16 de julho de 2011

#24Horas24Crônicas #14 - Amizade

(tema sugerido por: @pmkoga)

Não tinha quase nada.

Tinha sapatos. Um par que, de tão velho, havia mudado de cor. Uma calça de tecido que mal servia para abrigá-lo do frio. E um paletó que não se lembrava de tê-lo conseguindo. Recordava-se apenas de ter acordado com ele numa manhã ainda com o gosto de cachaça na boca. E tinha uma casa, de papelão, no formato de uma caixa de geladeira, que possuía a vantagem de poder ser carregada.

Tinha memórias. Memórias de uma família que se fora há muito tempo, esquecida no fundo de uma garrafa da pinga ardida. Memórias de um tempo em que, ao contrário de hoje, comia para sobreviver e bebia para viver. Memórias de uma infância doce e repleta de brincadeiras que deveria ter destino melhor. Memórias de um amor apagado de sua mente entorpecida pelo álcool e que ainda rasgava seu coração.

Não tinha muita coisa.

Mas tinha medos. Medo de ser queimado no meio da madrugada e acordar em chamas sem entender a claridade e o ardor. Medo de que tudo fosse um pesadelo e ele acordasse somente para perder tudo mais uma vez. Medo de descobrir que os erros foram seus, e não poder mais culpar o destino afogando-se em bebida. Medo de invadir o território dos outros, medo de ser agredido pela polícia, medo de ser mais maltratado por homens que fora pela vida.

E tinha algumas vontades. Vontade de sair pela rua catando latinhas amassadas para fingir ter um pouco de dignidade. Vontade de recordar onde fica sua casa apenas para se esconder atrás de um carro e enxergar os filhos. Vontade de vencer a vergonha de procurar ajuda e um prato de sopa quente no abrigo. Vontade de não se sentir uma mancha caminhando pelas ruas solitárias, vontade de acordar vivo no dia seguinte, vontade de morrer em paz sem dormir.

Não tinha quase nada.

Mas tinha um sanduíche. Um sanduíche feito com duas fatias de queijo enfiadas com cuidado dentro de um pão francês, e entregues por uma menina que se apiedou dele. Um sanduíche sem carne. Um sanduíche sem bebida. Mas um sanduíche, que para ele poderia ser escrito com letras maiúsculas.

Mas tinha a decência de rasgar o sanduíche no meio, escolhendo um pedaço para si e outro para o cachorro, preto com sarna e falhas nos pelos das costas. Tinha um cachorro que aparecera em sua vida e o acompanhara desde então. Tinha um vira-lata que dormia encolhido ao seu corpo, buscando calor e lhe aquecendo. Tinha um cachorro que o protegia feito pai e o que seguia feito filhote, feliz apenas por estar junto.

Não tinha muita coisa.

Mas tinha um cachorro, e a consciência de que era tudo que o cachorro tinha.

11 leitores:

Lilian disse...

pqp, Rob.

sem mais. ;'(

Natalia Máximo disse...

Chorei =~~

Alice O. disse...

ao final do texto entendo melhor o teu desgaste ;)

Varotto disse...

Triste...

Bia disse...

Chorei.

Brunín Assis disse...

Sério, sem palavras.

Wi disse...

Deu um nó na garganta :/

Kika® disse...

Acabei de eleger outro preferido... Obrigada, Rob.

Camila disse...

Poxa, Rob, me derrubou nesse. :'(

Sil disse...

Ler vários textos em seguida tem a desvantagem de ir do riso ao choro em poucos minutos.

Muito tocante este texto, gostei demais.

Mari Hauer disse...

Estou soluçando de chorar. Devia ter pulado esse...

 

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