2 de maio de 2011

O Poderoso Chefão - Parte IV

A sala é grande e escura. Suas cortinas estão sempre fechadas, e a pouca iluminação do local vem de um único lustre amarelado no teto. As paredes são decoradas por poucos quadros, mas um deles – o cartaz promovendo a estréia de uma montagem da ópera Cavalleria Rusticana – tem destaque especial no centro do aposento.

Num canto, um velho está sentado em um sofá esverdeado, rodeado por outros homens. Ele é pequeno, tem os cabelos curtos e arrepiados. Mesmo na penumbra, usa óculos escuros. Segura uma pequena taça de anisete em silêncio, enquanto e as outras pessoas da sala esperam pacientemente ele terminar de beber.

Quando dá o último gole, deposita o copo ao lado dos três portas-retratos com fotos antigas – uma delas mostra uma versão mais jovem sua, vestindo um elegante uniforme do exército – na pequena mesa de madeira à sua direita. Limpa a garganta chamando atenção dos presentes.

– Precisamos fazer algum movimento. É a nossa vez.

Sua voz rouca corta a sala como aço. Todos permanecem em silêncio. O único a se manifestar é o homem ao seu lado, ligeiramente mais velho que ele e bastante calvo.

– Michael, tem certeza? Desde que simulamos nossas mortes, estamos tentando não chamar a atenção. Fazer algo poderia arruinar tudo isso.

O velho volta-se para o homem ao seu lado. Mesmo com os óculos escuros, é possível sentir a frieza em seu olhar.

– Tom, deixar aquele pezzonovante do Oriente Médio escapar impune seria um sinal de fraqueza. E um sinal de fraqueza é tudo o que os Barzini estão esperando.

– O exército americano já está atrás dele, Michael. É apenas questão de tempo até ele ser capturado ou, o que é mais provável, morto.

– O exército americano está atrás dele há dez anos, responde o velho, demonstrando seu desprezo com um gesto. Ele nunca será achado, Tom. A não ser que ele queira.

Sentado em uma poltrona à frente do chefe, um homem mais jovem levanta-se de forma enérgica.

– Concordo com o tio Mike! Vamos matar o filho da puta! Matar!

Suspirando, o velho olha para o jovem. Apesar de não assumir isso em voz alta, está cansado. Faz sinal para que seu guarda-costas o ajude a levantar. O rapaz, que até então estava imóvel na porta, aproxima-se e oferece seu braço como apoio. Em pé, o velho agradece baixinho e de forma quase carinhosa, pede ao rapaz que vá até a cozinha pegar uma laranja.

Qualquer barulho que existisse na sala cessa imediatamente. Todos entendem isso como um sinal. Sabem que quando ele chupa laranjas é porque a coisa vai ficar feia. Até mesmo os insetos que moram no jardim fora da sala parecem ficar em silêncio. O guarda-costas deixa o aposento e o velho aproxima-se do rapaz, que permanece em pé, colocando uma mão em seu ombro.

– Vicenzo, você precisa aprender a se controlar. Seu pai, que Deus o tenha, morreu por causa do temperamento.

– Desculpe, tio Mike, responde o rapaz, abaixando os olhos envergonhado. Seu gênio difícil era sua grande fraqueza. Já havia tentado até mesmo fazer tratamento para aprender a controlar a raiva, mas, logo na terceira consulta, arrancou um dedo do terapeuta. Com uma mordida.

– Nunca odeie seus inimigos. Isso afeta seu julgamento, relembra o velho, deixando o sobrinho com seus próprios pensamentos e começa a caminhar com dificuldade pela sala.

Quem rompe o silêncio é um homem gordo, eternamente suado, que está sentado de maneira desconfortável em uma pequena cadeira de madeira. Seus olhos denunciam que ele está preocupado que o móvel irá ceder ao seu peso e quebrar, fazendo com que ele caia no chão. Já acontecera antes e mais de uma vez.

– Don Corleone, com as tropas do exército no local, será bastante arriscado mandar um de nossos homens ali. A corrida pela cabeça do Árabe está apertada, e o exército americano quer o prêmio para eles.

– Pete, você está com a família desde os tempos do meu pai. Mais que ninguém, você sabe que se a história nos ensina algo é que qualquer pessoa pode ser assassinada. Qualquer pessoa. O exército americano não será problema. Eu sou capitão, defendi este país na guerra. Ainda tenho alguns contatos.

Ele para por alguns momentos, observando a foto na qual veste a farda, assombrado por algumas memórias. Mas logo se distrai com o retorno do jovem, que entra na sala com uma laranja madura e suculenta. Ao pegar o fruto, agradece o jovem e começa a descascá-lo.

No sofá, o homem calvo parece impaciente. Olha alguns papéis com anotações quase indecifráveis.

– Mike, boa parte da renda da família vem hoje do petróleo. Mas isso deixou o nome Corleone praticamente legalizado. Não seria prudente arriscar isso e expor à opinião pública que todos nós ainda estamos vivos.

Sugando um gomo de laranja, o Velho volta-se para o companheiro e tira os óculos escuros.

– Tom... Não há outro jeito. Tentamos conversar, ele não cedeu. Colocamos uma cabeça de camelo na sua cama, achei que ele fosse recuar. Ele não recuou. Ele é teimoso, acha que é tudo pessoal. E não é pessoal, são negócios. Sempre são negócios. Mas os velhos métodos não funcionam mais. É hora de tirá-lo da jogada definitivamente. Fredo deve morrer.

– Fredo?

– O Árabe. Desculpe.

– Pobre Fredo. Afogado naquele lago..., suspira o homem calvo, com ar perdido.

– Vamos nos concentrar no presente, e não no passado, resmunga o velho, querendo mudar de assunto, o mais rápido possível. Volta-se para o homem gordo.

– Quero seus dois melhores homens no Oriente Médio até amanhã. Vamos fazer de forma limpa, sem chamar a atenção.

– Como? questiona o gordo, suando ainda mais.

O velho senta-se novamente no sofá e olha para o homem à sua frente. Permanece em silêncio por alguns segundos. Normalmente, fala mais com o silêncio que com as palavras. Após alguns instantes, toma fôlego e pergunta.

– Quem matou Barzini?

– Al Neri, responde o gordo.

Num canto da sala, Al Neri, apoiado num bar, sorri discretamente.

– Sim, eu sei disso. Você sabe disso. Mas para a opinião pública, quem matou Barzini foi um policial. O exército irá matar o Árabe. Eu não quero os créditos por isso. Eu quero apenas que ele saia da mesa de negociações. O exército pode ficar com os créditos.

Ninguém responde, e o velho coloca mais um gomo de laranja na boca. Quando termina de chupá-lo, volta a falar.

– Amanhã, seus homens estarão desembarcando no Oriente Médio. Neri, providencie dois uniformes exércitos do exército americano. Soldados de elite.

Todos concordam silenciosamente. Sem falar mais nada, ele aponta para um nome escrito na prancheta do homem ao seu lado.

– Tom, ligue para este general. Ele nos deve um favor desde quando abafamos na imprensa aquela história de que ele e um soldado eram amantes. Explique a ele que todo o crédito pela ação irá ser entregue a eles, desde que o exército não interfira com os homens de Clemenza. É a única coisa que queremos em troca.

– Sim, Mike. Farei isso assim que terminarmos aqui.

– Pete, a coisa deve ser limpa e rápida. Basta um tiro. Isso servirá como recado. O mundo achará que foi o exército, mas seus companheiros saberão que fomos nós. Isso os deixará quietos por algum tempo.

– Eu mesmo posso cuidar disso, Padrinho… Vou com Rocco até lá e fazemos o serviço.

– Ótimo.

A reunião parece encerrada. Todos se levantam, mas o jovem ainda tenta uma última cartada.

– Tio Mike, eu gostaria muito de ir. Eu odeio o maldito Árabe.

– Não, Vicenzo. Quando eu morrer, você será o chefe da família. Preciso de você aqui, sem se expor. Aprenda a pensar a longo prazo.

– Sim, senhor, responde o moço, visivelmente desanimado.

– Tom, me avise quando falar com o general. E providencie transporte e armas para Clemenza e Rocco.

– Sim, Mike.

Todos deixam a sala, com exceção do velho. Em silêncio, no escuro, ele permanece com a mão no queixo e os olhos perdidos em direção ao infinito, pensando.


2 Dias Depois

No meio da madrugada, dois homens vestidos de soldados americanos invadem a fortaleza. Abrem caminho eliminando um guarda com garrote. Uma morte silenciosa e limpa. Ninguém ouve nada. Até os aposentos centrais, encontram pouca resistência. Somente mais dois guardas que, distraídos, não oferecem muita resistência.

Ao entrarem na câmara central, encontram o Árabe dormindo sozinho. Ao seu lado, seu jantar permanecia intocado. Pela janela, é possível ver que o Sol está nascendo no Oriente Médio. Um dos homens – o mais gordo – permanece na porta, enquanto o outro se aproxima da cama, dando um tiro na testa de seu alvo.

Seu corpo treme levemente com o impacto e volta a ficar imóvel, conforme o cheiro de pólvora invade o aposento. Com pressa e suado dentro da farda apertada, o gordo dispara um último comando ao companheiro.

– Deixe a arma. Pegue as kaftas.


1 Dia Depois

Sentado em sua pequena cozinha, o velho assiste televisão ao lado do sobrinho. Em pé, no aposento, sua irmã anda de um lado para o outro. Apesar da idade avançada, mantém o mesmo porte elegante da juventude. O canal de notícias sintonizado no aparelho não fala de outro assunto que não seja a morte do Árabe, horas antes e decorrente de uma operação mirabolante do exército americano.

Seu corpo já havia sido identificado graças aos exames de DNA. Não se falava em outra coisa no planeta. O presidente americano já havia feito uma declaração oficial, redigida sob a supervisão de Tom Hagen, que manteria a família Corleone totalmente no anonimato. Ao vivo, uma repórter loira anuncia que o corpo do falecido seria jogado ao mar pelos soldados dos Estados Unidos.
Ambos assistem em silêncio, até serem interrompidos pelo jovem guarda costas, que entra na pequena cozinha com um embrulho nas mãos.

– Padrinho, com licença. Acabaram de deixar isso na entrada de casa.

Fazendo um gesto com a cabeça, o velho ordena ao sobrinho que abra o pacote. O rapaz obedece e, ao descobrir o conteúdo, olha com ar de dúvida para o chefe, que já voltou sua atenção novamente para a TV.

– É uma mensagem siciliana. Significa que o Árabe dorme com os peixes, resmunga.

O rapaz levanta-se e joga o lixo o embrulho contendo um turbante e um enorme peixe morto.

Senta-se novamente e continua assistindo televisão ao lado do tio. O velho estica o braço e alcança a fruteira em sua frente, pegando mais uma laranja.

O velho adora laranjas.


10 leitores:

Pedro Lucas Rocha Cabral de Vasconcellos disse...

Como assim ninguém comentou aqui ainda? Eu já li duas vezes...

Sensacional.

Hally disse...

Senti falta de teorias de conspiração sobre o assunto. Mas, depois de sua história, não preciso de mais nada.

Aliás, preciso sim, ver a trilogia, de novo.

G7 disse...

Sublime! Dez homenagens por parágrafo.
Adorei as kaftas!
E que a intençao de fazer Chefao IV nao passe disso!
G7

Tyler Bazz disse...

Puta que pariu.
Do caralho demais!

.a que congemina disse...

A melhor ordem do universo?
"Deixe a arma. Pegue as kaftas."

há!

Nelson disse...

Genial, fantástico.

"Leave the weapon. Take the kaftas."

Hahaha, até imaginei a cena.

Varotto disse...

Se o bin Laden tivesse oferecido sua amizade, em vez de pedir para matar por dinheiro, ainda estaria vivo...

Alessandra Costa disse...

Sensacional, muito bom mesmo.

Wolly disse...

Ué cadê a continuação? A história está muito boa!

Bruno Bueno dos Santos disse...

Vamos lá, boa crônica, entretanto a crônica se passa entre o segundo e o terceiro filme. Tom Heagen já teria falecido ou está perto de morrer, e Vicenzo só conhece o tio já no terceiro filme. Logo, vejo um erro de roteiro. Alguém mais notou isso?

 

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