7 de outubro de 2010

Desquerer

Estava cansada.

Por mais que tentasse, não conseguia esquecer. Não conseguia abandonar a dor de não ter mais a mão dele em sua cintura, nem conseguia consertar o desconcerto de sua mente sempre que se lembrava do momento do adeus. Pois o momento do adeus jamais fora somente uma despedida, mas sim um estilhaço que espalhou feito cacos os sonhos, as lembranças e sentimentos outrora tão sagrados, deixando-os na calçada suja em frente ao café.

Por mais que tentasse, não conseguia desquerer. Sim, desquerer, porque precisava inventar palavras – este era seu passatempo para manter a mente ocupada e não pensar, o tempo todo, que ainda o amava e que amava cada minuto ao lado dele e que não merecia nada daquilo, que nunca tinha feito nada de errado e que se talvez tivesse feito alguma coisa diferente as coisas seriam outras e ficava pensando nisso o tempo todo. Até inventar outra palavra nova. Mas aí se sabotava e pensava se a palavra combinava com a palavra-nome-dele. E começava tudo de novo.

E virava na cama, agitada.

Tentava dormir com medo de sonhar e não conseguia, mexia no travesseiro, se cobria com o lençol, virava para outro lado, tentava não pensar em nada e se descobria e se lembrava do que tinha que fazer no dia seguinte e desistia de tudo. Dando-se por vencida, sentava-se na cama e desistia de dormir, como se fizesse um acordo silencioso, “se eu pensar mais um pouco em você, vai doer bastante, mas aí você me deixa em paz?”. E ele nunca cumpria a sua parte no acordo sem palavras – inventadas ou não – e parecia se divertir com aquilo tudo.

Mas um dia deitou e dormiu. Acordou descansada, sem se lembrar do que havia sonhado e com os olhos um pouco mais tristes. E passou semanas e semanas sem inventar mais nenhuma palavra – nem para não pensar, nem para brincar. Cansou das palavras. Mas apenas porque decidiu viver e jamais encontraria vidas nas palavras, reais ou não.

Encontraria apenas ele. E não queria encontrá-lo em palavra alguma. Queria viver, e se tivesse que escolher uma única palavra para isso, seria seu próprio nome e somente seu próprio, mesmo que ele fosse gemido, gritado, sussurrado ou apenas falado.

Era jovem demais para ser anônima.

7 leitores:

Letícia disse...

Fucking Bastard!


Lindo demais

Becka Cupaiolo disse...

Você fez bem a uma não-anônima, obrigada Rob.

Tyler Bazz disse...

Quem precisa de nome quando se tem personalidade?

Hydrachan disse...

Muito bom! Me identifiquei um pouquinho... Mas só um pouquinhi... ;) rsrs Vc sabe o que faz. =)

petterson disse...

Por aqui, o verbo mais conjugado nos últimos dias.

Belo texto, Rob. :)

petterson disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mari Hauer disse...

Reli esse texto ontem pela manhã, pensando que ontem eu estava sensível demais para conseguir lê-lo com a paz que eu (ou ele!) merecia.

Reli e senti meus olhos com lágrimas de novo, pensando na minha vida, se era identificação o que eu sentia por "ela". Lembrei de quantas vezes quis desquerer e pensei em pensar mais um pouco pra esgotar minha dor em cinco minutos. Nunca funcionou. Nunca foram cinco minutos...

Reli seu texto e lembrei que nunca foram em cinco minutos, mas já aconteceu muito de deitar e descansar. Acordar e querer viver, sem pensar em nada. Ir vivendo sem peso, sem nada...

O que acontece é que, algumas vezes, depois de dizer meu nome, de ter parado de inventar palavras (e outras coisas mais!), as pessoas morrem, ou se esquecem... e volta a tudo ser como era antes.

Lindo o texto! Gosto muito quando vc escreve pela perspectiva feminina. Deve ser pq me identifico e ter identidade deve ser algo como deixar de ser anônima! (Falar o próprio nome em voz alta, ou se enxergar no outro, ás vezes funciona como alguém que chama o nosso nome!).

Um beijo,

 

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