16 de julho de 2011

#24Horas24Crônicas #13 - O Longo Adeus

(tema sugerido por @lilian_escreve)

- Você tem cinco minutos?

- Sim.

- Eu preciso conversar com você.

- O que houve?

- Não sei ao certo. Eu não estou bem.

- Como assim?

- Não está mais funcionando.

- O que não está funcionando?

- Nós... Nós... Não está mais dando certo.

- Como não? Nós estamos aqui. Estamos há meses juntos.

- Sim. Eu sei. Mas eu não estou feliz.

- Como assim não está feliz? Passamos a maior parte do dia juntos!

- Sim, mas não está funcionando. Eu não estou mais conseguindo.

- Conseguindo o quê?

- Ficar com você. Não sei. Está me fazendo mal. Sinto-me pressionado o tempo inteiro.

- Mas eu não pressiono você. Eu fico ao seu lado. Eu sou paciente. Eu tento apoiar você em tudo.

- Não. Não é verdade. Você acha que faz isso, mas não faz. Você manda na minha vida. Talvez nem perceba isso, mas manda na minha vida.

- Claro que não. Eu sou sua companheira. Eu não quero mandar nada.

- Desculpe, eu não consigo mais.

- Você está cansado, é isso. Vá dormir um pouco.

- Não. Dormir não irá resolver. Eu vou dormir, vou acordar e você vai estar aqui. Na sala. Esperando. E eu fico na obrigação de acertar.

- Você não tem essa obrigação.

- Mas é como eu me sinto. Você me pressiona.

- Talvez seja você que esteja se pressionando.

- Não. É você. É o seu jeito. São seus palpites. Você me poda, não deixa fazer o que eu quero. Me sinto sem ar ao seu lado.

- Desculpe, eu não imaginava que você se sentia assim.

- Pode ser. Não sei. Não importa. Acho que nem importa mais. Eu preciso de espaço.

- Mas...

- Mas o quê?

- Não sei. Não sei o que dizer. Você estava bem até agora. Passamos a tarde inteira juntos na sala.

- Eu não estava bem. Eu não estou bem. Estou me sentindo acuado.

- Mas a culpa não é minha...

- Sim, é sua! É sua! Você não me deixa seguir o meu caminho! Não permite que eu tome minhas decisões.

- Eu apenas aconselho...

- Não! Não é verdade! Eu quero fazer as coisas de um jeito e você fica me guiando por outro caminho. Fica dando indiretas! Não permite que eu faça o que eu quero.

- Achei que nós estivéssemos trabalhando juntos. Que fôssemos uma dupla!

- Sim. Mas a coisa não está acontecendo assim! Você me trata feito um empregado! Não dá mais! Eu não aguento mais! Ouviu? Eu não aguento mais essa merda! É muita pressão!

- Mas... Mas você é um escritor. Eu sou sua novela. Como vamos viver separados?

- Não sei. Não pensei nisso. Preciso apenas de ar. Preciso respirar um pouco. Não está dando certo. Preciso ficar sozinho.

- Mas e eu?

- Não sei. Não sei. Por favor.

- Nós estamos tão perto do final. Quantas páginas mais? 50? 70? Não é mais que isso. Não pode ser mais que isso.

- Falta tudo! Nada do que está ali é meu! Eu quero que o cara faça uma coisa, você me induz a fazer outra. Eu quero que ele seja assim, você me força a fazer com que ele seja de outro jeito!

- Mas talvez as coisas sejam assim mesmo.

- Não sei! Não importa! Eu não consigo!

- Mas...

- O problema não é você! Sou eu! É isso que você quer ouvir? Pronto. O problema sou eu!

- Não, você...

- Eu porra nenhuma! Você mal me conhece! Você não me dá espaço algum. Apenas me pressiona! E eu não sei lidar com isso!

- Como assim não sabe?

- Eu não sei contar histórias. Está feliz agora? Não sei mais! Sou um escritor que não sabe contar histórias! Pronto!

- Você está estressado. É isso.

- Não! Eu estou de saco cheio! Nada naquelas páginas está do jeito que eu queria! Nada! Eu preciso ficar sozinho. Eu vou embora.

- Como assim? Para onde você vai?

- Não sei. Vou embora. Por favor, saia da frente da porta. Por favor.

- Eu não quero que você vá.

- Eu já me decidi. Por favor. Não torne isso mais difícil ainda.

- E eu?

- Não sei. Sai da frente da porta. Por favor. Estou pedindo.

- Pronto.

- Obrigado. De verdade. Desculpa. O problema está em mim, não em você. Você vai achar outro escritor.

- Eu não quero outro escritor.

- Mas você não quer a mim também. Você quer alguém que satisfaça suas vontades. Mais nada.

- Isso não é verdade. Vamos conversar, por favor.

- Não. Estou indo. Preciso ir.

- Mas para onde?

- Não sei. Preciso sair daqui. Não aguento mais.

- Cuidado. Por favor, toma cuidado.

- Esquece. Estou indo. Adeus.

- Não, por f...

- Adeus!

Bateu a porta e se foi.

Até hoje, seu primeiro livro continua ali, na mesma página. Esperando. Mas ele nunca mais voltou. Desistiu dos romances e se entregou ao jogo e à bebida.

E passou o resto da vida enfiado em quartos apertados de hotel, dormindo com crônicas baratas.

6 leitores:

Lilian disse...

Adorei. Vc foi por um caminho totalmente diferente do que eu tinha na minha cabeça. Ficou dramático e engraçado ao mesmo tempo. (E essa relação escritor/obra é bem isso daí!)

Vai colocar essa maratona de crônicas no Clube de Autores? Diz que sim, vai!

Natalia Máximo disse...

Incrível, Rob! Uma bela maneira de começar o dia aqui pra mim. E parabéns por estar levando muito bem o projeto. Acho que a privação de sono está deixando seus textos ainda melhores!

Varotto disse...

Cara, me fala uma coisa: sua terapeuta lê os seus textos? Acho que devia. Você ia economizar muito tempo, pois ela já ia ter uma opinião formada antes de você chegar lá.

Brunín Assis disse...

Isso tudo é falta de sono? Por favor, não começa a brigar com seus textos de verdade porque ainda faltam 9!

Kika® disse...

Rob, sabe como eu me sinto lendo alguns dos seus textos? Como se eu estivesse dirigindo e, de repente, alguém puxasse o volante em outra direção. Na vida, às vezes isso não é uma sensação muito boa. Mas nos seus textos... ;)

Mari Hauer disse...

Eu concordo com o Varotto! Dá seus textos pra sua psicóloga ler! Nunca vi vc tão cuspido em textos assim, dessa forma. Essa imersão está te fazendo bem! E eu sei que vc sabe disso.

 

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