16 de julho de 2011

#24Horas24Crônicas #23 - O Bom, O Mau e o Pênalti

(tema sugerido por: @nanabuono)

Não havia música. Apenas o barulho do vento.

Pois o vento emoldurava o cenário formado por um gramado verde, cercado por uma mancha colorida de pessoas prestes a explodir em festa ou em guerra. Mas ainda era cedo para qualquer explosão. Ainda era cedo para qualquer movimento. A não ser pelo vento, a única prova natural que o tempo não estava parado.

Mas os dois homens estavam. Congelados, se encarando. Duas estátuas imóveis que permitiam apenas mover os olhos, mas não o faziam, sabendo que afastar o olhar seria fatal. Mesmo o vento desviava deles por receio de interromper o confronto entre homens que poderiam agir como gigantes, mas que certamente nunca se tornariam deuses, por serem impossivelmente falíveis.

Os olhos do goleiro se estreitaram, suas pupilas ficaram paradas. Os pés do atacante evitavam qualquer forma de relaxamento. Pernas firmes plantando seu corpo ao solo. A mão do goleiro aberta e atenta, pronta para abraçar o ouro em êxtase. Os olhos do atacante firmes em direção ao horizonte, mas encarando o oponente.

Não havia vento, apenas o barulho da gaita.

Vinda de lugar algum, vinda do passado, vinda de memórias vingativas que consumiram uma vida inteira. Mais que uma gaita, é uma ópera cantada por um anjo negro que prenuncia a morte inevitável. Seu som corta a pradaria e o gramado, paralisa a multidão que cerca a arena, mas apenas contorna os duelistas, de forma a incitá-los.

Os olhos do atacante se fecham ainda mais, analisando sombras de movimento. Os pés do goleiro, vistos por trás, enquadram seu oponente, minúsculo, entre suas pernas. Os pés do atacante explodem em uma corrida seca. A mão do goleiro fecha e abre suavemente, sem deixar suspeitas, preparando-se para o momento único e definitivo. Os olhos do goleiro estalam pela adrenalina que corre em suas veias, acelerando seu coração.

Não há somente a gaita, surge também uma guitarra distorcida que explode em acordes tenebrosos no momento em que um pé chuta a bola, e no momento em que dois pés saem do chão fazendo um corpo alçar voo.

O tempo se congela definitivamente. Pé, bola, corpo, permanecem no ar até que o destino decida quem cairá. E, quando a moeda do destino escolhe seu lado, uma linha rubra de sangue é traçada de forma indelével entre os dois homens, sendo que ela marcará o tombo de um deles.

Pois, enquanto a guitarra convida o coral quase religioso, é certo que um, e somente um, restará de pé.

5 leitores:

Kika® disse...

na minha imaginação, bolas de feno rolavam pelo gramado... :P
Rumo ao último! :)

Mari Hauer disse...

Ai, to aqui imaginando se o jogador fez gol ou se o goleiro conseguiu pegar essa bola...

Varotto disse...

3...2...1...

Lilian disse...

E eu fiquei aqui vendo toda a cena como num filme. Vc tem esse jeito de descrever as coisas que tornam a história toda muito visual pra gente que lê. Excelente!

Mariana Paschoal disse...

Li ao som de Ennio Morricone.
Simplesmente perfeito!

 

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