20 de outubro de 2012

Príncipe


Sabia-se príncipe.

Residia num palácio dourado, adorado por criados e reverenciado pelo povo. Experimentava jantares suntuosos e vinhos perfumados, ouvindo cantigas e poemas que exaltavam seu nome.  Adorado pelo povo, era justo e honesto, cercado de sorrisos e de olhos brilhantes. Caminhava pelas ruas do reino experimentando a sensação de ser adorado e venerado, sentindo-se admirado, espalhando ondas de felicidade colorida a cada passo.

Sabia-se príncipe.

Íntegro e correto, e tinha a consciência de que outros reinos invejavam o seu. Reinos vizinhos almejavam a mesma felicidade que propiciava ao seu povo, os batentes e janelas de ouro, as paredes brancas e as ruas limpas. Sabia-se o príncipe das famílias completas e felizes. Escolas repletas de crianças, ruas repletas de sorrisos, músicas repletas de alegria, histórias que ecoariam pela eternidade.

Sabia-se príncipe.

Mas somente por se recusar a aceitar o fato de ser pequeno e mesquinho a ponto de ter perdido família e emprego, de ter destruído sonhos e sorrisos, de estraçalhar vidas. Entregue à bebida e ao nada, foi para as ruas. Sujo. Maltrapilho. Anônimo. Cada vez mais agressivo e violento, com feridas e cicatrizes de batalhas perdidas e tentando curar a loucura da mente com a loucura do álcool.

Sabia-se príncipe.

Encarcerado dentro da própria realidade e governando um reino invisível e inexistente. Detestado pelas pessoas, ignorado pela sociedade, esquecido pelos antigos amigos. E vivia cercado de sujeira e restos de comida apodrecida, de sacos de lixo revirados com as unhas sujas. Reinando há anos de dentro de um castelo construído a partir de uma caixa de papelão, esquecida ao lado do muro da igreja.

Sabia-se príncipe por saber nada.

1 leitores:

cmmarcondes disse...

E é ao saber-se Príncipe que soube saber seu não-saber...
Fenomenal, Rob!!!

 

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