4 de novembro de 2010

Vida Seca

Nasceu no Sol do meio dia, na areia rachada e judiada pelo calor. E sua mãe pediu a Nosso Senhor que não levasse esse embora também.

E foi longe da água que se criou, com bermuda velha e chinelo de dedo. Viu irmãos morrendo, viu a fome de perto. Forçado a virar homem antes mesmo de deixar de ser menino, encontrou leitura e educação num canavial, chutando lata descalço e marcando gol do Brasil.

Foi longe da água que dividiu a comida com a família, que usou o mesmo chinelo, a mesma bermuda de pano e mais nada durante meses e que aprendeu quais frutas poderia comer, a respeitar a mãe senão é tapa e a pedir e agradecer a Nosso Senhor antes de dormir.

Foi longe da água que não teve livros nem revistinhas para pintar, e começou a ver os números contando moedas que levava para casa depois de passar o dia no canavial, tomando cuidado com picada de cobra e com mordida de escorpião.

Foi longe da água que viu, na telinha pequena, chuviscada e sem cores, que o mundo não era todo seco, nem todo de areia. Viu moças bonitas e rapazes em carros brilhantes, viu polícia pegando ladrão, viu beijo e soco, viu futebol, viu as notícias.

Foi longe da água que viu uma noite que o mundo todo era feito de água. E entendeu que o mundo dele, seco e sem dó nem piedade, seco e machucado, rachado de calor, era um pedacinho do mundo que o repórter da TV disse que era azul.

Foi longe da água que cresceu e se enamorou de uma moça da cidade, filha do dono da venda. Moço respeitador, dois anos no calor pegando na mão e sem beijo de novela, se casou na cidade vizinha. Convidou até o dono do canavial que não foi, mas mandou presente.

Foi longe da água que aquela noite teve festa e teve dança e na lua de mel virou homem de verdade e fez da mulher a sua mulher a noite toda. E antes de dormir agradeceu mais uma vez a Nosso Senhor porque tinha uma casa e era homem trabalhador.

Foi longe da água que quando os filhos vieram, o menino com nome de santo e a menina com o nome da mãe, descobriu que cortar cana o dia todo não vingava mais, que dava para comprar feijão, mas não dava de comprar leite e feijão.

Foi longe da água que aí colocou a calça comprida e o sapato da missa, abotoou a camisa e beijou as crianças, mandando não se esquecerem de rezar e obedecer a mãe, e foi pra cidade dos artistas e da gente bonita, onde o canal de notícias dizia que tinha trabalho.

E foi perto da água que carregou tijolo e saco de cimentos, que pegou ônibus lotado e viu telas coloridas e vestidos bonitos para sua mulher nas vitrines das lojas, viu parques e respirou fumaça. Viu até mesmo o jogador de futebol passar um dia na rua.

E foi perto da água que ele viu sangue e bandidagem, que aprendeu a ver as figuras do jornal e jurou que seus filhos iriam entender as letrinhas e estudar na escola que ele não foi. E agradeceu a Nosso Senhor por ter trabalho e pediu para seu Santo olhar todo dia por sua família.

E foi perto da água que acordou cedo e conheceu gente nova, tudo trabalhador, porque não queria nada com malandragem, porque queria mesmo era juntar dinheiro para comprar comida para seus filhos que já deviam estar demais de grandes.

E foi perto da água que um dia viu tanta água caindo do céu, que era mais água que tinha naquele mundo que ele viu o na tela preto e branco. E feliz de saber que o mundo era de água, dançou no chão molhado, querendo tirar retrato para mandar para sua família.

E foi debaixo da água que voltando para casa foi cercado por três moços com roupa de gente estudada, que sem pedir o documento que ele tinha no bolso bateram com um pau em sua cabeça e fizeram com que ele caísse no chão, se machucando todo.

E foi debaixo da água que começaram a chutar e xingar, que continuaram batendo com o pau em cima dele, que mandaram ele ir embora dali e o chamaram de sujo, que ele tinha que mais voltar para a terra dele, analfabeto do caralho, baiano filho da puta.

E foi debaixo da água que ficou esticado na calçada, vendo a água se tornar vermelha com o seu sangue e amarela com a luz do farol do carro bonito que fugia. E deu seu último suspiro no chão molhado, sem entender que mal tinha feito e com medo de não ir para o céu.

Morreu na noite de tempestade, rachado e judiado pela dor. E pediu a Nosso Senhor para que sua família ficasse longe daquela água.



("Dedicado" aos animais que, seja com paus ou com palavras,
infelizmente tornam esta crônica uma obra de não-ficção)

10 leitores:

Tyler Bazz disse...

Esse texto me deixou todo arrepiado aqui.

É triste, - mentira, é revoltante, ver gente que teve tudo na vida ter essa atitude nazista.
As tecnologias mudam, as ideias são as mesmas. Já faz séculos.

Renata Santos disse...

Lindo texto Rob. Acredito mesmo que as pessoas podem pensar diferente, mas não posso acreditar que as diferenças tenham por base a imbecilidade, a falta de conhecimento, e o pensamento medíocre. Infelizmente, a diferença é assim. Nazistas estão mostrando seus dentes, seus sentimentos... não, eles não têm sentimentos, nem sabem o que é isso. Não fosse triste seria ridículo.

Hydrachan disse...

Perfeito o texto! E como eu queria que fosse apenas ficção. =/
Nesse mundo onde as pessoas crescem sem saber o que é a dor, o ser humano se torna cada vez menos humano.

Queria que as pessoas aprendessem que são todas iguais em suas diferenças. Somos tudo parte de uma coisa só...
"You may say I'm a dreamer..."

Nathalia disse...

simplesmente incrível. não tenho mais nada a dizer.

Marina disse...

A diversidade cultural é uma das características mais bonitas do Brasil, que faz com que a gente queira pegar a a estrada com um punhado de amigos e sair conhecendo cada cantinho daqui, aprender novos ritmos, experimentar outras culinárias, admirar as diferentes paisagens de uma mesma nação. Mas o que deveria unir este povo, as pessoas insistem em usar como método de exclusão.

É triste que esse tipo de coisa ainda exista.

zá disse...

coisa mais linda esse texto. até parece que tu é dessas bandas.

Alessandra Costa disse...

Triste, e mais triste ainda, é saber que isso acontece de verdade, que não é só ficção.
Esse post faz pensar, no quão idiotas e ignorantes somos, quando agimos preconceituosamente, independente do tipo de preconceito. Fala-se com horror do nazismo, e se age dessa maneira com os nordestinos, ou seja, além de tudo, a hipocrisia é enorme.
Texto triste, e infelizmente, verdadeiro.

George disse...

cara, lindo. deveria ser distribuído em salas de aula. forte abs

Carla Jaia disse...

Doloroso, doloroso. Uma amiga compartilhou esse texto comigo e eu tive vontade de que todas as pessoas pudesem ler.

Beijos

Jullia A. disse...

arrepio.
A humanidade anda em circulos.

 

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