, ele não contou para ninguém que desde criança gostava mais de cachorro quente e largou o curso, pois usava o dinheiro para visitar hamburguerias famosas. Quando o assunto do momento se tornou política, ele não contou para ninguém que nunca havia dado importância a pensar em quem votar e largou o curso para se envolver em manifestações. Quando todos passaram a venerar um destino turístico, ele não contou para ninguém que detestava viajar e sumiu das manifestações, pois estava passando quinze dias no lugar. Quando gatos se tornaram o bicho do momento, ele não contou para ninguém que era alérgico aos pelos e abandonou os planos de uma nova viagem para cuidar do novo filhotinho. Quando todos começaram a protestar pelos direitos civis, ele não contou para ninguém que queria ter mais direitos que os outros, e tirou o gato do colo porque precisava postar protestos inflamados na internet. Quando chapéus entraram na moda, ele não contou para ninguém que achava aquilo incômodo, e saiu da internet para poder desfilar na rua com seu chapéu novo. Quando aquele diretor de cinema entrou na moda, ele não contou para ninguém que sempre havia achado chato, e voltou para casa para decorar todas as falas do filme mais conhecido do sujeito. Quando as pessoas começaram a discutir se o hábito de todos copiarem tudo o que os outros faziam era saudável, ele não contou para ninguém que não fazia a menor ideia de quem ele era de verdade e passou a menosprezar publicamente quem fazia isso, acusando as pessoas de não ter personalidade própria.

Vivia tranquilamente dentro da multidão.

3 leitores:

Elise Garcia disse...

Ai, Rob, que agonia! Sério, foi agoniante conseguir terminar de ler o texto! o.O

[o que significa que, só pra variar, escreves bem pra caramba =D]

Varotto disse...

Triste saber que é não ficção.

Kell Bonassoli disse...

Praticamente o perfil padrão da geração Y

 

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