2 de agosto de 2009

Memórias de Gênero não Definido

(ou: "O Dia Mais Triste na Vida Dele. Ou Dela")


Acordou cedo – na verdade, havia dormido mal – e passou a manhã no sofá, vasculhando os canais de TV em busca de algo interessante. Não encontrou nada, e deixou num noticiário qualquer, com o volume alto (adoro ver TV com você, sem ter nada para fazer), apenas para que o som da televisão impedisse a casa de se tornar maior que parecia naquele momento.

Desistiu. Encheu uma caneca de café e, da varanda, observou a rua.

Sentia-se como se não conseguisse se encaixar em lugar algum. Aliás, sentia-se como se nunca, durante (promete que nunca vai me deixar?) sua vida, tivesse feito parte de algo. Ou de alguém. As poucas vezes em que se sentiu de forma diferente foram pequenos intervalos. Ou, melhor, pequenos (ninguém sabe mexer no meu cabelo, só você) acidentes de percursos, que serviam apenas para aumentar (mais bonito que você, só nós dois juntos) ainda mais o gosto amargo que sentia na boca.

O Sol brilhava lá (vamos andar sem destino pela rua, apenas passear?) fora. Carros iam e vinham, pessoas, casais e famílias, passeavam conversando em frente (vamos andar do outro lado da rua, lá tem Sol) ao seu prédio. Fechou os olhos e se imaginou no lugar de um deles.

Enquanto mantivesse os olhos fechados, ali, na varanda, brincando de faz de conta, também tinha uma família. Também era feliz. Tinha encontrado o grande amor de sua vida (eu simplesmente não consigo ficar longe de você) e, juntos, tinham dois filhos. Um casal. Mais importante que isso, tinha a certeza de que aquela vida (hoje é o dia mais feliz da minha vida), aquele amor todo, era para sempre.

Abriu os olhos e, afastando o cabelo dos olhos, voltou à realidade. Olhou o relógio. Quase meio-dia. Pensou em sair para almoçar, mas sentiu-se desconfortável com a idéia de ir para a rua. Não queria ver os casais (hoje, eu vou cozinhar para você) ou as pessoas felizes passeando. Gostava de mantê-los ali, na (você faz idéia do quanto é especial?) varanda, como pequenas ilustrações que passeavam por uma rua fictícia. Vê-los de perto, torná-los reais, palpáveis, apenas aumentaria sua solidão.

Sacudiu levemente a cabeça e decidiu parar de pensar bobagens. Colocou seus sapatos e foi até o restaurante da esquina almoçar. Sentou-se na última mesa, de costas para a rua, e comeu (estava aqui olhando as fotos da nossa primeira viagem, lembra do velhinho do hotel?) com a cabeça baixa, mantendo os olhos no prato. Voltou rapidamente para casa, e, assim que entrou em seu apartamento, checou (sua voz é tão bonita) as mensagens na secretária eletrônica. Nada.

Ligou novamente a televisão e deitou-se no sofá. Fez força para pensar em qualquer outra coisa. Mas não conseguia evitar. Percebeu (até quando eu estou com você, eu sinto saudade) que estava com um enorme buraco no peito. Saudade. Sentou-se no sofá e sentiu vontade de chorar, mas segurou as lágrimas.

Deitou-se novamente e tentou cochilar. Não conseguia. Mesmo tendo dormido mal, o sono parecia (comprei mais remédio, você está melhor?) querer não chegar. E o fato de que sempre recebia uma ligação por volta (já almoçou?) deste mesmo horário, não ajudou. Levantou-se e foi checar a secretária eletrônica novamente. Nada.

Foi para a cama e, com o rosto enfiado numa almofada, tentou adormecer. Não conseguiu. Na verdade, começou a chorar.

Segundos depois de perceber que sentiria saudade. De tudo.

Dos cinemas, dos risos, dos passeios de mãos dadas. Sentiria saudade dos primeiros dias, das ligações que duravam horas (a gente já está no fone faz horas), ou daquelas que duravam vinte segundos (liguei apenas para dizer que te amo). Sentiria saudade do sexo, de dormirem abraçados depois e de acordarem no mesmo horário na manhã seguinte (eu acho isso mágico na gente, sempre achei), sem motivo aparente. Sentiria saudade de achar que era para sempre.

O telefone tocou e levantou-se rapidamente. Era no apartamento do vizinho. Soltou um sorriso amargo e, limpando as lágrimas do rosto, deitou-se novamente. Não queria (a semana foi pesada, vamos alugar uns filmes e pedir uma pizza?) mais apenas dormir, queria dormir para não pensar. Ou melhor, para não lembrar.

Porque, de repente, havia percebido que não estava (vamos tirar o dia de hoje para a gente?) com saudade de nada disso. Estava com saudade apenas de ter o direito de sentir saudade, coisa que, de (enquanto você tiver essa foto com você, eu vou te amar) hoje em diante, lhe seria proibida.

A partir deste momento, não poderia nunca mais matar a saudade. A partir deste momento, a saudade seria insuportável. Para sempre.

Fechou os olhos e, depois de alguns (seu sorriso significa tanto para mim) minutos, adormeceu. O telefone (eu te amo) não tocou.

7 leitores:

Otavio Cohen disse...

poxa, rob.

anuncia texto novo no twitter assim sem nem preparar a gente emocionalmente pro negocio. seus textos "de viado", como diz o champ são os mais fodas. aposto (e ganho) q ele tem ciúmes d tudo o q vc coloca aqui no chronicles.
fala com ele pra parar com essa viadagem de ciumes pq isso aqui tb faz parte dele né. é todo o pacote "champ" hehe.

foram os melhores minutos do meu domingo, valeu.

Luízα disse...

Não tem como não virara fã. Faz o meu gênero o texto. Gostei bem. Te cuida ein. Bjão :*

Luízα disse...

virar*

Jullia A. disse...

muito muito apaixonado. Quem quer que esteja com voce ( mesmo que seja voce mesmo) tem muita sorte.

Gabriel Leite disse...

Gostei dos lapsos de lembrança, entre a narração.

E, com certeza, o protagonista é homem. Mulher se preocupa mais em comprar remédio e em ligar pra perguntar se já tinha almoçado.

Rob Gordon disse...

Gabriel

Não se sabe se os lapsos de memória são frases que o(a) protagonista disse ou se foram coisas que ele ouviu. Ou ambos.

Marina disse...

Ah, também visualizei o protagonista como homem. Haha! Sei lá por quê.

O texto deixa pra gente uma pontinha de melancolia... Na verdade, me leva a um tempo passado, que quis esquecer. Agora, só lembranças, nem a saudade existe mais.

 

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