16 de novembro de 2011

The Gentle Art of Making Noises

Roddy Bottum: Tem café?

Billy Gould: Tem. Ali na mesa.

Roddy Bottum: Alguém mais quer?

Mike Bordin: Eu quero.

Jim Martin: Não, obrigado.

Billy Gould: Pessoal, precisamos falar sobre o próximo disco.

Mike Bordin: Próximo disco?

Billy Gould: Todos os fãs estão pedindo. Além disso, não gravamos nada desde 1997.

Roddy Bottum: Faz tanto tempo assim?

Mike Bordin: Faz.

Billy Gould: Talvez seja hora de fazermos algo novo.

Roddy Bottum: Seu café.

Mike Bordin: Obrigado.

Roddy Bottum: Enfim… Disco novo? Topam?

Jim Martin: Se vamos conversar sobre isso, o Patton não deveria estar aqui?

Billy Gould: Eu não avisei ele sobre a reunião.

Mike Bordin: Como assim?

Jim Martin: Nós vamos gravar o disco sem ele?

Billy Gould: Evidente que não. Eu só acho que a reunião seria mais produtiva sem ele.

Roddy Bottum: Faz sentindo. Vocês se lembram da última?

Jim Martin: Aquela em que ele trouxe uma casca de coco e ficou imitando o som de um relógio a reunião inteira?

Billy Gould: Não, essa foi a penúltima. A última foi com a gravadora, para negociar um disco ao vivo, e ele ficou urrando em polonês cada vez que pediam a opinião dele.

Mike Bordin: Verdade. Eu me lembro disso.

Billy Gould: Mesmo assim, ele não poderia ter vindo agora. Ele está na aula de húngaro.

Jim Martin: Húngaro? O que é isso?

Mike Bordin: É uma língua. Ele está aprendendo húngaro?

Billy Gould: Não, somente os palavrões. Devem ser umas três aulas.

Mike Bordin: Mas nós vamos tocar na Hungária?

Roddy Bottum: Hungria. Não sei. Acho que não. Aliás, acho que este país nem existe mais.

Jim Martin: Enfim... E o disco? Nós temos algo composto?

Billy Gould: É justamente o que eu queria conversar. O que acham de começarmos a compor algo? Eu tenho algumas linhas de baixo escritas...

Mike Bordin: Certo, podemos começar a ensaiar. Mas quem irá trabalhar as letras com o Patton?

Jim Martin: Esta é a parte mais difícil.

Billy Gould: Lembram-se daquela vez que ele quase se arrebentou no estúdio, porque ele cismou de subir na cortina e cantar lá de cima?

Roddy Bottum: Eu lembro! Quando ele caiu, achei que ele tinha quebrado algo, pelo jeito que berrava. Larguei o teclado e fui correndo até ali, mas ele estava apenas cantando.

Jim Martin: Sim, ele é bem difícil dentro do estúdio.

Mike Bordin: Sem falar nas roupas. Lembram-se quando ele insistiu que todos nós usássemos roupas de sacerdotes medievais?

Billy Gould: Se me lembro? Até hoje eu estou assado por causa disso. Calor infernal!

Roddy Bottum: Mas as roupas são de menos. O problema é ele mesmo. Ele está cada dia mais incontrolável.

Jim Martin: Nós deveríamos conversar com ele.

Billy Gould: Não adianta, ele não ouve ninguém. Sabe que um dia eu falei com ele, pedi para ele se comportar dentro do estúdio? Disse que até os técnicos ficavam assustados com ele e com aqueles barulhos que ele faz com a boca.

Mike Bordin: E ele?

Billy Gould: No dia seguinte, ele apareceu com uma fita e tocou. Ele gravou escondido tudo o que falei, mixou junto com cães latindo e cantou uma música do Tom Jones por cima de tudo.

Jim Martin: Do Tom Jones?

Billy Gould: Ao menos, é o que ele disse. Eu não reconheci nada, ele misturou trechos em espanhol e em chinês.

Jim Martin: Meu Deus... Ele fala chinês?

Billy Gould: Só os palavrões. E o pior é que ficou bom.

Mike Bordin: Vamos usar no disco!

Billy Gould: Não, ele perdeu a fita. Enfim, o que vocês acham? Disco novo? Ou sair em turnê?

Mike Bordin: Um disco novo seria ótimo.

Jim Martin: Pessoal, eu adoraria gravar. Mas estamos falando de três ou quatro semanas dentro de um estúdio com o Patton... Nós não temos mais vinte anos.

Roddy Bottum: Isso é verdade. A última vez que gravamos algo, eu precisei passar uma temporada sozinho na minha casa de campo. Quase tive um colapso nervoso.

Mike Bordin: E quando ele aparece com aquela sirene no estúdio? Ele liga aquele negócio e começa a minha enxaqueca!

Jim Martin: Meu problema é com os berros mesmo. Aliás, como ele faz aquilo, alguém sabe?

Roddy Bottum: Esse é o problema. Ninguém sabe fazer isso. Ninguém canta como ele hoje em dia.

Billy Gould: Se conseguíssemos encontrar um jeito de controlá-lo...

Mike Bordin: Impossível. Lembra-se daquela vez que tivemos que amarrá-lo no estúdio?

Billy Gould: Lembro. Ele se soltou das cordas em menos de três minutos. Grunhindo daquele jeito.

Jim Martin: Vocês lembram o que ele fez depois? Colocou a corda na boca e começou a tocar aqueles negócios de capoeira que aprendeu no Brasil.

Mike Bordin: Eu não me lembrava disso! Ele cantou com a corda na boca?

Jim Martin: Não, ele estalava a língua na corda, perto do microfone, e tirava um som da corda! Lembro que ele pediu para o técnico de som reproduzir isso em velocidade acelerada, que ele queria usar transformar na letra de uma música.

Billy Gould: É o que Roddy disse. Ninguém consegue fazer isso. Só nosso vocalista.

Mike Bordin: Mas o preço é alto. Aquela mania de ficar falando conosco dentro do estúdio com o megafone...

Billy Gould: Dentro do estúdio? Toda vez que ele me liga, ele coloca o celular naquela porra! É horrível!

Jim Martin: Bom, pessoal, o que faremos? Disco novo? Turnê?

Billy Gould: Eu sou a favor. O que vocês... Que barulho é esse?

Jim Martin: Parece uma sirene. Vem da rua.

Roddy Bottum: Sirene? Meu Deus, é o Patton! A aula de húngaro deve ter acabado e ele veio para cá!

Jim Martin: É ele mesmo! Olhem lá fora! Ele está de roupão, com aquela maldita sirene!

Billy Gould: Bem, paciência. Vou abrir a porta.

Mike Bordin: Eu vou até a farmácia. Minha enxaqueca está começando. Merda de sirene.

Jim Martin: Escondam as xícaras! Ele me contou que está aprendendo a tirar som de xícaras!


(Dedicado a banda Faith No More,
que apresentou um dos maiores
shows que vi na vida, no SWU 2011)


5 leitores:

Elise disse...

Ok, o Patton é surreal, eu me convenci mais um pouco disso agora. Quer dizer, acho que vou me convencer completamente assim que eu conseguir parar de rir... =P

Leo disse...

Sensacional! Escreveu de um jeito que consegui imaginar cada detalhe. :D

Glauciana disse...

Fantástico! A melhor: Meu Deus... ele fala Chinês? Só os palavrões.

O Mike Patton é uma coisa assim meio anti-heroi, like Macunaíma, deve ser por isso que é tão atraente. Só pode. Não há outra explicação ;)

Você tem talento, garoto. Parabéns, parabéns!

Luis Rangel disse...

Parabéns velho. Até eu que não conhecia a banda ri muito do texto. Tem talento mesmo.

Alex Rolim disse...

HAHAHA Perfeito.. ou quase... só faltava o Jim Martin ter voltado com eles. But whatever, FNM é FNM. Mike é gênio, os caras são foda, mas juntos fazem FNM a melhor banda ever (na minha opinião).
Parabéns pelo texto. ;)

 

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