9 de janeiro de 2011

Tráfico

Esquina de uma grande cidade. Enquanto pessoas e carros passam a toda velocidade, mais preocupados com suas vidas, um jovem de aparentemente vinte anos e com roupas gastas está encostado num poste, sem fazer nada.

Logo, outro rapaz se aproxima. Suas roupas são de marca e ele carrega uma mochila nas costas. Ao que tudo indica, ele acabou de sair da escola. Caminhando cautelosamente, se aproxima do jovem no poste e o cumprimenta.

– Ei, cara.

– Diz aí.

– Tem livros bons aí com você?

– Livros? Não sei do que você está falando.

– Relaxe, eu não sou da polícia. O pessoal da minha escola que te indicou, diz que você sempre tem coisa boa aí.

– Hum...

– É sério, estou louco de vontade de ler. E tenho dinheiro.

– Dinheiro, é? O que você quer?

– Quero um Tom Clancy.

– Tom Clancy não é barato, você sabe. Nenhuma livraria tem mais isso. Só existem aquelas edições de banca de jornal do Caçada ao Outubro Vermelho, mas é mal traduzida, não é boa não. Não é fácil arrumar um Tom Clancy por aí.

– Mas você tem?

– Eu vou abrir o jogo com você. Tenho uma edição novinha e com tradução nova do Rainbow Six. Quer? Artigo de primeira. Tem até um prefácio novo do autor. É sua por cinquenta reais.

– Eu vou levar.

– Mostra o dinheiro.

– Aqui.

– Ok. Você gosta de terror?

– Nunca usei. Só policial e espionagem.

– Cara, você não sabe o que está perdendo. Leva um Stephen King, você vai ficar louco.

– Será?

– Eu aposto com você que você vai voltar semana seguinte querendo mais.

– Não sei...

– Vamos fazer assim. Eu dou um pocket de Stephen King para você. Carrie. Se você gostar, é seu. Fica de presente. Se você não gostar, me devolve semana que vem. Mas cuidado, não vai rabiscar. Uma vez fiz isso e o nóia disse que não gostou do livro e quis me devolver. Mas ele tinha anotado um número de telefone na capa, e não queria pagar pelo livro. Tive que quebrar os dedos do cara.

– Odeio gente que escreve em livro. Ainda mais à caneta.

– Então, 50 paus pelo Clancy, e o Carrie é cortesia da casa.

– Fechado.

– Você tem namorada?

– Tenho, por quê?

– Ela curte ler? Tenho uns Marian Keyes aqui que acabaram de chegar da gráfica. Cara, é chick book puro, da melhor qualidade. Ela vai pirar na sua.

– Ela nunca usou, não sei se iria gostar.

– Ela vai adorar, cara, e vai querer mais. Leva o Melancia. E você não vai achar esse Melancia não. Tudo proibido agora, você sabe.

– Quanto é?

– Trintinha. Junto com o Clancy, sai oitenta tudo. Você leva por 75.

– Mais o Carrie?

– O Carrie é presente, meu irmão. Pode ficar frio.

– E quando você vai receber o novo Dan Brown? Estou numa fissura desgraçada, já reli O Símbolo Perdido umas cinco vezes.

– Ih, cara, vai demorar. Não saiu nem lá fora ainda. Mas olha, semana que vem eu vou receber uns romances históricos de primeira linha. Você tem que experimentar isso. Bernard Cornwell. Você vai pirar.

– Semana que vem, é?

– Eu costumo ter mais coisa, cara. Mas estou quase sem estoque hoje. Um empresário lá do centro comprou quase tudo o que eu tinha. Ele e os amigos dele fizeram um sarau com uns gringos. Eles montaram um clube do livro e ficam lendo toda semana. Espera, acho que esse cara é cana. Disfarça aí.

– Ok.

– Cada vez mais difícil trabalhar, cara. Amigo meu rodou semana passada com uns John Grisham, tinham acabado de chegar da Bolívia. Alguém dedou e, ele está em cana agora.

– Foda.

– Fui lá ontem levar uns pockets para ele na cadeia. Sem pocket, ninguém vive lá dentro. Mas então, semana que vem tenho romances históricos. Você me encontra aqui na praça.

– Fechado. E hoje, 75 paga tudo?

– 75. Vai levar?

– Vou.

– Segura o dinheiro aí e eu vou pegar os livros no carro. Me encontre ali naquele ponto de ônibus e a gente faz a troca.

– Fechado.

– Ei!

– Oi?

– Se te pegarem com esses best sellers aí, você não me conhece, hein?


(Crônica inspirada nesta notícia aqui.)


7 leitores:

Natalia Máximo disse...

Sensacional, Rob! Eu sei que você não curte esse tipo de comentário, mas o que mais vou dizer sobre esse texto?

Fernando disse...

Inception: Tráfico de 1984.

Heloisa disse...

hahahaha! Sensacional!

Adorei a crítica. Parabéns.

Tyler Bazz disse...

É bem por aí, mesmo.

Bom é que o texto da lei pode muito bem valer pra cinemas, galerias de arte, lojas de discos. Logo logo toda a cultura vendida passaria antes pelas mãos do governo.

Mas como isso nunca aconteceu antes, ninguém sabe o que pode acontecer.

Marina disse...

A gente não sabe mais pelo que esperar.

Muito bom, Rob.

Pri disse...

Magnífico!

Wi disse...

Ótimo! haha
E o cara ainda cobra um preço honesto, hein?!

 

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