2 de janeiro de 2010

A Menina do Retrato

– De quem é essa foto?

A pergunta cortou a sala e quebrou o silêncio do domingo.

Antes mesmo de abaixar o jornal, ele sabia sobre o que ela estava falando. Daquele retrato que ficava escondido na sua carteira junto com os documentos. Estava há anos ali, mas ela nunca tinha visto. E, apesar de temer que um dia ela encontrasse aquela foto, não ele tinha coragem de tirá-la da carteira. Significava demais para ele.

Abaixou o jornal. Ela segurava um pedaço de papel amarelado nas pontas. Era a imagem de uma mulher andando na rua. A posição tornava impossível ver seu rosto, ela estava de costas. Tinha cabelos castanhos escuros longos, presos num rabo de cavalo e usava uma camiseta branca e calça jeans. Parecia carregar alguma coisa à frente do corpo.

– De quem é essa foto? Quem é essa mulher?

Ele deixou o jornal de lado e se aproximou dela. Olhou para o retrato. A menina da foto continuava alheia à discussão, e permanecia de costas para ele, sem oferecer ajuda.

– Eu posso explicar.

– É bom mesmo! Que foto é essa? Há quanto tempo você tem isso na carteira?

– Há anos. Muitos anos.

– Quem é essa mulher?

Ele pegou a foto das mãos dela e a olhou com calma. Analisou lentamente o retrato, correndo os olhos pelos cabelos da moça, que desciam presos pelas suas costas. Alguns fios ao lado esquerdo de sua cabeça estava soltos, teimando em brigar com o elástico que dava forma ao rabo de cavalo.

Olhando mais de perto (não que ele precisasse, pois conhecia cada detalhe do retrato de cor) ela parecia ser uma estudante. Pedaços de caderno apareciam pelo lado direito do seu corpo, parcialmente escondidos pelo braço da moça. E os modelos dos carros estacionados no meio fio indicavam que a foto era muito antiga, tinha pelo menos uns vinte anos.

– Responde o que eu perguntei! Quem é essa mulher?

Ele devolveu o retrato para ela, afastou-se alguns metros e se sentou no sofá. Acendeu um cigarro e olhou para a esposa.

– Você não conhece essa menina?

– Não quero saber se eu conheço ou não! Quero ouvir quem ela é!

Deu uma longa tragada no cigarro. A mulher continuou:

– Responde ou este casamento acaba agora!

Ele pousou o cigarro no cinzeiro mais próximo, esfregou o rosto com as mãos, como se tentasse acordar de um pesadelo. Abriu os olhos novamente e a mulher continuava ali, em pé à sua frente, segurando o retrato, de forma desafiadora.
Não havia jeito.

– Tudo bem, eu conto. Acho que não faz mais sentido em esconder, mesmo.

– Fala! Quem é essa vagabunda?

Olhou para ela e respirou fundo.

– Você se lembra da que, na época que nos conhecemos, eu estava fazendo um curso de fotografia?

– Fala logo quem é essa menina!

– Eu estou contando. Você se lembra disso? Do meu curso de fotografia?

– Não sei. Sim. Acho que sim.

– Eu estava de férias da faculdade e andava o tempo com uma máquina fotográfica pela rua, tirando fotos de tudo. E, numa terça-feira, depois da hora do almoço, eu estava andando pelas ruas e vi esta garota saindo da escola e indo para casa. Fiquei apaixonado na mesma hora. Nunca havia visto uma menina tão linda.

– Quem é essa menina? Responde logo!

– Eu estou respondendo. Apenas ouça, por favor. Eu olhei a menina e fiquei totalmente enfeitiçado. O jeito que ela andava, a forma como seus cabelos se moviam a cada passo, o modo como ela apertava o caderno no corpo... E o rosto dela era tão lindo. Foi amor à primeira vista.

A mulher não estava mais olhando para ele. Estava analisando o retrato, tentando identificar algo assim na menina. Ou, ao menos, pistas que revelassem sua identidade.

– Mas eu era muito tímido nessa época, você deve se lembrar. Acho que ainda sou. Enfim, eu não tive coragem de falar com ela. Ela passou por mim, minhas pernas estavam tremendo, meu coração estava disparado. Eu suava. Havia visto ela por apenas segundos, mas não conseguia nem pensar direito. Tudo o que consegui fazer foi tirar este retrato dela, depois que ela passou. E guardei comigo.

Ela continuava olhando a foto. Mas parecia um pouco mais calma, provavelmente porque sabia agora que a história não era recente. Mas seus olhos ainda brilhavam de ódio.

– E você nunca mais viu essa menina?

– Eu vou chegar lá. Fui para casa e revelei as fotos. Quando esta foto ficou pronta, passei a noite em claro olhando o retrato. E jurei para mim mesmo que, se eu tivesse a chance de fazer essa menina feliz um dia, se ela namorasse comigo, eu seria a melhor pessoa do mundo. Cuidaria dela com todas as minhas forças, seria compreensivo, companheiro. Estaria sempre ao lado dela. E faria de tudo para que ela fosse feliz.

– Quem é essa filha da puta?

Ele ignorou e continuou contando.

– No dia seguinte, eu esperei por ela no mesmo local, no mesmo horário. Ela passou por mim novamente, mas não me viu. Na verdade, eu me escondi atrás de um carro quando ela passou, não queria que ela me visse. Quando ela passou por mim, eu corri para a calçada e tirei outra foto dela. Nesta, ela estava com os cabelos soltos. Guardei esta também, está junto com meu passaporte. E eu fiz isso a semana inteira. Esperava ela passar naquele local, todos os dias, e tirava fotos dela. Sempre quis ter uma foto do rosto dela, mas não tinha coragem de me arriscar e bater o retrato com ela olhando. Eu era muito tímido.

– Qual é o nome dela?

– O nome dela não faz diferença agora. Deixe eu terminar a história, por favor. Eu passei a semana inteira fazendo isso. Estava totalmente apaixonado por ela. Passava as noites segurando a foto dela na frente do meu rosto e sonhando com ela, até adormecer. Daria de tudo para ter uma chance com ela. Uma chance, mais nada. Assim, um dia, passei a segui-la. Descobri onde ela morava. Descobri onde as amigas delas moravam. Como não tinha coragem de falar com ela, venci a timidez e fui falar com uma das amigas dela.

– Você está inventando isso! Quem é essa menina?

– Não precisa ficar brava, isso aconteceu antes da gente se conhecer.

– Não me importa! Você ainda tem a merda da foto!

– Enfim... Fui falar com uma amiga dela. Expliquei a situação, disse que estava totalmente apaixonado, e perguntei como poderia encontrá-la. Ela me contou que iriam num baile, no sábado, num clube do bairro. E, no sábado à noite, eu fui ao clube. Sozinho. Criei coragem e fui conversar com a menina da foto.

A mulher agora estava dividida entre o ciúmes e a curiosidade de saber onde aquilo iria terminar. Ficou em silêncio.

– Conversamos a noite toda e combinamos de sair durante a semana. Começamos a namorar.

–Porque você não fala logo a porra do nome dela? Você tem medo do quê? Eu conheço essa menina?

– E a cada dia eu estava cada vez mais apaixonado. Não conseguia parar de pensar nela. Conheci a família dela, ela conheceu a minha. Nos falávamos por horas no telefone, todos os dias. Eu nunca tive na minha vida uma certeza tão grande de algo como eu tinha certeza da gente.

A mulher ficou em silêncio, talvez temendo onde aquilo iria acabar. Não fazia a menor idéia de que ele havia vivido essa história. Sempre achara ser o grande amor da vida dele. Engoliu em seco e perguntou:

– E o que aconteceu com ela?

– Eu me casei com ela, três anos depois disso.

A mulher abriu a boca para dizer algo, mas mudou de idéia.

– Hoje, ela está aqui de pé, na minha frente. A menina é você.

Lágrimas começaram a descer pela face dela.

– Você é a menina da foto. Desde o momento em que te vi, eu soube que você era a pessoa certa para mim, e jurei para mim mesmo que daria tudo o que tenho, tudo o que sou, para você. Que, se eu pudesse, faria você feliz em todos os dias da minha vida. Amaria você como nenhum homem jamais amou outra mulher. E ando com esta foto na carteira desde aquela terça-feira. E não para me lembrar dessa promessa, porque eu não preciso de nada para me lembrar dela. Mas ando com esta foto e olho para ela todos os dias, por alguns segundos, e agradeço por ter tido a chance de ter você.

Agora, ela chorava compulsivamente, de pé, na frente dele. Sem forças, deixou os braços caírem ao lado do corpo. O retrato foi ao chão. Ele se levantou e pegou a foto, gentilmente. Parou na frente dela e disse:

– Eu amo muito você. Eu sempre amei. Eu amava você antes mesmo de nos conhecermos.

Ela enfiou o rosto no peito dele, soluçando e perguntou:

– Mas porque você nunca me disse isso? Porque você nunca me contou isso?

Ele a abraçou e respondeu:

– Eu disse isso a você. Eu disse isso todos os dias da minha vida, nos últimos 22 anos.

Passaram o resto da tarde em pé no meio da sala, abraçados, com ela chorando no seu peito.

15 leitores:

Amanda Ullmann disse...

Será que isso poderia ser real? Será que há uma maneira de acreditar quando um sentimento parece loucura?
Simplesmente lindo.

Amanda Ullmann disse...

"Antes mesmo de abaixar o jornal, ele sabia do que ela estava." Não tá faltando uma palavra aí? E "Mas ando com esta foto por olho para ela todos os dias" Não seria: "e olho pra ela todos os dias"?

só pra lembrar: esse texto é muito lindo.

Rob Gordon disse...

Amanda

Você tem razão, correções feitas. Sorry, escrevi ele na pressa, estava de saída.

Que bom que gostou.

Beijos.

Camila disse...

Lindo texto, Rob!

Jullia A. disse...

eu já sabia que era ela.um pouco depois de ela perguntar quem era.Sei lá.

Dani. disse...

Lindo demais.

Pri disse...

Q lindooo... demais!

Milla Pupo disse...

Sabe quando a gente lê algo e sente um aperto no peito? Ou quando assistimos um filme e fica aquela lágrima prester a cair?

Esse texto foi isso.

Layla Barlavento disse...

Fiquei com nó na garganta. Sei lá, ando tão sentimental e discrente... Incoerente não? Pois é... Belo texto Rob. Gosto de vir aqui pra me lembrar que sou humana e também sonho.

Beijos na alma!
Layla Barlavento

Marina disse...

Precisava desse texto antes de ir dormir. Obrigada.

Wi disse...

Não dá pra mensurar o quanto esse texto é lindo e sensível.
Pode até parecer uma situação surreal, muito imaginativa, mas é tão intensa que acaba sendo real e verdadeira.
Fico imaginando quantas histórias assim temos por aí... :)

Resumindo: lindo!

Bia Nascimento disse...

lindo...
Termino de ler essa crônica belíssima com um nó na garganta imenso!

Você me emociona!

Um beijo,
www.twitter.com/beatrisgn

Daniela disse...

Um montão de gente passou na porta do meu conteiners a pouco e perguntaram pq eu estava chorando...

Nadia disse...

"– Responde ou este casamento acaba agora!"

Aqui, eu já sabia que era ela... e mesmo assim o tes]xto ainda me emocionou.

E chega de casais extremamente apaixonados pelamordedeus, antes que eu chore.

Odaisa Pardal disse...

Lindo!!! Apaixonante!!!!

 

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