16 de julho de 2011

#24Horas24Crônicas #3 - Subterrâneo

(tema sugerido por: @mariehauer)

Era hora do rush. O metrô lotado chacoalhava suavemente pelo subterrâneo da cidade, levando as pessoas de volta para casa.

Estavam todos ali. O homem que perdera o emprego e pensava em como pagar suas contas a partir de agora. A senhora de idade que não sabia como contar aos filhos que o tumor era maligno. A mãe que segurava seu filho no colo feito um tesouro, amaldiçoando as bebedeiras do marido. O rapaz que não sabia não ter dinheiro para pagar o próximo semestre da faculdade. A garota apaixonada que escrevia uma carta para a prima que havia se mudado para a Europa. O casal de namorados que brigava no meio do vagão.

Enquanto o Sol ameaçava se por no céu, abaixo da terra tudo estava escuro, exceto pela iluminação fraca do vagão que corria sobre os trilhos.

Estavam todos ali. A mãe solteira ressentida por ter aprendido a criar, sozinha, os gêmeos. O casal que voltava da agência de turismo após comprar as férias que, teoricamente, deveriam reavivar seu casamento. O policial que após ser baleado na perna tinha que se conformar com a rotina do escritório fechado e da mesa bagunçada. O escritor que sonhava em ver seu livro de terror exposto nas vitrines das grandes livrarias. O menino assustado que havia se aventurado pelo metrô pela primeira vez, escondido da avó. O namorado que falava baixinho com a namorada no meio do vagão.

Após um dia cheio, todos eles eram parceiros de vagão. Mesmo sem saber o nome de ninguém, cada um deles tinha o mesmo destino. E os mesmos sonhos.

Estavam todos ali. O esportista que teria que abandonar a carreira por falta de patrocínio. O vendedor que não dormia há meses, com medo de que o desfalque que dera na empresa fosse descoberto. A moça estrangeira que havia se mudado para a cidade em busca de um amor que lhe deixou semanas depois, alegando ser tudo um engano. O padre silenciosamente inconformado com a falta de fé que assolava as pessoas. O médico que nunca se perdoara por não ter salvado a vida do bebê, anos atrás. A namorada que agora chorava sorrindo ao ouvir as palavras do namorado, em pé no centro do vagão.

Em silêncio, os passageiros observavam um aos outros, sem jamais suspeitarem do quanto possuíam em comum, abaixando os olhos quando se descobriam sendo observados.

Estavam todos ali. O adolescente tímido e nervoso que não conseguia parar de pensar na garota que amava e mal sabia de sua existência. O homem bem vestido que esperava pela morte do pai para assumir seu bissexualismo para a família. A mulher de ar sério que, todas as noites, trocava a solidão por sonhos eróticos nos quais se entregava ao filho de sua vizinha. A mulher elegante que disfarçava as marcas da violência doméstica com toneladas de maquiagem. O casal de namorados que depois de uma discussão de gritos contidos e lágrimas sufocadas, se abraçou no meio do vagão, jurando nunca mais brigarem novamente.

Jurando ficarem juntos para sempre. Jurando que estavam arrependidos. E, não mais que de repente, jurando amor eterno, se beijaram. E desapareceram não apenas um no outro enquanto se perdiam em meio a um ruído ensurdecedor que tomou o vagão.

Pois estavam todos ali, aplaudindo o beijo mais sincero que haviam visto.

8 leitores:

Kika® disse...

OMG, Rob! A cada hora, melhor!

IsabelVeronica disse...

Muito lindo!!
Assim, você mata a gente, viu.

Mari Hauer disse...

Ah, que lindo! Adorei... quando sugeri o tema, pensei na minha volta pra casa, hoje. Eu chorava baixinho, tentando esconder a cara num livro em outra língua, enquanto imaginava todos os esses tipos nas pessoas que dividiam o vagão comigo. E foi quando, perdida nos meus pensamentos, escutei aplausos das pessoas que viam uma performance de um casal jovem de atores, no meio do vagão. Eu estava perdida, engolida nos problemas do meu dia que ainda não haviam ficado pra trás quando acordei com aplausos a um casal de atores. Vi pessoas mudando a expressão, sorrindo, por bem mais que uma performance. Por sonhos, por felicidade... e me senti pequena de ter trocado os meus próprios por problemas... Lindo o texto!

Natalia Máximo disse...

Esse ficou lindo.

Varotto disse...

Tá pegando fogo, hein?!

Quantos litros de café você já tomou?

Ana Lu disse...

Ahh, maravilhoso! Em pensar que passamos por tantas pessoas na vida, com tantos destinos iguais, e nem reparamos.. Quantos beijos sinceros não passam despercebidos por aí!

Sil disse...

Linda crônica, me emocionou.

Nos deixa pensando em quantas pessoas passam por nós todos os dias, cheias de problemas e preocupações e no quanto um simples ato de carinho pode fazer qualquer um esquecer estes problemas, nem que seja por alguns segundos.

Brunín Assis disse...

Crônica foda! Pensar que todas essas pessoas podem estar ali, com suas histórias de vida há apenas um banco de distância...

 

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