2 de junho de 2010

O Beijo

Ela não achava aquela foto bonita. Estava de perfil, em meio a uma brincadeira com as amigas, de olhos fechados e fazendo bico, como se estivesse mandando um beijo. Achava a foto engraçada, mas não bonita.

Ele, por outro lado, se encantou. Não com a foto em si, mas com ela na foto. Os olhos fechados, os lábios desenhados, se fechando para segurar um beijo que escaparia em segundos, e que o fotógrafo não pegou.

Quando abria a foto no computador, permanecia por minutos com ela, fixamente, à sua frente. Cada linha de seu rosto estava decorada em seu cérebro; sabia a posição de cada fio de cabelo; ficava brincando consigo mesmo, tentando imaginar o que ela pensava naquele momento, o que ela sentia naquele segundo.

E rabiscava num papel, ao lado do teclado, palavras desconexas em busca daquele beijo perdido, que escapou do retrato. E deslizava o dedo pelo rosto dela, na tela, tentando adivinhar se aquele beijo havia realmente chegado a existir, se havia sido estalado na bochecha de alguém ou flutuado no ar até se dissipar no meio da música alta da festa que acontecia ao fundo.

Com o tempo, os olhos, a pele e o cabelo dela se tornaram coadjuvantes, planetas girando ao redor de uma boca vermelha com lábios comprimidos, prestes a estalar. Com o tempo, o beijo que ela fingia na foto se expandiu para o resto do retrato, que se tornou apenas isso: um enorme beijo.

Não queria somente entender o beijo, mas, desejava o beijo para ele. Estava já tão acostumado com aquele beijo, que a foto, de forma indolente, apenas ameaçava, que não sentia mais vontade dele, sentia saudade. Não era mais um beijo, era o beijo; não era mais uma foto dela; mas sim, ela inteira, em toda a sua plenitude, em todo o seu amor, em todos seu brilho.

Em todo seu beijo.

E à noite, abria a foto após voltar do trabalho. Já fazia meses que tinha consciência de que não estava olhando o rosto dela foto, mas sim a beijando. E fazia isso todos os dias, pois achava que um beijo dela não chegar a acontecer de verdade era quase um crime.

Pois, desde a primeira vez que viu o retrato, soube que os beijos haviam sido inventados para que ela pudesse existir, naquele momento, naquela posição. Sozinha, em uma fração de segundos que ficaria eternizada em sua mente, ela justificava a invenção dos beijos. Todos os beijos do mundo haviam sido criados para que, um dia, chegassem ao seu ponto máximo, que era o beijo dela.

E, mesmo sem o beijo, ele ia dormir completo, sabendo que o maior beijo da humanidade estava ali, guardado ao seu alcance.

3 leitores:

Otavio Oliveira disse...

belas palavras, rob. por coincidência, o meu último post no meusanosincriveis tem um pouco a ver com isso aí...

Marina disse...

Melhor viver sonhando com um beijo do que não dar mais nenhum valor àquele beijo que se pode ter todo dia.

Lindo texto, Rob.

Celyne Viana disse...

O melhor é notar que quanto mais ele olha a foto, sonha com o beijo, deseja aquele beijo... me parece que mais simples são os seus sentimentos. E ele dorme se sentindo completo.

Belo texto... Parabéns

 

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