5 de agosto de 2009

Sem Roteiro

A porta se abre e um sujeito loiro, de terno e gravata, entra no local.

– Bom dia. Em que posso ajudá-lo?

– Aqui é uma farmácia?

– Isso mesmo. O que o senhor precisa?

– Então... Não sei bem.

– Como assim, senhor?

– Sim, eu não sei ao certo se deveria estar aqui.

– Como assim?

– Olhe, eu não sei como dizer isso, mas... Bem...

– Pode ficar tranqüilo, senhor. Estou acostumado a receber pedidos estranhos.

– Sim, eu imagino, mas...

– E sou totalmente discreto.

– Não duvido disso.

– Então...

– O fato é que eu não sei o porquê de ter vindo até aqui.

– Como assim?

– Olhe, eu vou tentar explicar. Nós estamos dentro de uma crônica, você sabia?

– Sim, senhor.

– Então, apenas me mandaram vir para cá, mas não disseram o que eu tinha que fazer aqui. Achei que fossem me entregar algum tipo de roteiro, ou uma piada. Mas não me enviaram nada. Aí, chegou a hora de vir, e eu vim. Mas não sei o que fazer.

– Não é a primeira vez que isso acontece.

– Eu tentei ligar para o celular do autor, mas ele não atendeu.

– E agora você está aqui.

– Sim. E sem nada para fazer.

– Será que o autor resolveu testar aquela teoria de que às vezes os personagens começam a tomar decisões e escolher caminhos por conta própria?

– Hum... Pode ser. É uma idéia. Mas isso deveria acontecer com personagens mais desenvolvidos, que já tem uma personalidade definida, certo? Eu acabei de entrar aqui na farmácia, então não faço idéia do que eu possa querer.

– Uma aspirina, talvez?

– Como assim?

– Desculpe, é que eu tenho um acordo com o autor do blog, e ganho uma participação em cada produto que eu vender aqui durante as crônicas. E, apesar de vender pouco, ajuda no orçamento. Não é fácil pagar as contas sendo personagem de crônicas de um blog.

– Ah é? Eu não sabia, sou novo nisso.

– Esta é sua primeira crônica?

– Sim. Quer dizer... Uma vez trabalhei em outro texto, que se passava num estádio de futebol. Mas eu não era o personagem principal. Eu era apenas um vendedor de amendoim que não tinha troco.

– Mas você tinha muitas falas?

– Ah, algumas. Mas o texto nunca foi terminado. Ficou pela metade.

– Puxa... Que pena. Olhe, o começo é difícil mesmo.

– E agora eu estou aqui, recebi esta segunda chance, mas não sei o que fazer aqui.

– Eu realmente não sei se posso ajudar. Eu nem sabia que teria uma crônica aqui hoje.

– Será que eu estou no lugar certo?

– Ah, provavelmente. Este blog é meio desorganizado, o dono resolve produzir crônicas de última hora, e não avisa ninguém.

– Sério?

– Sim. É bem normal isso acontecer aqui. Sem falar quando ele tem idéias absurdas. E nem sempre funcionam e aí ele abandona os textos pela metade.

– Verdade?

– Sim. Às vezes ele se cansa do texto e larga no meio. Mas tem vezes que ele se enche e começa a colocar bobagens no texto.

– Como assim?

– Uma vez ele estava escrevendo um texto aqui, parecido com esse nosso, mas somente com diálogos. Mas o texto não estava indo bem, o diálogo estava arrastado, acho que ele não sabia direito onde queria chegar. Você acredita que no meio do texto ele simplesmente jogou um tigre no meio do depósito, aqui atrás desta porta? Aí ele desistiu do texto e deixou a gente com o tigre. Tive que chamar um veterinário de outra crônica para ajudar.

– Imagino o pânico que não foi.

– Você não faz idéia, quase perdi um braço! Aí conseguiram tirar o tigre daqui, doaram para um circo, não sei ao certo. Mas é só para você ter uma idéia das coisas que acontecem por aqui. Então, o fato de você está sem roteiro nenhum na mão é normal.

– Entendi.

– Mas é melhor mudar de assunto, porque ele não gosta de ser criticado. Se ele ouve nossa conversa, é capaz de eu e você irmos para a geladeira, e ficarmos meses sem aparecermos em crônica nenhuma.

– Ele leva tudo para o lado pessoal, é isso?

– Exatamente.

– Olhe... A crônica já está chegando ao final. Temos mais algumas linhas somente, e ainda não aconteceu nada.

– Será que outro personagem deveria ter aparecido, mas não conseguiu chegar?

– Ninguém me falou nada sobre isso. Apenas me mandaram para cá. Achei que fosse receber algum roteiro no caminho.

– Bem, ao menos você chegou até o final da crônica.

– Resta saber se isso será publicado. Acho difícil, não aconteceu nada, quem gostaria de ler isso?

– É. Faz sentido. Mas nunca se sabe, hoje em dia publicam cada coisa nos blogs...

– Será que ele está guardando algo para o final? Uma frase bem colocada, que explique tudo o que está acontecendo por aqui?

– Talvez. Mas não sei se é o estilo dele...

– Olhe, vamos fazer o seguinte. Eu vou embora. Se vierem perguntar por mim, diga que eu esperei aqui, mas não aconteceu nada. E que se precisarem de mim, estou em casa.

– Ok, sem problemas. Darei o recado a eles. Boa sorte.

– Obrigado.

– Você não pode só comprar uma aspirina antes de ir? Ou um antiácido?

– Eu adoraria ajudar, mas estou sem dinheiro nenhum.

– Ah, sem problemas. Fica para a próxima. Boa sorte!

– Obrigado.

Passam-se os minutos. Subitamente a porta da farmácia se abre e uma morena estonteante entra no estabelecimento.

– Bom dia.

– Estou procurando meu marido! Sei que ele está aqui! Onde está esse filho da puta?

– Senhora?

– Onde está aquele desgraçado? Loiro, alto, sardas no rosto! Vou matá-lo!

– Ah, ele estava aqui até agora. Mas foi embora já há alguns minutos.

– Merda! Eu teria que vir aqui e brigar com ele, porque ele está me traindo. Esse era o assunto da crônica. Mas eu perdi a hora, e acabei me atrasando.

– Ele foi embora já faz uns dez minutos.

– E agora? Eu precisava muito do cachê desse texto.

– Sinto muito. Quer uma aspirina?

– Acho que aceito sim, obrigada.

– Bem, eu posso avisar o pessoal da produção que vocês se desencontraram e ver se eles conseguem remarcar a crônica.

– Puxa, você faria isso?

– Claro, é só eu encontrar algum deles.

– É... Senhor?

– Sim.

– Mantenha a calma e não faça movimentos bruscos.

– Como assim?

– Tem um tigre atrás de você!

– Ah, não! De novo, não!

15 leitores:

Dragus disse...

Li antes de todos. =p

Genial, e um final insólito.

George Marques disse...

Realmente, você precisa de ajuda profissional, Rob. Mas pensepelo lado positivo, o Van Gogh tambem era maluco, asaushuahsuahs

Dragus disse...

Ah sim: me lembrei enquanto lia de daquele seriado muito antigo... "além da imaginação".

Você com certeza o assistia muito. =p

Sherazade disse...

Adorei!! Chorei de rir - ainda mais porque "não faça movimentos bruscos" é uma frase que eu falo sempre, herdada do meu pai...

Acho que não é do seu tempo, mas quando eu era pequena assistia os Bananas Split e tinha um episódio da "Ilha Misteriosa" que repetiam infindavelmente - e adivinha como terminava? com um tigre pulando.
Nunca, nunca soube o que acontecia na sequência, eles nunca passaram...

André B. Tosello disse...

Ganhou mais um leitor! Parabens. Se precisar de personagens para as proximas cronicas estou disponível. E como que rola o lance de vender coisas e ganhar um extra? E o cachê? É legal?

Dama do Lago disse...

Imagino o trabalho que dá criar algo sem sentido nenhum e ainda conseguir fazer os leitores acharem graça...só você mesmo para conseguir isso ^_^

Hally disse...

Acompanho o bloga há um tempo já, mas vai ser a primeira vez que comento, só porque "ri litros".

Como você é vingativo hein... pobre rapaz da farmácia!
=P

Norma Lica disse...

Muito bom!!!

Marina disse...

Convenhamos, foi bom o pobre não ter ficado. Ia terminar tendo que enfrentar dois tigres.

Jullia A. disse...

GE-NI-AL !
inesperado. Conciso.

Tyler Bazz disse...

Eu quero escrever assim :////////

Michele Silva disse...

nossa! muito bom!
adorei!

Não sei...só sei que foi assim! disse...

Medo! ahahahahha

Bom, sempre! Muito Bom!

Lou disse...

Legal, mas acho que demorou demais na parte do loiro. Bem monty-pythoniano

Otavio Cohen disse...

Bem monty-pythoniano (2)

 

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